Batalha Naval da Ericeira

A batalha naval da Ericeira, em 1621, foi um encontro armado entre a nau portuguesa Nossa Senhora da Conceição e uma frota de piratas argelinos.[1] Foi um dos casos mais mediáticos da época por ter envolvido um dos mais destacados e experientes capitães de Portugal.[2]

Contexto

Desde a Idade Média que as costas portuguesas eram atacadas por piratas muçulmanos, sobretudo de Marrocos e Argel. Quando Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, todos os anos passaram a ir e regressar do Oriente grandes naus portuguesas com cargas valiosas mas embora fossem muito cobiçadas por piratas e corsários de todas as nacionalidades, poucas haviam sido perdidas por serem muito grandes, difíceis de tomar e bem escoltadas. Os piratas berberescos em particular dispunham apenas de galés e pequenos navios a remo, pelo que atacavam apenas a navegação costeira e as aldeias piscatórias.

A cidade de Argel.

Em 1606 fixou-se em Argel o pirata holandês Simon Danser, que ensinou os argelinos a construir navios oceânicos e a partir de então os piratas barbarescos passaram a dispor de naus e patachos, com mais autonomia e capazes de navegar em alto-mar.[3] Em 1616 atacaram a Ilha de Santa Maria nos Açores e no ano seguinte a de Porto Santo, não só contribuindo para a falta de segurança e o pânico das populações costeiras em Portugal como causando grandes estragos e prejuízos em Espanha e por todo o Mediterrâneo.[3] A armada barbaresca era estimada neste ano em quarenta embarcações de 200 a 400 toneladas, sendo a almiranta de 500 toneladas, divididos em duas esquadras, uma que operava no Mediterrâneo e outra que operava no Atlântico, a ocidente do Estreito de Gibraltar.[3]

Portugal instituíra três armadas de guarda-costas: a Armada do Estreito, que operava no Algarve, a Armada das Ilhas, que operava nos Açores e a Armada da Costa, que operava na costa ocidental portuguesa. Para fazer frente à crescente ameaça pirata, as naus que todos os anos regressavam da Índia com escala nos Açores foram instruídas a atingir o continente a 39º de latitude, a norte da zona onde habitualmente andavam os piratas e sensivelmente onde se situa a Ericeira.[3] Ali encontrariam a Armada da Costa, que as escoltaria até Lisboa.[3]

A viagem da nau Conceição

Em 1621 largaram de Goa com destino a Portugal as naus Paraíso, Penha de França, Nossa Senhora da Conceição e o galeão São João Baptista.[3] Ao dobrarem o Cabo da Boa Esperança encontraram fortes temporais que separaram os navios e após um mês a pairar em alto-mar, o capitão da Conceição, Jerónimo Correia, decidiu seguir viagem sozinho.[3] Ao escalar na Ilha de Santa Helena, Jerónimo Correia faleceu e foi substituído por D. Luís de Sousa.[4]

Modelo de uma nau portuguesa.

A viagem da Conceição decorreu sem incidentes até aos Açores mas ao largo do Faial sofreu uma tempestade violenta que a pôs em risco de naufragar mas quando o tempo melhorou dirigiu-se para a Terceira.[4] Ali encontraram duas caravelas chegadas havia pouco tempo de Lisboa com o aviso de que na costa portuguesa esperava-se um ataque de uma grande armada de piratas, então em preparação em Argel.[4] Por isso devia D. Luís de Sousa atingir a costa portuguesa a 39º 30' N, a norte das Berlengas, e encontrar-se ali com a armada de guarda-costa do experiente D. António de Ataíde.[4] Embora fosse uma nau nova, a Conceição tinha apenas 22 canhões, 14 artilheiros e 6 soldados.[4] Os marinheiros contabilizavam 90 e entre os passageiros havia apenas 8 homens capazes de pegar em armas.[4] Em vista disto, D. Luís de Sousa pediu ajuda ao governador da Terceira e este procurou satisfazer-lhe o pedido, mas os soldados que lhe enviou contavam com muitos jovens e veteranos já idosos.[4] Mesmo assim a capacidade de defesa melhorou bastante.[4]

A Conceição rumou ao continente e chegou sete dias depois após uma viagem próspera, tendo as Berlengas sido avistadas ao entardecer de 8 de Outubro, após quase oito meses de viagem e a um dia do destino.[4]

A batalha

Almirante argelino.

Segundo as ordens que recebera na Terceira, deveria D. Luís devia ter passado a norte das Berlengas mas como o vento devia estar a soprar bastante, nada pôde fazer a não ser passar a sul delas e seguir viagem para Lisboa na esperança de alcançar Cascais antes que aparecessem os piratas.[4]

Durante toda a noite os passageiros prepararam a carga para ser desembarcada, passando-a para o convés superior.[4] Pouco após a meia-noite, porém, começaram os tripulantes da Conceição a detectar vultos em alto-mar e ouvir vozes em torno da nau.[4] Alguns ainda supuseram que se tratasse da armada de D. António de Ataíde ou de navios mercantes de Setúbal carregados de sal mas quando clareou a manhã e se puderam avistar as bandeiras dos navios perceberam que se tratavam dos piratas argelinos.[4][5]

Animados pela proximidade a terra, os portugueses prepararam-se para o combate, passaram as malas, caixas, cestos e fardos de novo para o porão a fim de desocupar o convés principal, distribuíram armas e os homens ocuparam postos de combate.[4]

A frota argelina era constituída por dezassete naus e patachos, variando o armamento das primeiras entre as 34 e 40 canhões.[6] Integravam-na 5000 homens, pois um dos seus objectivos era desembarcar na Galiza.[6] O almirante argelino era Tábaco-Arrais e tinha partido de Argel havia duas semanas.[6] Desde então capturara 19 navios ingleses ao largo do Cabo Espichel.[6] A captura de uma nau da Índia ricamente carregada com pimenta e cargas raras do Oriente porém, era o maior prémio que um pirata podia cobiçar.

Na manhã de 9 de Outubro o vento devia estar a soprar pouco de sudoeste pois a Conceição teve de virar para terra, deslocando-se lentamente.[6] Mais ligeiros, os navios argelinos aproximaram formados em coluna e a capitânia, que seguia na dianteira, disparou um tiro de pólvora seca intimando os portugueses a renderem-se.[6] Estes responderam a tiro de bala e o combate começou.[6]

Inicia-se o combate, 9 de Outubro

Capitão argelino.

À medida que os navios argelinos ultrapassavam a Conceição disparavam toda a sua artilharia e desta forma foram os seus passageiros sujeitos a um bombardeamento que durou onze horas.[6] A nau ficou muito danificada e cheia de mortos, incluindo o condestável da artilharia.[6] D. Luís foi gravemente ferido numa perna e obrigado a deitar-se num caixote de onde, com grande força de ânimo, continuou a dirigir a defesa.[6]

Os argelinos, porém, também sofreram duramente com o tiroteio.[6] Dispondo de maiores canhões e sofisticadas balas de canhão enramadas, de grilha e de picão, os artilheiros portugueses provocaram graves estragos no casco e aparelho dos navios inimigos e mataram muitos piratas.[6] Um dos que mais sofreu foi o navio de Assam-Arrais que, vendo que estava a meter muita água e prestes a afundar-se, aferrou a Conceição pelo castelo da proa e lançou-se à abordagem com os seus homens.[6]

Travou-se então um violento combate a tiro de mosquete entre os argelinos, que dominaram o castelo de proa, e os poucos portugueses no convés principal e no castelo de popa.[6] Como os argelinos eram muitos num local apertado, sofreram perdas pesadas.[6] Um argelino tentou cortar os cabos das velas da proa para tentar abrandar a nau mas por engano libertou a ostaga da vela da gávea, que caiu com fragor e matou muitos argelinos.[7] Aproveitando-se da confusão, os portugueses lançaram-se ao assalto e, apesar de terem sido repelidos duas vezes, à terceira expulsaram ou mataram todos os argelinos do castelo de proa já ao cair da noite, à excepção de um, que foi capturado.[7] Assam Arrais contava-se entre os poucos que conseguiu salvar-se a nado e esta acção pôs termo ao combate naquele dia.[7]

Com a maior parte dos seus navios danificados, os argelinos afastaram-se para oeste sob o manto da escuridão, ao passo que a Conceição, com o aparelho desfeito e as velas rotas, continuou a navegar lentamente em direcção à costa.[7] Os portugueses sofreram 30 mortos ou feridos graves e dos artilheiros apenas um escapou ao combate ileso.[7] Durante toda a noite os marinheiros trabalharam sem descanso para reparar os cabos ou substituir as velas.[7]

Tentativa de ancorar na Ericeira, 10 de Outubro

A Ericeira e o seu Porto de Abrigo.

Ao romper do dia a Conceição encontrava-se novamente em estado de velejar e pela proa avistava-se a Ericeira, ao passo que dos argelinos os portugueses não detectaram qualquer sinal.[7] Porém naquela manhã havia pouco vento ou nenhum.[7] D. Luís de Sousa, apesar de gravemente ferido, continuava a exercer o comando e decidiu ancorar na Ericeira.[7] Daquela vila chegou então uma embarcação com ordens para que a Conceição se afastasse para o largo, onde encontraria a armada de António de Ataíde e de maneira nenhuma ancorasse ali pois naquela época do ano o ancoradouro não dava abrigo.[7] D. Luís pediu que ao menos levassem para terra as mulheres, crianças e pedras preciosas mas recusaram-se os homens da embarcação, por terem ordens categóricas para não atracarem à nau (provavelmente para evitar fugas aos direitos alfandegários).[7]

Conformando-se com as ordens, D. Luís mandou virar para noroeste, à espera que o vento soprasse de norte.[7]

Renovação do combate, 11 de Outubro

Patacho argelino, inspirado em linhas holandesas.

Continuando o vento a soprar fracamente pela manhã de 11 de Outubro, surgiram novamente os argelinos pela alheta de bombordo, ou seja atrás à esquerda, formados em coluna com a capitânia na dianteira.[7] Recusando-se os seus defensores a renderem-se, novamente começou o tiroteio mas apesar dos seus canhões estarem a ser manobrados por marinheiros e soldados inexperientes no seu uso, os portugueses causaram tantos estragos na capitânia argelina que os navios que lhe seguiam começaram a afastaram-se para fora do alcance de tiro.[8]

Ao segundo dia de combate, recrudescendo o ataque dos argelinos, o capitão D. Luís de Sousa mandou trazer um prisioneiro turco que tinha a bordo e mandou um polaco que tinha estado muitos anos prisioneiro dos turcos executá-lo, para que ele pagasse "o mal que os seus queriam outra vez fazer".[5]

Recompostos os argelinos em formatura, o experiente Tábaco Arrais tentou uma abordagem diferente: ultrapassou a Conceição com a sua frota e após tomar-lhe certo avanço, virou de bordo e avançou em direcção à nau portuguesa em sentido contrário a curtíssima distância.[8] Assim puderam os argelinos disparar a sua artilharia e mosquetaria à medida que passavam pela Conceição com mais segurança, enquanto os portugueses deixavam vários navios passar à medida que recarregavam as suas armas.[8]

O último navio da formatura argelina passou mesmo a rasar a Conceição e lançou-lhe dentro vários artifícios de fogo, que atearam vários incêndios na nau.[8] Acorreram imediatamente os marinheiros com baldes de água mas não conseguiram extinguir um incêndio que deflagrou com grande intensidade à popa, empurrado pelo vento.[8] A nau argelina também se emaranhou na Conceição e alguns argelinos saltaram à abordagem.[8] D. Luís deu ordem para arribar para melhor se desembaraçar dos argelinos mas rapidamente as chamas propagaram-se pela nau e em poucos minutos a nau ficou envolta em chamas.[8] Os argelinos regressaram ao seu navio e os últimos portugueses seguiram-nos para se entregarem. Os argelinos conseguiram libertar-se da nau mas a Conceição ardeu totalmente e afundou-se com todas as riquezas que transportava.[8]

Resgate de prisioneiros em Argel pelos monges Trinitários.

Acorreram ao local as embarcações pequenas dos outros navios argelinos, pelos quais os portugueses foram distribuídos.[9] As mulheres foram mantidas em locais bem iluminados, pois os piratas argelinos acreditavam que pecados no mar resultavam no afundamento da embarcação.[5] D. Luís de Sousa faleceu três dias depois em resultados dos ferimentos recebidos em combate.[9] Os restantes foram levados para Argel.[9] Alguns acabaram mais tarde por ser libertados mas outros foram vendidos como escravos e por lá ficaram.[9] Entre os resgatados encontrava-se João Carvalho Mascarenhas, que mais tarde deixou um testemunho.[5]

D. António de Ataíde, um dos homens com maior experiência naval da altura, só passado três anos é que conseguiu provar que não pudera acorrer à nau devido às condições meteorológicas e limpar o seu nome.[2]

Ver também

Referências

  1. «Revista da Armada». www.marinha.pt. Consultado em 14 de setembro de 2025 
  2. a b Godinho, Rui: "Armada da Costa" in Navegações Portuguesas, em http://cvc.instituto-camoes.pt/
  3. a b c d e f g Monteiro, volume V, 1994, p. 311.
  4. a b c d e f g h i j k l m n Monteiro, volume V, 1994, p. 312.
  5. a b c d «Relato de João Carvalho Mascarenhas, um soldado português deslocado pelo mundo». www.scielo.br. Consultado em 14 de setembro de 2025 
  6. a b c d e f g h i j k l m n o Monteiro, volume V, 1994, p. 313.
  7. a b c d e f g h i j k l m Monteiro, volume V, 1994, p. 315.
  8. a b c d e f g h Monteiro, volume V, 1994, p. 316.
  9. a b c d Monteiro, volume V, 1994, p. .317

Bibliografia

  • Monteiro, Saturnino: Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, volume V, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1994.