Beco das Garrafas

Beco das Garrafas
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Beco das Garrafas é o nome atribuído a uma travessa sem saída da rua Duvivier, entre os edifícios de números 21 e 37, situado no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, nas décadas de 50 e 60. Essa travessa abrigava um conjunto de casas noturnas, boates e bares responsáveis por jam sessions e estreias de músicos que mais tarde seriam identificados com a bossa-nova. O local passou a integrar a narrativa histórica do surgimento do gênero e a memória musical carioca[1].

Ali se apresentavam Sergio Mendes, Raul de Souza, Luís Carlos Vinhas, Baden Powell, Durval Ferreira, Tião Neto, Manuel Gusmão, Bebeto Castilho, Dom Um Romão, Airto Moreira, Wilson das Neves, Chico Batera, Ronaldo Boscoli, Miele; além de Elis Regina, Sylvia Telles e Marisa Gata Mansa, Dóris Monteiro, Claudette Soares, Alaíde Costa, Leny Andrade, Wilson Simonal.

Ganhou notoriedade quando citado pelo escritor e jornalista Ruy Castro, no livro "Chega de Saudade", de 1990[2], e mais tarde retomada por Nelson Motta, no livro Noites Tropicais, onde o autor retrata a evolução da música popular brasileira, musicalidade esta contemporânea dos bares deste sítio histórico.[3]

A História

A alcunha foi dada pelo cronista e romancista carioca Sérgio Porto, inicialmente chamando o local de Beco das Garrafadas, devido à prática dos moradores de jogar garrafa nos boêmios que frequentavam os bares Ma Griffe, Bacará, Little Club e Bottle's, reduto de músicos do movimento musical urbano surgido em 1957, a bossa nova, mais tarde ficou conhecido como Beco das Garrafas [4].

Do começo, apenas o Ma Griffe teve o passado ligado à prostituição. O cenário mudou quando Giovanni e Alberico Campana, então donos do Bottle's e do Little Club, passaram a apostar em jovens talentos em música. Em sua maioria, com exceção de nomes como Newton Mendonça, todos esses músicos eram ou amadores ou em processo de profissionalização, desde que eles ajudassem a encher a lotação dos respectivos bares. A tarefa era pouco complicada, já que os estabelecimentos, que funcionavam em imóveis improvisados para tal, não comportavam mais do que sessenta pessoas cada um.

Alaíde Costa

O status do Beco começou a mudar quando a dupla Miéle e Ronaldo Bôscoli começaram a lançar pocket shows, espetáculos adaptados para as dimensões do Little Club, apresentando atrações, como a estreante Elis Regina, em 1961. Um ano antes, Sérgio Mendes animava as tardes de domingo do bar, serões que serviram de iniciação para centenas de adolescentes cariocas.[5]

As canjas, como diz Ruy Castro, eram boas para todo mundo. Os garotos entravam de graça e apinhavam o lugar, mas pagavam pela bebida que consumiam. Os músicos profissionais tocavam de graça, mas a consumação era liberada e, além disso, eles podiam tocar o que quisessem, fora do trabalho "quadrado" que eles acumulavam em gafieiras, em conjuntos de dança ou nas orquestras de rádio ou da tevê.

O fato é que a quase totalidade daqueles artistas do Beco gostavam realmente de jazz, e tinham a oportunidade de explorar o seu talento no gênero justamente no Beco. Ao mesmo tempo, a nascente Bossa Nova serviu-lhes um punhado de canções que serviriam como standards, improvisados à mesma maneira jazzística, abrindo o caminho para uma especialidade de bossa instrumental que seria a tônica a parir dos anos 60 [6].

A partir daquelas domingueiras do Little Club e das noites do Bottle's, começaram a surgir grupos fixos, como o Tamba Trio, de Luiz Eça, o Bossa Três, de Luís Carlos Vinhas, o Sexteto de Sérgio Mendes, o Copa Cinco e o Quinteto Bottle's, de Tenório Jr. A diferença desse novo estilo de Bossa era um passo à frente do intimismo de João Gilberto para uma variação puxada do bop, que o colunista do extinto Correio da Manhã, Robert Celerier, chamaria de hard bossa nova.[7]

Papel para a bossa nova

O beco funcionou como espaço de sociabilidade musical onde intérpretes, compositores e instrumentistas faziam apresentações informais e ensaios públicos. Há relatos que apontam o local como um dos pontos de difusão inicial de nomes associados ao movimento da bossa nova. Pesquisas de memória oral e dissertações universitárias que tratam da origem da bossa nova descrevem com detalhes as práticas de jam e formação de repertório no Beco das Garrafas.[8][9]

Documentação, acervos, reconhecimento e patrimonialização

Documentos, fotografias e trabalhos acadêmicos ajudam a preservar testemunhos sobre as casas do beco, suas programações e cartazes. Instituições culturais e arquivos audiovisuais do Rio de Janeiro detém materiais que subsidiam a pesquisa sobre o período e o local. Esses acervos são frequentemente usados por pesquisadores de história cultural e musicologia para analisar tanto as práticas musicais quanto a construção da imagem pública da bossa nova.[9]

Nas últimas décadas, o Beco vem sendo objeto de iniciativas de memória e projetos de preservação simbólica: entrou em registros municipais como elemento de interesse cultural e há proposições políticas e atos públicos pedindo sua recuperação e integração em roteiros culturais.[10] Reportagens recentes e movimentos locais têm denunciado o estado de abandono do corredor e reivindicado intervenções de conservação e valorização turística e cultural.[11][12]

Atualmente, o espaço apresenta intervenções pontuais de memória (placas, eventos comemorativos) e sofre com problemas urbanos (degradação do patrimônio edificado e ocupações informais), o que tem motivado mobilizações de artistas, pesquisadores e gestores culturais em defesa de uma política pública de preservação e de ações de fomento à memória musical local.[8][11]

Referências

  1. Araújo, Carla (6 de janeiro de 2015). «Beco das garrafas, patrimônio e história da música carioca». MultiRio. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  2. Cavalcanti, Paulo (15 de agosto de 2016). «Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova». Rolling Stone Brasil. Consultado em 18 de outubro de 2025 
  3. «Memórias musicais de Nelson Motta ainda cativam na edição ampliada de livro para iniciados e iniciantes na MPB». G1. 2 de junho de 2023. Consultado em 18 de outubro de 2025 
  4. Rio de Janeiro Aqui (2011). «A Bossa Nova e Beco das Garrafas em Copacabana». Rio de Janeiro Aqui 
  5. «Os melancólicos dias finais do Beco das Garrafas, joia da noite carioca onde Elis estreou nos palcos». BBC News Brasil. Consultado em 18 de outubro de 2025 
  6. Castro, Ruy (1990). Chega de Saudade 1º ed. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. p. 285 - 287 
  7. Continente, Revista. «Onde está Tenório Jr?». Revista Continente. Consultado em 18 de outubro de 2025 
  8. a b Tavares, Luiza (10 de dezembro de 2013). «Beco das Garrafas, berço da Bossa Nova, hoje é uma placa». Puc Rio Digital - Projeto Comunicar. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  9. a b Vidal, Erik de Oliveira (2008). «As capas da bossa nova: Encontros e desencontros dessa história visual (LPs da Elenco, 1963)» (PDF). Repositório UFJF. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  10. Kappaun, Leonardo Kronemberger; Silva, Caroline Pereira (12 de novembro de 2011). «Turismo cultural no Rio de Janeiro: A bossa nova como patrimônio carioca» (PDF). UCS - II Encontro Semitur Jr. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  11. a b Siston, Rachel (23 de maio de 2024). «Ato pede revitalização do Beco das Garrafas, berço da Bossa Nova». O Dia. Consultado em 11 de novembro de 2025 
  12. «Beco das Garrafas se tornará patrimônio cultural e turístico do Rio». Câmara Municipal do Rio de Janeiro. 13 de março de 2025. Consultado em 11 de novembro de 2025 

Ver também

Ligações externas