Bluma Zeigarnik
| Bluma Zeigarnik | |
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![]() Zeigarnik, fotografada em 3 de abril de 1921 | |
| Nascimento | 27 de outubro de 1900 Prienai |
| Morte | 24 de fevereiro de 1988 Moscovo |
| Sepultamento | Cemitério de Vagankovo |
| Cidadania | Império Russo, República Russa, Rússia bolchevique, União Soviética |
| Alma mater |
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| Ocupação | psicóloga, psiquiatra |
| Distinções |
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| Empregador(a) | Universidade Estatal de Moscovo |
| Orientador(a)(es/s) | Kurt Lewin |
Bluma Wulfovna Zeigarnik (russo: Блюма Вульфовна Зейгарник, IPA: [blʲumə vulʲfəvnə zʲɪjɡarnʲɪk]; foi uma psicóloga e psiquiatra lituano-soviética, membro da Escola de Psicologia Experimental de Berlim e do Círculo de Vygotsky. Ela contribuiu para o estabelecimento da psicopatologia experimental como uma disciplina separada na União Soviética no período pós-Segunda Guerra Mundial.
Na década de 1920, conduziu um estudo sobre memória, no qual comparou a memória em relação a tarefas incompletas e completas. Ela descobriu que tarefas incompletas são mais fáceis de lembrar do que as bem-sucedidas; isso agora é conhecido como Efeito Zeigarnik.[1] Mais tarde, começou a trabalhar no Instituto de Atividade Nervosa Superior de Moscou onde conheceria sua próxima grande influência, Lev Vygotsky e se tornaria parte de seu círculo de cientistas. Foi também lá que Zeigarnik fundou o Departamento de Psicologia. Em 1983, ela recebeu o prêmio Lewin Memorial Award por sua pesquisa psicológica.[2]
Biografia
Infância e juventude
Batizada Ženya Bluma Gerštein (ou Geršteinaitė),[1] Zeigarnik nasceu em 27 de outubro de 1901, na cidade de Prienai, no sul da Lituânia.[3] Seus pais, Volf e Ronya Gerštein, eram comerciantes judeus seculares, que desfrutavam de uma situação financeira confortável,[1] sendo extremamente respeitados pela comunidade local de judeus do local.[3]
Apesar de enfrentar grandes dificuldades provocadas por meningite,[1][3] que fizeram com que ela perdesse quatro anos de estudo, Zeigarnik se recuperou sem qualquer sequela, e veio a se formar com distinção no ginásio feminino de Minsk, em 1918.[1] Pouco tempo depois, prestou novo exame, destinado aos formandos do ginásio masculino, e então, após cursar Lógica e Psicologia pela segunda vez, começou a se preparar intensamente para os estudos universitários. Foi nesta época que Bluma conheceu seu futuro marido, Albert Zeigarnik, com quem se casou em 1919,[3] aos dezoito anos de idade.[4]

Em 1921, o casal se mudou para Berlim, a fim de estudar.[4] Ela ingressou no Departamento de Filosofia[1] da Universidade Friedrich Wilhelm,[4] onde assistiu a palestras de matemáticos, filósofos e psicólogos famosos da época, demonstrando particular interesse pelos ensinamentos dos psicólogos da Gestalt, especialmente Wolfgang Köhler, Max Wertheimer, Kurt Koffka e Kurt Lewin.[1] Ainda como aluna, Zeigarnik se envolveu no trabalho de um grupo de pesquisas liderado por Lewin, cujo objetivo era investigar os princípios da Gestalt e o efeito do campo psíquico além dos limites da percepção, nos processos cognitivos e sociais.[4]
Zeigarnik formou-se na Universidade de Berlim em 1925,[1][4] mas continuou a atuar como assistente de pesquisa.[4] Ela colaborou com Kurt Lewin em diversos experimentos para confirmar a teoria dele de análise de campos de força.
Um desses projetos, conduzido entre 1924 e 1926,[1] resultou no estudo "Über das Behalten erledigter und un-erledigter Handlungen" (em português: "Sobre tarefas concluídas e inacabadas"). Os resultados foram publicados integralmente no periódico Psychologische Forschung, introduzindo o fenômeno que Zeigarnik descreveu como "paradigma da tarefa interrompida".[4] Este conceito passou a ser conhecido como Efeito Zeigarnik na área da psicologia, após John William Atkinson o referenciar desta forma em sua dissertação sobre motivação, em 1953.[4]
Carreira posterior
Continuando a pesquisar em regime parcial até 1931, Zeigarnik então emigrou para a União Soviética com o marido, que havia recebido uma proposta de emprego na Comissão de Negócios Estrangeiros.[1] Uma vez em Moscou, trabalhou no Instituto de Atividade Nervosa Superior, que, em 1932, foi reestruturado e se tornou uma divisão do Instituto de Medicina Experimental de Toda a União.[1]
Nessa época, ela conheceu psicólogos russos notáveis como Lev Vygotsky e Alexander Luria, conseguindo apresentar ambos a Lewin pouco tempo depois. Desde sua primeira visita à clínica de Kurt Goldstein no Hospital Lazarett, em Berlim, Zeigarnik se dedicou à psicologia clínica, sendo que ao longo da década de 1930, essa área se tornou seu principal interesse.[3] No entanto, mesmo com o título acadêmico de Candidata em Ciências Biológicas que lhe foi concedido em 1935, Bluma não conseguiu publicar um único artigo científico entre 1936 e 1939, uma vez que este foi um período de obstrução ideológica contra cientistas na Rússia, sobretudo após 1936, com a publicação do decreto do Comitê Central do Partido Comunista de Toda a União, intitulado "Sobre as perversões pedagógicas no sistema dos Comissariados do Povo para a Educação".[3]
Em 1943, Zeigarnik se tornou chefe do laboratório de psicopatologia experimental no Instituto de Psiquiatria em Moscou, lecionando sobre o tema na Universidade Estatal de Moscou a partir de 1949. No entanto, foi suspensa de seu cargo no Instituto de Psiquiatria em 1950 e, em 1953, demitida devido à sua origem judaica, graças à campanha antissemita soviética, que ocorreu entre 1948 e 1953. A psicóloga somente voltou à ativa em 1957, depois de ser reintegrada ao seu cargo no Instituto de Psiquiatria.[5]
Bluma Zeigarnik concluiu seu terceiro doutorado em 1958, quando recebeu o título de Doutora em Ciências Pedagógicas e publicou a monografia "Distúrbios do Pensamento em Pacientes Psiquiátricos". Em 1962, lançou sua segunda monografia, intitulada "Patologia do Pensamento", sendo que a temática dos distúrbios do pensamento se tornou seu principal foco científico. Suas obras demonstram profundo conhecimento da psicologia e psiquiatria, tanto soviética quanto ocidental. Por viver na União Soviética, no entanto, enfrentou diversas restrições à liberdade de pensamento, e foi obrigada não apenas a fazer referências a Karl Marx e Lenin, como também a criticar as ideias ocidentais como "burguesas".[5]
Durante um período de relativa liberdade, Zeigarnik voltou a se dedicar ao estudo dos processos de pensamento e às manifestações dos distúrbios mentais na fala. Seu trabalho sobre esquizofrenia contribuiu para o desenvolvimento de métodos alternativos de tratamento, voltados à reabilitação social dos pacientes.[5] A partir de 1962, com o afastamento gradual da influência de Pavlov na ciência soviética, houve uma retomada da psicologia e da aplicação de diversos métodos de pesquisa psicológica.[5]
Em 1965, Zeigarnik recebeu o título de Professora de Psicologia e, em 1967, foi eleita presidente da Faculdade de Psicofisiologia e Neuropsicologia da Universidade Estatal de Moscou. Nos anos seguintes, publicou diversas monografias importantes, como "Introdução à Patopsicologia", em 1969, "Personalidade e Patologia da Atividade", em 1971 e "Fundamentos da Psicopatologia", em 1973 e 1976.[5]
Em 1969, participou do XIX Congresso Internacional de Psicologia em Londres, presidindo uma sessão sobre estudos experimentais em psicologia anormal, ao lado de Alexander Luria, que apresentou uma palestra sobre a origem e organização cerebral da ação consciente.[5]
Sua monografia "Psicologia Anormal Experimental" foi publicada em inglês em 1972, ampliando seu reconhecimento internacional. Em 1979, participou do Simpósio Internacional sobre o Inconsciente em Tiblíssi, que discutiu amplamente o conceito de inconsciente. Anos depois, foi coautora de uma revisão do evento, ajudando a desfazer mitos sobre a inferioridade da ciência ocidental em relação à soviética.[5]
Últimos anos
Durante seus últimos anos de vida, Zeigarnik desenvolveu uma anemia crônica grave, que exigia transfusões de sangue frequentes.[1] Ainda assim, teve uma fase produtiva e de reconhecimento internacional, recebendo prêmios na Alemanha e na União Soviética. Publicou obras que se tornaram referência para estudantes de psicologia, como "A Teoria da Personalidade de K. Lewin", em 1981, "Teorias da Personalidade na Psicologia Estrangeira", em 1982, e uma nova edição de "Patopsicologia", em 1986. Nestes trabalhos, demonstrou profundo conhecimento sobre diversas correntes psicológicas, desde a psicanálise clássica até abordagens humanistas e existenciais.[5]
Pequena e de aparência frágil, adorava receber convidados e se mostrava atenciosa com os que lhe faziam perguntas profissionais. Criou uma escola que funciona até os dias de hoje, e que formou muitos estudantes de psicopatologia, incluindo Yuri Polyakov, Valentina Nikolaeva e Boris Bratus a escola permanece ativa na Rússia atual.[1] Faleceu em 1988,[1] aos 87 anos de idade.[5]
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n Igual, Miguel Marco (2018). «Life and work of the psychologist Bluma Zeigarnik (1901-1988)» (PDF). Sociedad Española de Neurología. Neurosciences and History 2018. volume 6 (número 3): 116-124. Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑ Zeigarnik, B. V. (1984). «Kurt Lewin and Soviet Psychology». Society for Psychological Study of Social Issues - https://www.spssi.org/. Consultado em 24 de outubro de 2021
- ↑ a b c d e f Kostyanaya, Maria (31 de março de 2014). «Bluma Wulfovna Zeigarnik»
. International Association of Applied Neuroscience. The Neuropsychotherapist (número 5). Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h Mikulajová, Marína (29 de dezembro de 2021). «Bluma V. Zeigarnik - the life as a mirror of history of psychology of the 20th century». Československá psychologie (em eslovaco) (6). ISSN 1804-6436. Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i van Munsteren, Lizaveta (abril de 2023). «Bluma Zeigarnik: A Missing Name in the History of Psychoanalysis in Soviet Russia?». Psychoanalysis and History (em inglês) (1): 31–58. ISSN 1460-8235. doi:10.3366/pah.2023.0451. Consultado em 10 de novembro de 2025
