Bita do Barão
Wilson Nonato de Sousa, conhecido popularmente como Mestre Bita do Barão de Guaré, (Codó, 10 de julho de 1932 – Codó, 18 de abril de 2019) foi um renomado pai-de-santo maranhense, líder do culto do Terecô (vertente local da Umbanda) e figura de grande destaque no cenário religioso do Brasil.[1] Reverenciado como um dos pais-de-santo mais influentes e prestigiados do país, ele comandou por décadas a principal casa de culto de Codó (MA). Foi notório conselheiro espiritual de membros do poder, em especial da família Sarney,[2] e recebeu honrarias oficiais por sua contribuição cultural, como o título de Comendador da República em 1993.[3]
Origens e Primeiros Anos
Wilson Nonato de Sousa nasceu no município de Codó, interior do Maranhão, e cresceu envolto por uma atmosfera de mistério que ele mesmo ajudou a cultivar. Embora estudos acadêmicos indiquem que tenha vindo ao mundo em 10 de junho de 1932,[4][5] filho de Cirilo Bispo de Sousa, natural de Caxias, e de Olívia Ferreira de Sousa.[6][7]
A infância de Wilson se desenrolou em Santo Antônio dos Pretos, um povoado nos arredores de Codó marcado por sua forte tradição afro-brasileira.[8] Ali, numa comunidade majoritariamente negra, as práticas de matriz africana eram preservadas com resistência e discrição. Desde cedo, seu temperamento inquieto chamou a atenção dos pais, que o apelidaram de “Bita”, uma referência regional ao bode,[9] animal conhecido por sua energia constante. Esse apelido atravessaria os anos, tornando-se parte do nome pelo qual seria nacionalmente reconhecido.
As primeiras manifestações espirituais surgiram ainda na infância. Aos cinco anos,[10] Bita afirmava já entrar em transe, incorporando uma entidade chamada Barão de Guaré, espírito que mais tarde se tornaria o principal guia de sua missão religiosa.[7] Mais tarde, Bita lembraria com emoção desses primeiros contatos com o invisível, descrevendo-os como visões fabulosas, intensas e encantadoras, que vinham quando ele ainda "não sabia de nada" e apenas se entregava ao mistério.[7]
Na adolescência, seus dons começaram a ganhar notoriedade além dos limites do povoado. Um episódio frequentemente mencionado em Codó conta que Bita, já adolescente, teria solucionado um crime por meio de incorporação mediúnica, revelando a identidade de um ladrão e o paradeiro de uma arma desaparecida.[5] Segundo ele mesmo recordaria anos depois, nos primeiros tempos não cobrava pelas consultas. As pessoas ofereciam presentes espontaneamente: joias, mantimentos, favores.[11]
Ainda muito jovem, Bita começou a formar discípulos. Já no final da adolescência, havia iniciado pelo menos duas filhas-de-santo, ensinando-lhes os fundamentos das religiões afro-brasileiras.[11] Essa atuação inicial demonstra que ele não apenas liderava rituais, mas também assumia um papel formador.
Formação Espiritual e Desenvolvimento
Ao longo das décadas de 1940 e 1950, Bita ampliou sua prática incorporando elementos da Umbanda e do Candomblé, adaptando rituais e cânticos à realidade de Codó.[12] Essa abertura contribuiu para a permanência e expansão de seu terreiro, atendendo a uma diversidade crescente de frequentadores. Registrou oficialmente sua Tenda de Umbanda junto à União de Tendas Espíritas de São Paulo[13]
Fundação da Tenda Rainha Iemanjá e Primeiros Passos da Carreira
A carreira espiritual de Bita do Barão consolidou-se com a fundação da Tenda Espírita de Umbanda Rainha Iemanjá, em 1954, no povoado de Santo Antônio dos Pretos, onde realizou os primeiros assentamentos sagrados e iniciou as atividades do terreiro.[14] Poucos anos depois, a casa foi transferida para a zona urbana de Codó, acompanhando o processo de urbanização do município. Instalada em um terreno amplo na Rua Rui Barbosa, a tenda passou por sucessivas ampliações, com a construção dos chamados Palácios de Iansã e de Iemanjá.[14][15]
Estima-se que, durante as festas anuais, a casa chegasse a receber até 2 mil pessoas por dia.[16] Sua atuação espiritual era procurada por motivos diversos, como curas, proteção ou mediação de conflitos.
Nos anos 1980, episódios simbólicos reforçaram sua aura de influência, como a movimentação intensa de seu terreiro durante a crise que antecedeu a morte de Tancredo Neves e a posse de José Sarney.[17] Em 1988, Sarney condecorou Bita com uma medalha oficial, e, em 1993, concedeu-lhe o título de Comendador da República.[17][18]
Em 1997, a escola de samba Mangueira levou o enredo de Codó ao carnaval carioca, aludindo indiretamente à sua influência.[17] Figuras públicas também o procuravam para atendimentos, o que levou a imprensa a chamá-lo de “pai-de-santo dos famosos”.[19]
Paralelamente à atividade religiosa, Bita acumulou patrimônio considerável, tornando-se proprietário de imóveis, fazendas e postos de gasolina na região.[20] Os atendimentos particulares chegaram a custar valores elevados, especialmente em casos de sigilo ou pedidos específicos.[20] Apesar disso, manteve forte ligação comunitária, reinvestindo parte dos recursos na manutenção do terreiro e em ações como a distribuição de alimentos durante festividades.[17]
Rituais, Festas e Produção Religiosa
Ao longo de sua trajetória, Bita do Barão estruturou um calendário ritual próprio que se tornou referência na religiosidade de Codó e do Maranhão. Entre os eventos mais emblemáticos de sua Tenda Espírita de Umbanda Rainha Iemanjá estavam a Festa de Santa Bárbara, em dezembro, e o Festejo de Agosto, voltado às obrigações aos santos e orixás.[21] A primeira mesclava devoção católica e culto a Iansã, com novenas, toques de tambor e procissões no terreiro, atraindo fiéis de diferentes origens religiosas.[22] Já o festejo de agosto reunia centenas de filhos-de-santo e convidados em uma semana de rituais ininterruptos, com sessões de cura, danças, cânticos e refeições coletivas custeadas por doações, consolidando-se como um ponto de encontro de diferentes camadas sociais unidas pela fé.[23]
Formou dezenas de discípulos que fundaram terreiros próprios, muitos deles em Codó, onde estima-se haver mais de 300 casas ativas com alguma ligação à sua linhagem espiritual.[22]
Reconhecimento, Honrarias e Consagração Pública
Ao longo dos anos 1990, sua projeção cresceu. Em 1993, recebeu o título de Comendador da República, entregue com apoio do ex-presidente José Sarney e de entidades culturais.[24] O gesto conferiu visibilidade nacional ao pai-de-santo e suscitou debate sobre a legitimidade do reconhecimento institucional a lideranças religiosas afro.
Vida Pessoal e Características
Apesar da imagem mística que cultivava publicamente, Bita do Barão era, no cotidiano, um homem simples, apegado à família e aos costumes interioranos. Casou-se ainda jovem e teve uma filha, Janaína Nonata de Sousa, que foi preparada desde cedo para sucedê-lo.[25] O laço da família com os Sarney também ia além do plano político: Roseana Sarney foi madrinha de Janaína, fortalecendo os vínculos pessoais entre ambos os núcleos.[25]
Últimos Anos, Doença e Falecimento
Em abril de 2019, após uma infecção pulmonar severa, foi internado em Teresina, onde faleceu no dia 18, aos 86 anos, por falência múltipla de órgãos.[26] Atendendo a seu desejo, o corpo foi levado a Codó e velado na própria Tenda Rainha Iemanjá.[27] O funeral foi marcado por grande comoção popular: milhares de pessoas passaram pelo terreiro, autoridades enviaram coroas de flores e manifestações de pesar chegaram de todo o país.[27]
Codó decretou luto oficial de três dias.[28]
Legado
A morte de Bita do Barão marcou o fim de uma era. Sua filha, Mãe Janaína, assumiu a liderança da Tenda Rainha Iemanjá, mantendo os rituais e festas instituídos por ele, como o tradicional festejo de agosto.[29]
Bita também deixou marcas duradouras fora dos limites da tenda. Codó se transformou em um símbolo da espiritualidade afro-brasileira, muito por sua atuação.[30] Seu nome tornou-se sinônimo da encantaria maranhense, projetando a cidade nacionalmente.[30] Com ele, práticas antes marginalizadas ganharam visibilidade, e outros mestres locais passaram a ser reconhecidos. Terreiros inspirados por sua doutrina se espalharam pelo Maranhão.[31]
Além da prática religiosa, Bita tornou-se uma figura mítica da memória popular. Histórias sobre seus feitos, reais ou lendários, são contadas, tornando-o uma espécie de herói cultural.[32]
Festas como a de Santa Bárbara vêm sendo documentadas para fins de preservação cultural, e sua casa em Codó tem atraído visitantes de todo o país, interessados em conhecer de perto a história do mestre.[33]
Referências
- ↑ «Bita do Barão: veja a repercussão da morte do pai de Santo do Maranhão». G1. 18 de abril de 2019. Consultado em 13 de julho de 2025
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- ↑ a b Sousa, Wilson Nonato de (Mestre Bita do Barão). Entrevista concedida a Sulivan Charles Barros. Revista Múltipla, Brasília, v. 5, n. 9, p. 59-60
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- ↑ https://pt.scribd.com/document/537041632/Gt-2-Novas-Dinamicas-Da-Festa-de-Santa-Barbara-Em-Codo-Ma-Em-Tempos-de-Pandemia
Bibliografia
Fontes acadêmicas e etnográficas
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- PONTES, Mundicarmo Ferretti apud ASSAD, Marcelo Yasser. Codó, fragmentos. Monografia (Graduação), UFMA–Codó, 1979. Cita Wilson Nonato como figura central e menciona a fundação de sua tenda em 1954.
- PONTES, Mundicarmo Ferretti apud UFMA. Programa de Pós‑Graduação em História Social. Dissertação, UFMA, 2017. Relata a origem do apelido “Bita do Barão” e o surgimento da Tenda Rainha Iemanjá.
Fontes jornalísticas e de mídia
- O IMPARCIAL. "O misterioso pai‑de santo Bita do Barão". São Luís, 2017. Apresenta detalhes sobre a infância, o apelido e o episódio de incorporação mediúnica usada para desvendar um crime O Imparcial.
- Folha de S. Paulo. “Bita é o favorito de Sarney”, 29 jul. 1994. Relata o prestígio de Mestre Bita junto à elite política maranhense e sua relação com a família Sarney.
- iG Último Segundo. “Pai de santo Bita do Barão morre aos 86 anos em Teresina”, 18 abr. 2019. Confirma sua data de nascimento (1932), causa da morte e seu prestígio nacional.
- O Estado Maranhão / Imirante. “Ícone da umbanda, Bita do Barão é velado em clima de comoção”. 19 abr. 2019. Cobertura sobre o falecimento, as reações oficiais e o impacto comunitário após sua morte.
- Picos 40 Graus. “Morre Bita do Barão, o maior umbandista do Brasil, após internação em Teresina” (portal), 2019. Confirma a data de nascimento em 10 de julho de 1932 e o falecimento em hospital em Teresina