Cânon de Marcião

O Cânon de Marcião foi uma coleção de textos sagrados cristãos compilada e proposta por Marcião de Sinope (c. 85 – c. 160 d.C.) em Roma, por volta de 140–144 d.C. É frequentemente considerado o primeiro cânon cristão deliberadamente compilado, embora a Igreja Primitiva já usasse diversos escritos.

Canôn de Marcião

Marcião, um teólogo e construtor naval da região do Ponto (atual Turquia), acreditava numa distinção radical entre o Deus do Antigo Testamento (o Demiurgo, uma divindade justa mas vingativa) e o Deus superior do Novo Testamento (o Pai, um ser de amor e misericórdia revelado por Jesus).

Para apoiar essa teologia dualista, Marcião rejeitou completamente o Antigo Testamento. No que viria a ser o Novo Testamento, ele também rejeitou todos os evangelhos e epístolas que considerava corrompidos por influências judaicas. O seu cânon consistia em apenas duas seções:

1.  Evangelikon (O Evangelho): Uma versão editada e abreviada do Evangelho de Lucas, da qual Marcião removeu o relato do nascimento e da infância de Jesus e outras passagens que ligavam Jesus ao Deus do Antigo Testamento.

2.  Apostolikon (O Apóstolo): Uma coleção de dez epístolas de Paulo (sem as Epístolas Pastorais: 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito, nem Hebreus), igualmente editadas para remover referências favoráveis ao Antigo Testamento. A lista incluía Gálatas, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Romanos, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, Colossenses, Filémon, Filipenses e uma epístola aos Laodicenses (que alguns estudiosos modernos equiparam à Epístola aos Efésios).

Autoria e Descoberta

Quem a Escreveu (Compilou/Editou)

O cânon foi compilado e editado por Marcião de Sinope. Os textos base foram o Evangelho de Lucas e dez epístolas de Paulo.

Quando e Onde Foi Descoberta

Não se trata de uma "descoberta" de um manuscrito único e intacto em um local específico e em uma data recente. O cânon de Marcião não sobreviveu em sua forma original. O que se conhece sobre ele é uma reconstrução feita por estudiosos modernos a partir de citações, referências e refutações detalhadas encontradas nos escritos dos Pais da Igreja, que eram seus oponentes. Os principais testemunhos vêm de:

  • Tertuliano (c. 155 – c. 240 d.C.), em seu tratado de cinco livros, Adversus Marcionem (Contra Marcião), escrito por volta de 208 d.C.

Publicação e Língua

Publicação

O cânon, em sua forma original marcionita, não foi publicado pela Igreja Cristã Ortodoxa, que o considerava herético e levou à excomunhão de Marcião em 144 d.C. Marcião publicou (isto é, divulgou amplamente e ensinou) este cânon para as suas próprias comunidades, os marcionitas, que persistiram por séculos.

Língua

Os textos do cânon de Marcião foram escritos em grego koiné, a língua comum do cristianismo primitivo.

Comparação de Cânones

A tabela abaixo compara a inclusão de vários livros no Cânon de Marcião com a sua presença no cânon do Novo Testamento aceito atualmente pela maioria das grandes denominações (Cânon de 27 livros).

Livros Canon de Marcião Canon Atual
Antigo Testamento Não
Evangelho de Mateus Não
Evangelho de Marcos Não
Evangelho de Lucas

(versão completa)

Não
Evangelho de João Não
Evangelho de Marcião

(versão de Lucas editada)

Não[1]
Atos dos Apóstolos Não
Epístola aos Romanos
1 Coríntios
2 Coríntios
Gálatas
Efésios Talvez[2]
Filipenses
Colossenses
1 Tessalonicenses
2 Tessalonicenses
1 Timóteo Não
2 Timóteo Não
Tito Não
Filémon
Hebreus Não mencionada[3]
Tiago Não
1 Pedro Não
2 Pedro Não
1 João Não
2 João Não
3 João Não
Judas Não
Apocalipse de João Não

Fontes

  • Tertuliano: Adversus Marcionem. (c. 208 d.C.)
  • Epifânio de Salamina: Panarion. (c. 377 d.C.)
  • Adolf von Harnack: Marcion: The Gospel of the Alien God. 1921. ISBN 9780939464166

Notas

  1. Foi rejeitado pela Igreja Primitiva por ser considerado uma versão mutilada e editada do Evangelho de Lucas, com passagens removidas para se adequar à teologia dualista de Marcião que negava a ligação entre Jesus e o Deus Criador judaico.
  2. No Cânon de Marcião, a epístola é conhecida como "Epístola aos Laodicenses". A maioria dos estudiosos modernos sugere que esta corresponde à Epístola aos Efésios do cânon atual, possivelmente rebatizada por Marcião.
  3. Provavelmente não foi incluída, porque a Epístola aos Hebreus faz uma extensa ligação entre Jesus e o Antigo Testamento, uma teologia que Marcião rejeitava; além disso, a sua autoria paulina (o único apóstolo que Marcião aceitava) já era contestada na época.