Basílio de Magalhães
| Basílio de Magalhães | |
|---|---|
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| Nascimento | 1 de junho de 1874 Barbacena |
| Morte | 14 de dezembro de 1957 Lambari |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | jornalista, político, bibliotecário |
Basílio de Magalhães (Barroso, termo de Barbacena, 1.º de junho de 1874 – Lambari, 14 de dezembro de 1957) foi um historiador, folclorista, político, professor e jornalista brasileiro. Atuou como deputado federal por Minas Gerais, presidente da Câmara Municipal de São João del-Rei e diretor interino da Biblioteca Nacional entre 1917 e 1918.[1][2]
É reconhecido como um dos pioneiros dos estudos folclóricos no Brasil, destacando-se por obras como Folk-lore no Brasil (1928) e Expansão geográfica do Brasil colonial, nas quais articulou história, etnografia e geografia histórica.[1]
Ao longo de sua trajetória, integrou diversas instituições culturais e acadêmicas, entre elas o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Paulista de Letras e a Academia Mineira de Letras, além de ter mantido intensa atuação na imprensa e no magistério.[2]
Nascimento
Basílio de Magalhães nasceu em 1.º de junho de 1874, em terras que poucos meses depois passariam a integrar a recém-criada freguesia de Barroso, então pertencente ao termo da cidade de Barbacena, na província de Minas Gerais.[3] A freguesia foi oficialmente instituída pela Lei Provincial n.º 2086, de 24 de dezembro de 1874, que elevou o antigo distrito à categoria de paróquia, com patrimônio destinado à instalação da capela dedicada a Sant’Ana.[4]
Era filho de Antônio Inácio Raposo e de Francisca de Jesus, ambos trabalhadores vinculados à fazenda Venda Grande.[5] Há indícios, apontados pela historiografia, de que Basílio poderia ser filho biológico do imigrante português Ladislau Arhtur de Magalhães, seu padrinho de batismo, membro da elite local e casado com Belizandra Augusta de Meireles. Essa hipótese, contudo, não é confirmada por documentação conclusiva, permanecendo no campo das conjecturas históricas.[5]
Formação e atuação
Basílio de Magalhães iniciou seus estudos na escola João dos Santos, em São João del-Rei, onde permaneceu desde a infância.[6] Aos quinze anos, em 1889, passou a trabalhar como tipógrafo no jornal Gazeta Mineira, atuando posteriormente também como auxiliar de redação. Em razão da orientação política conservadora do periódico, afastou-se da publicação e ingressou no jornal Pátria Mineira, de orientação republicana, no qual exerceu funções de tipógrafo, paginador, revisor e redator até 1894. Nesse mesmo período, fundou e manteve o pequeno jornal A Locomotiva, iniciativa que marcou sua entrada no meio intelectual e político local.[6]
Posteriormente, formou-se em engenharia pela Escola de Minas de Ouro Preto, instituição de prestígio no cenário científico brasileiro do final do século XIX.[2] A partir da década de 1900, passou a dedicar-se também ao magistério, lecionando disciplinas da área de História inicialmente em São Paulo e, mais tarde, no Rio de Janeiro. Tornou-se o 27.º diretor do então Instituto de Educação do Rio de Janeiro, desempenhando papel relevante na organização do ensino normal no Distrito Federal.[1]
Entre 1917 e 1918, exerceu o cargo de diretor interino da Biblioteca Nacional, período no qual esteve à frente da principal instituição bibliográfica do país.[1] Em 1919, retornou a São João del-Rei, onde se envolveu diretamente nos debates políticos locais, posicionando-se de maneira crítica em relação às práticas políticas conservadoras então dominantes no município.[7]
Após o encerramento de sua trajetória parlamentar, em decorrência da Revolução de 1930, fixou-se no Rio de Janeiro, onde passou a dedicar-se prioritariamente ao magistério, à produção intelectual e ao jornalismo cultural.[1] Colaborou com diversas publicações periódicas, entre elas a revista Atlântida, de circulação luso-brasileira, voltada à difusão de temas literários, artísticos e históricos.[8] Reassumiu funções na Escola Normal do Distrito Federal e foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores a integrar bancas de avaliação de candidatos à carreira diplomática no Instituto Rio Branco.[9]
Trajetória política
Basílio de Magalhães ingressou formalmente na vida política no início da década de 1920, período marcado por intensas disputas entre oligarquias regionais e pela reorganização do campo republicano em Minas Gerais.[7] Em 1922, foi eleito para o Senado Estadual Mineiro, consolidando sua projeção no cenário político regional. No ano seguinte, assumiu a presidência da Câmara Municipal de São João del-Rei, exercendo simultaneamente o cargo de Agente Executivo Municipal, função equivalente à de prefeito.[7]
Em 1924, elegeu-se deputado federal por Minas Gerais, sendo reconduzido ao cargo em 1927.[7] Durante sua atuação parlamentar, apresentou e defendeu propostas relacionadas à modernização do sistema político brasileiro, entre elas a instituição do voto secreto, a obrigatoriedade do voto e a ampliação do direito de sufrágio às mulheres — temas que, à época, encontravam forte resistência nos setores conservadores.[7]
No contexto das disputas políticas que antecederam a Revolução de 1930, posicionou-se contrariamente à candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República. Integrava a corrente política liderada por Raul Soares, que lhe deu apoio em campanhas eleitorais bem-sucedidas. Após a morte de Raul Soares, passou a ser politicamente vinculado a Artur Bernardes, que, entretanto, apoiou a candidatura de Vargas, aprofundando o isolamento político de Basílio.[7]
Com o triunfo do movimento de 1930 e a consequente reconfiguração do sistema político nacional, Basílio de Magalhães afastou-se da vida parlamentar, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde passou a dedicar-se principalmente à docência, à pesquisa histórica e à atividade intelectual.[1]
Produção intelectual e reconhecimento
A partir da década de 1920, Basílio de Magalhães consolidou-se como um dos principais intelectuais brasileiros dedicados ao estudo da história e do folclore nacional. Sua produção caracterizou-se pela articulação entre história, etnografia, geografia histórica e crítica cultural, em diálogo com correntes eruditas então em circulação no Brasil e na Europa.[1]
Em 1928, publicou Folk-lore no Brasil, obra considerada pioneira por conferir tratamento sistemático e erudito às manifestações da cultura popular, superando abordagens meramente descritivas ou anedóticas.[1] O livro insere-se no contexto da institucionalização dos estudos folclóricos no país, dialogando com autores como Sílvio Romero e Amadeu Amaral.
Em 1935, foi oficialmente reconhecido como historiador emérito, após vencer o chamado "Prêmio Pedro II" com uma monografia posteriormente ampliada e publicada sob o título Expansão geográfica do Brasil colonial.[1] Nessa obra, analisou os processos de interiorização do território brasileiro a partir da colonização portuguesa, enfatizando a formação de redes de circulação, a ocupação de sertões e o papel das bandeiras, das missões e das rotas comerciais.
Ao longo de sua carreira, publicou cerca de uma centena de obras, abrangendo temas como história do Brasil, folclore, educação, literatura e crítica cultural. Era poliglota e integrou 26 associações culturais e científicas, sendo 17 brasileiras e 9 estrangeiras. Sua biblioteca pessoal chegou a reunir aproximadamente 27 mil volumes, constituindo um dos mais expressivos acervos privados de seu tempo.[9]
Obras
- Folk-lore no Brasil. Rio de Janeiro, 1928.[1]
- Expansão geográfica do Brasil colonial. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935. 2.ª ed., 1995.[1]
- Viagem pelo Amazonas e rio Negro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939. (Prefácio da 1.ª edição).[10]
- O café na história, no folclore e nas belas-artes. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939.[11]
- Estudos de História do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.[12]
Morte
Basílio de Magalhães faleceu em 14 de dezembro de 1957, na cidade de Lambari, em Minas Gerais, aos 83 anos de idade, em decorrência de uma hemorragia cerebral.[9] À época de sua morte, encontrava-se em condições financeiras precárias, situação que contrastava com o prestígio intelectual que havia alcançado ao longo de sua trajetória.[9]
Homenagens
Em reconhecimento à sua atuação intelectual, Basílio de Magalhães foi eleito membro de importantes instituições culturais brasileiras, entre elas o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Paulista de Letras e a Academia Mineira de Letras.[6]
É patrono-mor do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, instituição dedicada à preservação e difusão da memória histórica regional,[13] bem como patrono da cadeira n.º 7 da Academia de Letras de São João del-Rei.[14]
Seu nome foi atribuído ao Salão Nobre da Prefeitura de São João del-Rei, local onde funcionou por muitos anos o plenário da Câmara Municipal e onde exerceu a presidência do legislativo local durante sua trajetória política.[9]
Na cidade de Nazareno, uma instituição pública de ensino foi denominada Escola Estadual Professor Basílio de Magalhães, em sua memória.[15]
Além disso, o folclorista Luís da Câmara Cascudo dedicou-lhe um verbete no Dicionário do Folclore Brasileiro, no qual destacou sua contribuição para a sistematização dos estudos folclóricos no país.[1]
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l Cascudo 2000.
- ↑ a b c Pinto 2005.
- ↑ Pinto 2005, p. 13.
- ↑ «Histórico do município de Barroso». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 3 de fevereiro de 2020
- ↑ a b Pinto 2005, p. 19.
- ↑ a b c Pinto 2005, p. 14.
- ↑ a b c d e f Pinto 2005, p. 16.
- ↑ Rio & Barros 1915.
- ↑ a b c d e Pinto 2005, p. 17.
- ↑ Brasiliana 2015.
- ↑ Brasiliana 2015a.
- ↑ Brasiliana 2015b.
- ↑ IHG-SJDR 2015.
- ↑ ALSJDR 2015.
- ↑ SEE-MG 2015.
Bibliografia
Livros
- Cascudo, Luís da Câmara (2000). Dicionário do Folclore Brasileiro 10ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro. p. 146
Teses e dissertações
- Pinto, Jacqueline das Mercês Silva (2005). Basílio de Magalhães – Trajetória e estratégia de mobilidade social (1874–1957) (PDF) (Monografia de especialização). São João del-Rei: Universidade Federal de São João del-Rei
- Junior, Thiago de Souza (2016). A trajetória de Basílio de Magalhães: raça e educação na formação do Brasil (PDF) (Tese de Mestrado em História Social). São Gonçalo: UERJ
- Junior, Thiago de Souza (2020). A militância republicana de um “eminente polígrafo” O proselitismo laico de Basílio de Magalhães entre homens e instituições (PDF) (Tese de Doutorado em História Social). São Gonçalo: Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Artigos em periódicos
- Junior, Thiago de Souza (31 de maio de 2017). «Dimensões raciais e políticas educacionais: usos do passado na conformação dos valores estadonovistas». Temporalidades. 9 (1): 96–118. ISSN 1984-6150. Consultado em 2 de julho de 2021
- Filho, Virgilio Correa (1958). «Basilio de Magalhães (1874–1957)». Revista de Historia de América (45): 154–157
Trabalhos em anais de congresso
- Junior, Thiago de Souza (2015). «Basílio de Magalhães: um pouco de vida outro pouco de sociabilidade intelectual» (PDF). XXVIII Simpósio Nacional de História - Lugares dos Historiadores: Velhos e Novos Desafios. Simpósio Nacional de História. Florianópolis: Associação Nacional de História. 15 páginas
Leituras complementares
Portais e páginas institucionais
- «Acadêmicos anteriores». www.academiapaulistadeletras.org.br. Consultado em 7 de setembro de 2015
- Brasiliana UFRJ. «Magalhães, Basílio de.». UFRJ. Consultado em 26 de agosto de 2015
Imprensa e divulgação cultural
- Neves, Guilherme Santos (2011). «Basílio de Magalhães». www.jangadabrasil.com.br. Neves, Guilherme Santos. "Basílio de Magalhães". A Gazeta. Vitória, 27 de dezembro de 1957. Consultado em 25 de outubro de 2015
- «UM VELHO PROFESSOR NA RUA DA LAGOA». Barroso EM DIA. 13 de abril de 2015. Consultado em 6 de setembro de 2015. Cópia arquivada em 6 de setembro de 2015
- «Basílio de Magalhães: um negro boçal?» (PDF). www.barrosoemdia.com.br. 23 de novembro de 2013. Consultado em 6 de setembro de 2015. Cópia arquivada (PDF) em 3 de dezembro de 2013
Audiovisual
- [https://www.youtube.com/watch?v=QULd9p1bdu0 Conversando sobre historiadores mineiros: Basílio de Magalhães - Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, 2021
] no YouTube
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