Brokers (operadores políticos)

Brokers — também chamados de operadores políticos — são agentes que atuam na intermediação entre representantes eleitos e seus eleitores, mobilizando apoios para candidaturas.[1] Eles mobilizam redes político-territoriais e vínculos sociais para garantir votos a determinados candidatos, sendo lideranças comunitárias, ativistas, ou até mesmo políticos locais como vereadores e prefeitos.[1]

Características e atuação

Na prática, os brokers traduzem demandas e facilitam o acesso a serviços públicos,[1] desde marcações de consultas e obtenção de benefícios, até intermediações com a polícia ou com burocracias locais. Os brokers desempenham dois papéis principais: (1) o eleitoral, ligado à mobilização de votos para candidatos específicos, e (2) o intereleitoral, facilitando o acesso da população a serviços públicos, acompanhando demandas locais e monitorando o comportamento político dos representados.[1]

Essa mediação pode se dar por mecanismos legais e institucionais, como emendas parlamentares e outras formas de reconhecimento político por parte dos candidatos apoiados,[1] mas também por meios informais ou ilegais, como repasses informais ou acesso privilegiado a recursos públicos,[2] ou mesmo ameaças e violência.[3]

A estrutura de atuação dos brokers — ou de brokerage — pode ser analisada a partir das categorias analíticas que se referem à posição relacional dos intermediários dentro das redes políticas: macrobrokers e microbrokers.[4] Os macrobrokers são diretamente ligados a parlamentares, como assessores parlamentares formais, enquanto os microbrokers operam em escalas mais localizadas e por meio de vínculos secundários.[5] Essa relação é escalável: vereadores, por exemplo, podem funcionar como macrobrokers em relação a deputados com quem se coligam eleitoralmente, ao passo que seus próprios operadores locais são microbrokers. Muitos microbrokers aspiram a se tornar macrobrokers, ocupando cargos formais em gabinetes parlamentares.

Brokers na literatura

A figura dos brokers não é um fenômeno recente na literatura, sendo originalmente associada a outros personagens. No Brasil, o papel dos brokers foi relacionado aos coronéis da Primeira República, que exerciam poder local baseado no controle do voto e no acesso a recursos do Estado, estabelecendo formas de clientelismo.[6][7][8][9] Nos Estados Unidos, os ward heelers exerciam função semelhante nas máquinas políticas urbanas do século XIX e início do século XX, articulando redes de favores e influência sobre comunidades imigrantes.[10][11]

A literatura internacional, frequentemente, associa os brokers ao clientelismo político, destacando sua função como intermediários na troca de favores por votos.[12][3][13] No entanto, abordagens mais recentes, especialmente na América Latina, têm se debruçado sobre suas funções políticas mais amplas. Nesse sentido, surgem estudos que ressaltam a sua centralidade nos processos locais de representação política, inclusive, desempenhando um papel visto como positivo socialmente.[14][15][16][4][17]

Ainda que o uso do termo brokers seja mais empregado na literatura de ciência política, alguns estudos em urbanismo e serviço social discutem o papel de lideranças comunitárias enquanto operadoras políticas. Por exemplo, mulheres são identificadas como operadoras políticas em territórios específicos, como favelas, periferias, ocupações e comunidades tradicionais, frequentemente desempenhando papéis na mediação entre a população local e as esferas políticas formais, além de promoverem práticas de resistência, participação comunitária[18] e de enfrentamento das desigualdades.[19]

Referências

  1. a b c d e Hoyler, Telma; Gelape, Lucas; Silotto, Graziele (agosto de 2021). «A construção de vínculos político-territoriais na cidade: evidências de São Paulo». Opinião Pública (2): 549–584. ISSN 1807-0191. doi:10.1590/1807-01912021272549. Consultado em 7 de abril de 2025 
  2. Gingerich, Daniel W. (2014). «Brokered Politics in Brazil: An Empirical Analysis». Quarterly Journal of Political Science (3): 269–300. ISSN 1554-0626. doi:10.1561/100.00013040. Consultado em 7 de abril de 2025 
  3. a b Mares, Isabela; Young, Lauren (11 de maio de 2016). «Buying, Expropriating, and Stealing Votes». Annual Review of Political Science (1): 267–288. ISSN 1094-2939. doi:10.1146/annurev-polisci-060514-120923. Consultado em 7 de abril de 2025 
  4. a b Hoyler, Telma Luciana. «Representação política e conexão territorial: uma etnografia de vereadores e >i<brokers>/i< em São Paulo». Consultado em 7 de abril de 2025 
  5. Hoyler, Telma; Marques, Eduardo (2023). «Política local e coordenação intrapartidária nas dobradas eleitorais paulistanas». Revista Brasileira de Ciências Sociais (111). ISSN 1806-9053. doi:10.1590/3811000/2022. Consultado em 7 de abril de 2025 
  6. Carvalho, José Murilo de (1997). «Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma Discussão Conceitual». Dados (2): 229–250. ISSN 0011-5258. doi:10.1590/s0011-52581997000200003. Consultado em 7 de abril de 2025 
  7. JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. O coronelismo: uma política de compromissos. 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
  8. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  9. Leal, Victor Nunes (23 de junho de 1977). Coronelismo. [S.l.]: Cambridge University Press. Consultado em 7 de abril de 2025 
  10. Weaver, E. E.; Riordan, William L. (dezembro de 1948). «Plunkitt of Tammany Hall». The Western Political Quarterly (4). 480 páginas. ISSN 0043-4078. doi:10.2307/442968. Consultado em 7 de abril de 2025 
  11. Scott, James C. (março de 1972). «Patron-Client Politics and Political Change in Southeast Asia». American Political Science Review (1): 91–113. ISSN 0003-0554. doi:10.2307/1959280. Consultado em 7 de abril de 2025 
  12. Stokes, Susan C.; Dunning, Thad; Nazareno, Marcelo; Brusco, Valeria (16 de setembro de 2013). Brokers, Voters, and Clientelism. [S.l.]: Cambridge University Press. Consultado em 7 de abril de 2025 
  13. Novaes, Lucas M. (4 de setembro de 2017). «Disloyal Brokers and Weak Parties». American Journal of Political Science (1): 84–98. ISSN 0092-5853. doi:10.1111/ajps.12331. Consultado em 7 de abril de 2025 
  14. AUYERO, JAVIER (janeiro de 1999). «PERFORMING EVITA». Journal of Contemporary Ethnography (4): 461–493. ISSN 0891-2416. doi:10.1177/089124199129023307. Consultado em 7 de abril de 2025 
  15. Auyero, Javier (2000). «The Logic of Clientelism in Argentina: An Ethnographic Account». Latin American Research Review (3): 55–81. ISSN 0023-8791. doi:10.1017/s0023879100018653. Consultado em 7 de abril de 2025 
  16. Zarazaga, Rodrigo (2014). «Brokers Beyond Clientelism: A New Perspective Through the Argentine Case». Latin American Politics and Society (03): 23–45. ISSN 1531-426X. doi:10.1111/j.1548-2456.2014.00238.x. Consultado em 7 de abril de 2025 
  17. Corrêa, F. B. (2024). ‘Eleitos’ para o cargo?: uma análise sobre a contratação de assessores parlamentares.
  18. SOBREIRO E CRUZ, FERNANDA. «MULHERES EM MOVIMENTO: TERRITORIALIDADE, PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA NA FAVELA DA ROCINHA, NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (2007-2021)». Consultado em 7 de abril de 2025 
  19. Nunes, Nilza Rogéria De Andrade (10 de dezembro de 2020). «Mulher de favela: interseccionalidades e territorialidades». Revista Em Pauta (47). ISSN 2238-3786. doi:10.12957/rep.2021.56073. Consultado em 7 de abril de 2025