Bando (antropologia)

Territórios com sociedade de bandos há 4000 anos (amarelo)
A esfera das sociedades de bandos está mudando com o tempo.

Uma sociedade de bando, por vezes chamada de horda, é a forma mais simples de sociedade humana. Um bando geralmente consiste em um pequeno grupo de parentesco, não maior do que uma família extensa ou clã. O consenso geral da antropologia moderna considera que o número médio de membros de um bando social está no nível mais simples das sociedades de caçadores-coletores, com um tamanho máximo geralmente de 30 a 50 pessoas.[1]

Origens do uso em antropologia

'Bando' era um de um conjunto de três termos empregados pela etnografia do início da era moderna para analisar aspectos das sociedades de caçadores-coletores. Os três eram respectivamente 'horda', 'bando' e 'tribo'.[2] O termo 'horda', formado com base na palavra turca/tártara úrdú (que significa 'acampamento'),[3][4] foi introduzido a partir de seu uso nas obras de J.F. McLennan por Alfred William Howitt e Lorimer Fison em meados da década de 1880 para descrever uma divisão geograficamente ou localmente definida dentro de uma agregação tribal maior, sendo esta última definida em termos de divisões sociais categorizadas em termos de descendência. Sua ideia foi então desenvolvida por A.R. Radcliffe-Brown, como um modelo para todas as sociedades indígenas australianas, sendo a horda definida como um grupo de famílias matrimoniais cujos homens casados pertenciam ao mesmo clã patrilinear.[5] 'Horda', desde o início, carregava conotações estereotipadas das sociedades aborígenes australianas como primitivas, fechadas, rígidas e simples, e acabou sendo descartada não apenas por sua implicação de 'selvagens em enxame', mas também porque sugeria uma entidade tribal-territorial fixa que comprometia os dados reais de campo, sendo que os dados de campo permitiam um conceito muito mais fluido do grupo.[6]

Em 1936, Julian Steward reformulou a definição altamente restritiva de Radcliffe Brown, propondo a ideia de uma sociedade de bando no nível dos caçadores-coletores, que poderia ser patrilinear, matrilinear ou uma combinação de ambas.[7] Com o tempo, o termo 'bando' tendeu a substituir a palavra anterior 'horda', à medida que trabalhos comparativos mais extensos sobre sociedades de caçadores-coletores mostram que elas não são classificáveis simplesmente como grupos patrilineares fechados e são melhor abordadas em termos de uma noção de um bando social flexível e não exclusivo, que mantém relações bilaterais para casamento e outros fins com grupos semelhantes em um território circunscrito.[8]

Em 1962, Les Hiatt invalidou a teoria da horda de Radcliffe-Brown, demonstrando que as evidências empíricas das sociedades aborígenes contradiziam a proposta de Radcliffe-Brown de que as hordas são sempre baseadas na descendência patrilinear.[9]

A palavra "bando" também é usada na América do Norte, por exemplo, entre os povos indígenas da Grande Bacia. Com caçadores-coletores africanos, por exemplo, entre os hadzas, o termo "acampamento" tende a ser usado.[10]

Características

Os bandos têm uma organização frouxa. Podem se separar (na primavera/verão) ou se agrupar (em acampamentos de inverno), como os inuítes, dependendo da estação do ano, ou famílias de membros podem se dispersar para se juntar a outros bandos.[11] Sua estrutura de poder é geralmente igualitária.[12] Os melhores caçadores tinham suas habilidades reconhecidas, mas tal reconhecimento não levava à assunção de autoridade, pois as pretensões de controlar os outros seriam recebidas com desobediência.[12]

Definições e distinções

A. R. Radcliffe-Brown definiu horda como uma unidade fundamental das organizações sociais australianas de acordo com os seguintes cinco critérios:

  1. Refere-se a pessoas que habitualmente compartilham o mesmo grupo e estilo de vida;
  2. É o principal proprietário de terras em um determinado território;
  3. Cada horda era independente e autônoma, regulando sua vida social por meio de um conselho de acampamento, geralmente sob a direção de um chefe;
  4. As crianças pertenciam à horda do pai;
  5. Uma identidade foi afirmada em todas as relações com tribos externas.[13]

Em seu estudo de 1975, The Notion of the Tribe, Morton Fried definiu bandos como formações sociais pequenas, móveis e fluidas, com liderança fraca, que não geram excedentes, não pagam impostos nem sustentam um exército permanente.[14]

Ocasionalmente, hordas ou bandos com origens e interesses comuns podiam unir-se como um agregado tribal para travar guerras, como os sãs.[15]

Exemplos

Historicamente, as sociedades de bandos foram encontradas em todo o mundo, em uma variedade de climas, mas geralmente, à medida que as civilizações surgiram, ficaram restritas a áreas pouco povoadas, florestas tropicais, tundras e desertos.[16]

Ver também

  • Chefatura, organizações políticas hierárquicas em sociedades não industriais.
  • Tribo, um termo com vários significados, incluindo um bando, um conjunto de bandos relacionados ou uma chefia mais hierárquica.

Referências

  1. Zatrev 2014, p. 260.
  2. Helm 2000, p. 2.
  3. Radcliffe-Brown 1918, p. 222.
  4. Yule & Burnell 2013, pp. 382–383.
  5. Helm 2000, pp. 3–4.
  6. Denham 2014, pp. 115–116.
  7. Kelly 2013, pp. 7–8.
  8. Kelly 2013, pp. 2ff..
  9. Peterson 2006, p. 16.
  10. Marlowe, F. W. (2010). The Hadza: Hunter-Gatherers of Tanzania. Berkeley: Univ. California Press. ISBN 978-0-520-25342-1 
  11. Briggs 1982, p. 111.
  12. a b Erdal et al. 1994, pp. 176–177.
  13. Radcliffe-Brown 1918, pp. 222–223.
  14. Fried 1975, pp. 8–9.
  15. Schapera 1963, p. 23.
  16. Berdichewsky 1979, p. 5.

Bibliografia