Bryconops melanurus

Bryconops melanurus
Ilustração de 1912
Ilustração de 1912
Ilustração de 1797
Ilustração de 1797
Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actinopterygii
Ordem: Characiformes
Família: Iguanodectidae
Gênero: Bryconops
Espécie: B. melanurus
Nome binomial
Bryconops melanurus
(Bloch, 1794)
Sinónimos[2][3]
  • Salmo melanurus Bloch, 1794 (combinação original)
  • Creatochanes melanurus Bloch, 1794 (combinação posterior)

Bryconops melanurus, popularmente conhecido como lambari,[4] é um pequeno peixe caraciforme de água doce da família dos iguanodectídeos (Iguanodectidae), amplamente distribuído em drenagens de água clara e fluxo lento do escudo das Guianas e da bacia amazônica.

Nome

O nome popular lambari, segundo o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), tem origem controversa. Provavelmente originou-se do tupi arawe'ri, o nome dado a vários peixes da família dos caracídeos, através araberi > *arambari > *alambari > lambari. Foi registrado em 1749 como lambare, em 1914 como lambarys e 1928 como lambarí.[5] O nome genérico Bryconops tem origem grega, derivado de bryko (βρύκω), "morder" e ops (ὄψ), "aparência", podendo ser interpretado como “com aparência de mordedor” ou “semelhança com quem morde”.[6] Embora não possua um nome comum amplamente aceito pela comunidade científica,[7] é conhecida entre aquaristas como tetra-lanterna-traseira.[8][9][10]

Taxonomia e sistemática

Bryconops melanurus foi originalmente descrita pelo naturalista alemão Marcus Elieser Bloch em 1794, sob o nome de Salmo melanurus,[11] sendo listada como um salmão nativo do Suriname.[12][13] Em 1926, a espécie foi transferida ao gênero Creatochanes, conforme refletido em um artigo do ictiólogo britânico John Roxborough Norman.[14] Atualmente, Creatochanes não é mais considerado um gênero válido, sendo tratado como subgênero de Bryconops, ao qual B. melanurus pertence.[15] Bryconops transitoria foi considerada um sinônimo júnior de B. melanurus, mas uma revisão recente do gênero reconhece-a como espécie válida.[16] Estudos de códigos de barras de DNA revelaram que B. melanurus é mais proximamente relacionada a B. transitoria e um pouco mais distante de B. caudomaculatus.[17]

Descrição

Bryconops melanurus atinge um comprimento total máximo de cerca de 13,2 centímetros (5,2 polegadas), o que a posiciona entre as espécies de maior porte dentro do gênero Bryconops.[6] A cabeça é delgada, com focinho pontudo, e não apresenta mancha umeral, como frequentemente observado em congêneres (por exemplo, B. humeralis e B. inpai).[18] Compartilha aspectos da estrutura mandibular, que é bastante alongada, com B. inpai, B. affinis e B. giacopinii.[19] Esse fator contribuiu para que giacopinii fosse alocado no gênero Bryconops, em vez de permanecer no gênero originalmente proposto, Autanichthys.[19] É um peixe esguio e prateado, com dorso escurecido.[12] A nadadeira caudal possui marcas distintas, mas não exibe ocelo (mancha ocular) bem formado. Uma faixa escura, da largura da pupila, estende-se do centro da nadadeira até o lobo dorsal, e suas margens são escurecidas.[20] O restante da nadadeira pode apresentar pigmentação leve (geralmente amarelada)[12] ou ser totalmente transparente.[21] B. melanurus apresenta semelhanças morfológicas com os congêneres B. transitoria e B. gracilis, mas pode ser diferenciada por características morfométricas e diferenças na estrutura das nadadeiras. Por exemplo, B. transitoria apresenta de 23 a 27 raios na nadadeira anal, enquanto B. melanurus possui de 28 a 29.[15] É também semelhante a B. cyrtogaster, que possui corpo mais alto e maior número de raios na nadadeira anal (30–31).[14]

Distribuição e habitat

A localidade-tipo de Bryconops melanurus é o Suriname, mas nenhum rio específico foi mencionado na descrição original.[12] É amplamente distribuído na Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Paraguai, Venezuela, nas bacias dos rios da bacia amazônica, no Orinoco e no Paraguai e nas drenagens costeiras das Guianas (Guiana, Suriname, Guiana Francesa). No Brasil, está presente nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pará, Rondônia, Tocantins, nos biomas da Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal. Além da bacia do rio Paraguai, a espécie está presente em território brasileiro nas sub-bacias do litoral do Amapá, do Araguaia, da foz do Amazonas, do Curuá, do Gurupi, do Madeira, do Moju, do Negro, do Paranaíba, do Paraná RH1, do Paru, do Purus, do Solimões, do Tapajós, do Alto e Baixo Tocantins, do Trombetas, do Xingu[15][22] e do São Francisco.[1] Habita zonas bentopelágicas de água doce, preferindo pH entre 5,6 e 6,8 e temperaturas de 23° C a 26° C.[6]

Biologia e ecologia

Bryconops melanurus apresenta dioecismo, realiza fertilização externa e pertence à guilda de reprodução dos não guardiões, dispersando seus ovos em água ou sobre substratos abertos, sem qualquer cuidado parental.[23] Não parece ter preferência por um biótopo específico.[6]

Dieta

Bryconops melanurus alimenta-se principalmente de insetos.[6] Esse comportamento é consistente com o restante do gênero, cujos membros são em sua maioria invertívoros, com alguns poucos herbívoros registrados.[24] Seus hábitos alimentares específicos não são bem conhecidos, mas podem ser semelhantes aos de congêneres como B. inpai e B. magoi, que consomem insetos terrestres que caem de árvores ou são arrastados para o rio.[25][26]

Conservação

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica Bryconops melanurus como uma espécie pouco preocupante (LC). Embora haja poucas informações disponíveis sobre a espécie, ela apresenta ampla distribuição e não enfrenta ameaças conhecidas. Ainda não há dados sobre o tamanho ou as tendências de sua população, mas acredita-se que seja comum.[1] Embora seja conhecida por ser exportada do Peru para a indústria de aquarismo,[27] e tenha presença entre aquaristas,[9] não se acredita que esteja ameaçada de extinção. Aquaristas sabem que a espécie não se adapta muito bem a aquários, em parte por ser um peixe ativo que necessita de bastante espaço para nadar.[6] Em 2018, foi classificada como pouco preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).[4][28] A espécie está presente em várias áreas de conservação:[22]

Área de Proteção Ambiental (APA)
  • Planalto Central
  • Caverna do Moroaga
  • Arquipélago do Marajó
  • Margem Esquerda do Rio Negro - Setor Tarumã-Açu-Tarumã-Mirim
  • Aricá-Açu
  • Tarumã-Ponta Negra
Estação Ecológica (ESEC)
  • Jutaí-Solimões
Floresta Nacional (Flona)
Parque Nacional (PARNA)
Parque Estadual (PE)
  • Rio Negro - Setor Sul
Reserva Biológica (Rebio)
Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)
  • Rio Madeira
  • Rio Negro
  • Piagaçu-Purus
Reserva Extrativista (Resex)
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)
  • Adão e Eva
  • Estância Dorochê
  • Fazenda São Geraldo
  • Jubran
  • Laço de Amor
  • Retiro Boa Esperança
  • Seringal Assunção
  • Seringal Triunfo
Terras Indígenas (TI)
  • Avá-Canoeiro
  • Bragança-Marituba
  • Nove de Janeiro
  • Kayapó

Referências

  1. a b c Salvador, G. N. (2023). «Bryconops melanurus». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. 2023: e.T49830074A134696173. doi:10.2305/IUCN.UK.2023-1.RLTS.T49830074A134696173.enAcessível livremente. Consultado em 11 de junho de 2025 
  2. «Bryconops melanurus - Accepted name». FishBase. Consultado em 10 de junho de 2025. Cópia arquivada em 5 de maio de 2025 
  3. Froeser, R.; Pauly, D. «Bryconops melanurus (Bloch, 1794)». World Register of Marine Species (WoRMS). Consultado em 10 de junho de 2025. Cópia arquivada em 29 de dezembro de 2021 
  4. a b «Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção» (PDF). Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente. 2018. Consultado em 3 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2018 
  5. Grande Dicionário Houaiss, verbete lambari
  6. a b c d e f «Breviraja spinosa Bigelow & Schroeder, 1950». FishBase. Consultado em 10 de junho de 2025 
  7. «Bryconops melanurus (Bloch 1794) Names». Encyclopedia of Life. Consultado em 31 de outubro de 2022. Cópia arquivada em 8 de novembro de 2022 
  8. Dawes, John (2001). Complete Encyclopedia of the Freshwater Aquarium 1st ed. Nova Iorque: Firefly Books. p. 195. ISBN 9781552975442. Consultado em 31 de outubro de 2022 
  9. a b «Tail Light Tetra - Bryconops melanurus». Aquaticcommunity.com. Aquatic Community. Consultado em 31 de outubro de 2022. Cópia arquivada em 9 de dezembro de 2024 
  10. Goulding, M.; Caas, C.; Barthem, R.; Forsberg, B.; Ortega, H. (2003). Amazon Headwaters - Rivers, Wildlife, and Conservation in Southeastern Peru 1st ed. Lima, Peru: Asociación para la Conservación de la Cuenca Amazónica. ISBN 9789972402890. Consultado em 31 de outubro de 2022 
  11. «Bryconops melanurus Bloch, 1794». Integrated Taxonomic Information System (ITIS). Consultado em 11 de junho de 2025. Cópia arquivada em 22 de julho de 2010 
  12. a b c d Bloch, Marcus Elieser (1794). Bloch's Oeconomische Naturgeschichte der Fische Deutschlands (em alemão). 4. Berlim: J. Morino & Company. p. 104. Consultado em 31 de outubro de 2022 
  13. Reis, Roberto; Toledo-piza Ragazzo, Monica; Harold, Antony; Pavanelli, Carla; Buckup, Paulo A. (2003). «Genera incertae sedis in Characidae». Consultado em 31 de outubro de 2022 
  14. a b Norman, J. R. (1 de julho de 1926). «XI.—Descriptions of nine new freshwater fishes from French Guiana and Brazil». Annals and Magazine of Natural History. 18 (103): 91–97. doi:10.1080/00222932608633482. Consultado em 31 de outubro de 2022 
  15. a b c Silva-Oliveira, Cárlison; Canto, André Luiz C.; Ribeiro, Frank Raynner V. (30 de julho de 2015). «Bryconops munduruku (Characiformes: Characidae), a new species of fish from the lower Tapajós River basin, Brazil». Zootaxa. 3994 (1): 133–141. PMID 26250264. doi:10.11646/zootaxa.3994.1.7 – via Biotaxa 
  16. Ferreira, André Luiz Netto; Melo, Bruno Francelino de; Oliveira, Cárlison Silva de; Queiroz, Helder Lima de; Zuanon, Jansen; Wingert, Juliana Mariani; Sousa, Keid Nolan Silva; Sousa, Leandro Melo de; Py-Daniel, Lucia Helena Rapp; Andrade, Marcelo Costa; Rocha, Marcelo Salles; Machado, Valeria Nogueira (2025). «Bryconops transitorius (Steindachner, 1915)». Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) 
  17. Guimarães, Karen Larissa Auzier; de Sousa, Marcos Paulo Alho; Ribeiro, Frank Raynner Vasconcelos; Porto, Jorge Ivan Rebelo; Rodrigues, Luís Reginaldo Ribeiro (21 de dezembro de 2018). «DNA barcoding of fish fauna from low order streams of Tapajós River basin» (PDF). PLOS ONE. 13 (12): e0209430. PMC 6303048Acessível livremente. PMID 30576366. doi:10.1371/journal.pone.0209430 
  18. Knöppel, Hans-armin; Junk, Wolfgang; Géry, Jacques (janeiro de 1968). «Bryconops (Creatochanes) Inpai, A New Characoid Fish From The Central Amazon Region, With A Review Of The Genus Bryconops». Amazoniana. 1 (3): 231–246. Consultado em 20 de outubro de 2022 
  19. a b Chernoff, Barry; Buckup, Paulo Andreas; Machado-Allison, Antonio; Royero, Ramiro (1 de fevereiro de 1994). «Systematic Status and Neotype Designation for Autanichthys giacopinii Fernández-Yépez with Comments on the Morphology of Bryconops melanurus (Bloch)». Copeia. 1994 (1): 238–242. JSTOR 1446694. doi:10.2307/1446694. Consultado em 28 de outubro de 2022 
  20. Chernoff, Barry; Machado-Allison, Antonio (13 de dezembro de 2005). «Bryconops magoi and Bryconops collettei (Characiformes: Characidae), two new freshwater fish species from Venezuela, with comments on B. caudomaculatus (Günther)» (PDF). Zootaxa. 1094 (1). 23 páginas. ISSN 1175-5334. doi:10.11646/zootaxa.1094.1.1 – via Biotaxa 
  21. Chernoff, Barry; Machado-Allison, Antonio (31 de dezembro de 2005). «Bryconops». doi:10.5281/zenodo.6265593. Consultado em 11 de junho de 2025. Cópia arquivada em 8 de outubro de 2022 
  22. a b Pavanelli, Carla Simone; Vieira, Fábio; Cardoso, Priscila Camelier de Assis; Reis, Roberto Esser dos (2025). «Bryconops melanurus (Bloch, 1794)». Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). doi:10.37002/salve.ficha.15182.2. Consultado em 11 de junho de 2025. Cópia arquivada em 3 de maio de 2025 
  23. «Reproduction of Bryconops melanurus». FishBase. Consultado em 10 de junho de 2025. Cópia arquivada em 5 de maio de 2025 
  24. Echevarría, Gabriela; González, Nirson (novembro de 2018). «Fish taxonomic and functional diversity in mesohabitats of the River Kakada, Caura National Park, Venezuela». Nature Conservation Research. 3 (Suppl. 2). doi:10.24189/ncr.2018.048Acessível livremente. Consultado em 20 de outubro de 2022 
  25. «Bryconops inpai Knöppel, Junk & Géry, 1968». FishBase. Consultado em 10 de junho de 2025 
  26. «Bryconops magoi Chernoff & Machado-Allison, 2005». FishBase. Consultado em 10 de junho de 2025 
  27. Prang, Gregory (2007). «An industry analysis of the freshwater ornamental fishery with particular reference to the supply of Brazilian freshwater ornamentals to the UK market». Uakari. 3. doi:10.31420/uakari.v3i1.18 
  28. «Bryconops melanurus (Bloch, 1794)». Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Consultado em 10 de junho de 2025