Bloqueio de Biafra

O bloqueio de Biafra pelo governo federal nigeriano durante a Guerra Civil Nigeriana (1967–1970) resultou em uma fome que custou pelo menos um milhão de vidas e terminou com a capitulação do estado secessionista de Biafra.
O bloqueio e a crise humanitária resultante estimularam a mobilização mundial e o amplo debate sobre o conceito de genocídio. Também estimulou um debate abrangente sobre se era ou não apropriado descrever os eventos que ocorreram em Biafra como um genocídio. Por fim, contribuiu para a reforma da lei do bloqueio para proteger civis e a proibição da fome como método de guerra nas emendas de 1977 às Convenções de Genebra.
Contexto

Após o contragolpe nigeriano de 1966, pogroms anti-igbos irromperam no norte da Nigéria, matando milhares de igbos. Chukwuemeka Odumegwu Ojukwu declarou a independência de Biafra nas áreas povoadas pelos igbos da Nigéria em 1967, e o governo federal liderado por Yakubu Gowon lançou uma guerra civil contra a entidade secessionista.[1]
O bloqueio

Durante as primeiras semanas da guerra, o governo nigeriano decidiu impor um bloqueio a Biafra. O acesso à república secessionista por meio de transações em moeda estrangeira, correio e telecomunicações, e todos os portos marítimos e aeródromos seriam cortados. Inicialmente não estava claro se o bloqueio da costa de 200 milhas (320 km) seria eficiente com os navios à disposição da Marinha da Nigéria e se a Força Aérea Nigeriana conseguiria interditar as rotas aéreas. No entanto, o bloqueio foi eficaz e mantido pelos próximos dois anos e meio. O governo nigeriano confiou no direito internacional para impor o bloqueio,[2] já que na época a fome como arma de guerra não era proibida[3] e todos os países neutros eram obrigados a cumprir um bloqueio anunciado. O governo nigeriano ameaçou reagir contra países que desconsiderassem o bloqueio e fizeram um acordo com Camarões para obstruir a fronteira terrestre de Biafra.[2] Alguns contrabandistas tentaram violar o bloqueio, mas dois navios foram destruídos pela marinha nigeriana.[4]
O bloqueio interditou alimentos, medicamentos e outros suprimentos necessários para civis. Os líderes federais nigerianos obstruíram a passagem de suprimentos de emergência e declararam que a fome era uma tática deliberada de guerra, embora também rejeitassem relatos de fome como propaganda biafrense..[1]
Tudo é justo na guerra e a fome é uma das armas da guerra. Não vejo por que deveríamos alimentar nossos inimigos engordando-os, apenas para lutar contra nós com mais força.
Não quero ver nenhuma Cruz Vermelha, nenhuma Caritas, nenhum Conselho Mundial de Igrejas, nenhum Papa, nenhum missionário e nenhuma delegação da ONU. Quero evitar que um único ibo tenha ao menos uma coisa para comer antes de sua capitulação.
— Brigadeiro Benjamin Adekunle[1]
O governo de Biafra rejeitou voos de ajuda diurnos e um corredor de ajuda proposto. Seu líder Ojukwu argumentou que essas rotas permitiriam ao governo nigeriano envenenar os biafrenses e possibilitar o bombardeio de Biafra. No entanto, outra razão era preservar as rotas clandestinas das quais Biafra continuava a importar armas e munições.[5] Estima-se que um milhão[6] ou mais de pessoas morreram como resultado do bloqueio.[7][8][9] A maioria das vítimas de guerra eram civis[10], especialmente crianças, que eram especialmente vulneráveis à desnutrição.[1][11]
Outra consequência do bloqueio foi o aumento da criminalidade violenta em Biafra, particularmente a extração violenta de alimentos a civis por soldados subnutridos das Forças Armadas de Biafra.[12]
Reações internacionais

Biafra atraiu uma grande atenção internacional a partir de meados de 1968, quando imagens de crianças biafrenses famintas começaram a aparecer na imprensa mundial.[13][14] A propaganda biafrense comparou os igbos aos judeus e o bloqueio de Biafra ao Holocausto. Inicialmente, a opinião pública internacional simpatizou com as alegações biafrenses, mas mudou depois que o Reino Unido enviou uma missão de investigação à Nigéria que relatou que o genocídio não estava a ocorrer.[15] Alguns acadêmicos que inicialmente acreditavam que havia um genocídio em Biafra, como Robert Melson, mudaram de opinião depois de perceber que o governo nigeriano não planejava matar todos os igbos, e porque as razões para suas mortes eram políticas e não raciais.[16]
A maior organização nos Estados Unidos que se formou em reação à guerra de Biafra foi o American Committee to Keep Biafra Alive.[14] Na Alemanha Ocidental, a guerra resultou em uma mobilização sem precedentes e a quantia de dinheiro arrecadada, 70 milhões de marcos, excedeu a arrecadada anteriormente para qualquer causa humanitária.[17] Algumas organizações de ajuda humanitária, incluindo o CICV, só operaram com a permissão de ambos os beligerantes, limitando os esforços de ajuda.[13]
Os esforços de ajuda foram interrompidos em junho de 1969, quando um avião da Cruz Vermelha Sueca foi abatido pelas forças do governo nigeriano.[3][18]
Legado
Logo após o fim da guerra civil, em 1970, esta foi amplamente esquecida fora da Nigéria e não foi muito mencionada no campo dos estudos sobre genocídio.[19] O CICV reconheceu que o fracasso de seu esforço de socorro foi devido em parte à lei de bloqueio endossada pelas potências ocidentais e intensificou os seus esforços para garantir proteções jurídicas mais fortes para os civis.[3] De acordo com o Protocolo II de 1977, "objetos indispensáveis à sobrevivência da população civil" são protegidos e ataques contra eles são proibidos.[20]
Na Nigéria, o bloqueio e suas vítimas foram ignorados nas comemorações oficiais e nos currículos escolares.[1] Em 2021, o presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, fez tuítes aludindo à guerra, que foram deletados por promover a violência; posteriormente, o Twitter foi banido na Nigéria.[1]
Estudos de cohorte sugerem que a fome teve impacto de longo prazo na saúde dos sobreviventes.[21][22]
Nota
- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês cujo título é «Blockade of Biafra».
Referências
- ↑ a b c d e f g Nweke, Obinna Chukwunenye (2023). «Hunger as a weapon of war: Biafra, social media and the politics of famine remembrance». Third World Quarterly (em inglês): 1–18. ISSN 0143-6597. doi:10.1080/01436597.2023.2182283
- ↑ a b Heerten 2017, p. 67.
- ↑ a b c Mulder & van Dijk 2021, p. 385.
- ↑ Heerten 2017, p. 68.
- ↑ Bello, Taiwo (3 de Julho de 2021). «Ojukwu's Biafra: Relief Corridor, Arms Smuggling, and Broken Diplomacy in the Nigerian Civil War». War & Society. 40 (3): 206–224. doi:10.1080/07292473.2021.1942625
- ↑ Simpson, Brad (2014). «The Biafran secession and the limits of self-determination». Journal of Genocide Research (em inglês). 16 (2–3): 337–354. ISSN 1462-3528. doi:10.1080/14623528.2014.936708
- ↑ Chuku, Gloria (2017). «Women and the Nigeria-Biafra War». Postcolonial Conflict and the Question of Genocide. [S.l.]: Routledge. pp. 329–359. ISBN 978-1-315-22929-4. doi:10.4324/9781315229294-15
- ↑ Njoku, Carol Ijeoma (Dezembro de 2013). «A Paradox of International Criminal Justice: The Biafra Genocide». Journal of Asian and African Studies. 48 (6): 710–726. doi:10.1177/0021909613506453
- ↑ Cookman, Claude (Outubro de 2008). «Gilles Caron's Coverage of the Crisis in Biafra». Visual Communication Quarterly. 15 (4): 226–242. doi:10.1080/15551390802415063
- ↑ Doron, Roy (2014). «Marketing genocide: Biafran propaganda strategies during the Nigerian civil war, 1967–70». Journal of Genocide Research. 16 (2–3): 227–246. doi:10.1080/14623528.2014.936702
- ↑ Mudge, George Alfred (1970). «Starvation As A Means Of Warfare». The International Lawyer. 4 (2): 228–268. ISSN 0020-7810. JSTOR 40704626. Consultado em 18 de novembro de 2023. Cópia arquivada em 18 de novembro de 2023
- ↑ Daly, Samuel Fury Childs (Setembro de 2018). «"Hell was let loose on the country": The Social History of Military Technology in the Republic of Biafra». African Studies Review. 61 (3): 99–118. doi:10.1017/asr.2018.41
- ↑ a b Desgrandchamps, Marie-Luce (2012). «'Organising the unpredictable': the Nigeria–Biafra war and its impact on the ICRC». International Review of the Red Cross. 94 (888): 1409–1432. doi:10.1017/S1816383113000428
- ↑ a b McNeil, Brian (2014). «'And starvation is the grim reaper': the American Committee to Keep Biafra Alive and the genocide question during the Nigerian civil war, 1968–70». Journal of Genocide Research. 16 (2–3): 317–336. doi:10.1080/14623528.2014.936723
- ↑ Moses 2021, p. 443.
- ↑ Moses 2021, p. 444.
- ↑ Hannig, Florian (2017). «West German Sympathy for Biafra, 1967–1970: Actors, Perceptions and Motives». Postcolonial Conflict and the Question of Genocide: The Nigeria-Biafra War, 1967–1970. [S.l.]: Routledge. ISBN 978-1-315-22929-4
- ↑ «AID FLIGHT REPORTED DOWNED BY NIGERIA». The New York Times. 7 de Junho de 1969. Cópia arquivada em 3 de Novembro de 2023
- ↑ Moses, Lasse Heerten, A. Dirk (2017). «The Nigeria-Biafra War: Postcolonial Conflict and the Question of Genocide». Postcolonial Conflict and the Question of Genocide: The Nigeria-Biafra War, 1967–1970. [S.l.]: Routledge. ISBN 978-1-315-22929-4
- ↑ Conley, Bridget; de Waal, Alex (2019). «The Purposes of Starvation». Journal of International Criminal Justice. 17 (4): 699–722. doi:10.1093/jicj/mqz054
- ↑ Hult, Martin; Tornhammar, Per; Ueda, Peter; Chima, Charles; Bonamy, Anna-Karin Edstedt; Ozumba, Benjamin; Norman, Mikael (22 de outubro de 2010). «Hypertension, Diabetes and Overweight: Looming Legacies of the Biafran Famine». PLOS ONE (em inglês). 5 (10): e13582. Bibcode:2010PLoSO...513582H. ISSN 1932-6203. PMC 2962634
. PMID 21042579. doi:10.1371/journal.pone.0013582
- ↑ Ogah, Okechukwu S.; Oguntade, Ayodipupo Sikiru; Chukwuonye, Innocent Ijezie; Onyeonoro, Ugochukwu Uchenna; Madukwe, Okechukwu Ojoemelam; Asinobi, Adanze; Ogah, Fisayo; Orimolade, Olanike Allison; Babatunde, Abdulhammed Opeyemi; Okeke, Mesoma Frances; Attah, Ojoma Peace; Ebengho, Ikponmwosa Gabriel; Sliwa, Karen; Stewart, Simon (Outubro de 2023). «Childhood and Infant exposure to famine in the Biafran war is associated with hypertension in later life: the Abia NCDS study». Journal of Human Hypertension (em inglês). 37 (10): 936–943. ISSN 1476-5527. PMID 36473942. doi:10.1038/s41371-022-00782-x. Consultado em 3 de novembro de 2023. Cópia arquivada em 3 de novembro de 2023
Fontes
- Heerten, Lasse (2017). The Biafran War and Postcolonial Humanitarianism: Spectacles of Suffering (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-1-107-11180-6
- Moses, A. Dirk (2021). The Problems of Genocide: Permanent Security and the Language of Transgression (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-1-009-02832-5
- Mulder, Nicholas; van Dijk, Boyd (2021). «Why Did Starvation Not Become the Paradigmatic War Crime in International Law?». Contingency in International Law: On the Possibility of Different Legal Histories (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. pp. 370–. ISBN 9780192898036