Ayllu
Um ayllu (quechua ou aimara), também conhecido como aillo ou ayllus, é uma forma de comunidade familiar extensa originária da região andina com uma ascendência comum - sanguínea ou alianças - que trabalha de forma coletiva em um território (marka) de propriedade comum.[1][2]
O império Inca se organizava em ayllus, multiplicidade de pequenas coletividades agropastoris, que tinham a seu cargo uma extensão de terra comumente situado a 3600 a 3800m acima do mar. [2] As aldeias eram habitadas por grupos de famílias unidas por laços parentescos ou alianças, constituindo a representação de um Ayllu, entretanto esses vales as alturas traziam consigo enormes desafios de contato, afinal era como se um fosso separasse os agrupamentos sociais.
Organização territorial e política
Para organização coletiva e demais papéis de gerenciamento, era reconhecido um chefe (kuraka), este tinha por papel grandes responsabilidades sobre as comunidades que o mesmo regia. Tinha por obrigações, a distinção de terras, organização do trabalho, além de regulamentação de conflitos.
Para firmar o poder e palavra do kuraka, há uma “figura” religiosa que o acompanha, reconhecida como divindade tutelar (waka ou huaca), normalmente referenciado como um ancestral do kuraka[3]. A Waka, é um monumento religioso que traz consigo menções aos saberes, consegue através da crença ser os principais agentes de filiação estrutural sagrada e sobrenatural em sua cultura.
Geografia Andina
A característica mais marcante do relevo da América Andina é a Cordilheira dos Andes que se estende de norte para sul, acompanhando o oeste da América do Sul. Juntamente, encontra-se planícies litorâneas estreitas acompanhando o Pacífico e outras planícies na porção oriental nas terras baixas amazônicas. Além disso, em meio às montanhas que formam os Andes, registra-se, também, a existência dos altiplanos na Bolívia e no Peru.

Por haver territórios em altitudes variadas nos vales e nas montanhas, são formados microclimas em diversos pontos dos Andes, isolados pelas barreiras biogeográficas no controle da biota. Gerando desta forma, diversas espécies endêmicas e uma barreira natural entre os seres vivos. (Young et al. 2009). [4]
“Suas diversas condições ecológicas, devido às diferenças entre os microclimas e solos dos vários vales e montanhas, criam heterogeneidade espacial nas restrições biofísicas e podem produzir barreiras biogeográficas, que por sua vez controlam a distribuição de espécies e ecossistemas”. [5]
Os ayllus se encontravam em diversas regiões e altitudes, habitando principalmente regiões a 3.600 mil metros a 4.200 acima do mar nas terras cultiváveis e as altas estepes, sendo que para muitos a vivencia abaixo dessa linha mais um empecilho do que uma facilidade levando em conta que essas altas altitudes serviam como uma barreira natural a outros povos e agrupamentos indesejados.[2] Com regiões a partir de 5.300 m apresentava-se grande parte das geleiras e montanhas de gelos[4], das geleiras que se tirava parte da água para o irrigamento das colheitas a partir de canais.
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“ A disposição dos ayllus dentro do território responde a [...] uma distribuição demográfica que abrange diferentes níveis ecológicos, incluindo terras altas, cadeias de montanhas e vales. [...] as famílias também ocupam diferentes níveis ecológicos não contíguos, podendo assim aproveitar os diferentes microclimas para diferentes culturas: milho, coca, frutas e vegetais nos vales mais quentes, batatas, cevada e quinoa mais acima, e atividades pastoris nas áreas mais altas." (YOUNG, 2009) [5]
Além desse clima montanhoso e de baixas temperaturas também se encontra mais ao litoral dos atuais: Chile, Bolívia e Argentina a oeste do continente americano no deserto do Atacama, numa região historicamente seca e quente por onde passam muitos dos rios que se originam do Andes. Mais a leste na região da Bacia Amazônica encontra-se um clima úmido com grandes regimes de chuvas e vegetação num clima tropical ou subtropical. [1]
Agropecuária
O território de um ayllu de forma geral era dividido entre a marka, um extenso local formado pelas pastagens da estepes de livre uso livre entre as famílias, para pecuária e pastoril (um dos poucos povos das Américas a adquirir essa habilidade). Com os principais animais sendo as alpacas para o fornecimento de lã no artesanato produzido pelas famílias e as rápidas lhamas usadas como animais de carga, além de outras necessidades que ambos podiam disponibilizar a partir das suas matérias físicas. [6]
“Esses dois animais ofereciam ainda muitos outros recursos. Sua carne, cortada em fatias finas depois secas ao sol, era transformada em charki. Sua pele era utilizada na confecção de sandálias, correias e bolsas. Seus ossos eram empregados na fabricação de agulhas, bem como de diversos utensílios. Mesmo seus excrementos eram recuperados, substituindo a madeira, como combustível, nas regiões em que eram escassos os arbustos.”[6]
No geral essa função de pastoreio era delegada a jovens. Para além da marka dedicada aos pastoril e pecuária existia as terras para o plantio das comunidades do ayllu, sendo esse o que era responsável por dividir essas terras em diferentes sítios ecológicos cada, divididas em lotes entre as famílias de acordo com a sua necessidade, levando em conta o tamanho da terra, a qualidade do solo e o tempo de repouso da terra de forma a garantir o sustento de cada família. [6]
Etimologia
A etimologia da palavra Ayllu tem dois sentidos básicos para seu entendimento, o pré-hispânico e o pós-hispânico colonial. A princípio, “O ayllu pré-hispânico é a família extensa, que forma um grupo local detentor ou não de um território utilizado comunitariamente para subsistência de seus integrantes.” [7] Então, pode-se dizer que o ayllu pré-hispânico é caracterizado através dos laços sanguíneos das famílias que constituíam o território, e não o território em si, pois essa conotação só viria no período colonial.
Assim, é possível ter uma noção básica da sua constituição, inicialmente a ideia de ayllu está sempre em constante pesquisa e novas tentativas de ressignificação, ademais, o termo já é bem conhecido, apesar de sua versão posterior ao domínio espanhol ser menos conhecida. O ayllu pós-hispânico tem suas características, “outros estudos referem-se ao ayllu com uma conotação territorial, e essa interpretação só é possível a partir do século XVI quando cronistas espanhóis propagam o termo com uma acepção de agrupamento de índios ou pueblo” [8]. Sendo assim, sua etimologia mudava de acordo com a era, anterior a dominação hispânica e posterior, desde sempre os historiadores, antropólogos e economistas tentaram achar a solução definitiva, mas até a atualidade chama a atenção.
Legado/Atualidade do Ayllu
O termo ayllu designa, na atualidade, uma forma de organização social utilizada em países andinos como a Bolívia [9], onde há comunidades aimarás, e de outros povos, que habitam estas regiões, demonstrando a abrangência deste conceito que pode estar vinculado tanto à comunidades, quanto à territórios[10]. Os povos do altiplano andino se organizam, tradicionalmente, desta forma que representa uma organização social e uma unidade territorial rural agro-pastoral[11][12][13]. Mesmo após tantos anos o ayllu ainda é um conceito bastante utilizado na América do Sul, em países com povos de culturas andinas pré-hispânicas. Apesar das mudanças provenientes do contato com os espanhóis, e da própria passagem do tempo, a essência da identidade sobrevive por meio das tradições e da autogestão dos governos locais[14].
Referências
- ↑ «Ayllu». Encyclopædia Britannica Online (em inglês). Consultado em 30 de novembro de 2019
- ↑ a b c Favre, Henri (1987). A civilização Inca. [S.l.]: Zahar. p. 35. ISBN 978-8571101388
- ↑ Favre, Henri (1987). A civilização Inca. [S.l.]: Zahar. p. 38. ISBN 978-8571101388
- ↑ a b HERZOG, S.K.; MARTÍNEZ, R.; JORGENSEN, P.M.; TIESSEN, H. (2012). Cambio Climático y Biodiversidad en los Andes Tropicales. [S.l.]: São José dos Campos: Instituto Interamericano para la Investigación del Cambio Global (IAI). p. 152. 426 páginas
- ↑ a b YOUNG, Kenneth R. (2009). Introducción a la Geografía Andina (PDF). [S.l.: s.n.] p. 151
- ↑ a b c FAVRE, Henri (1987). A civilização Inca. [S.l.]: Zahar. p. 39-40. ISBN 978-8571101388
- ↑ PORTUGAL, Ana Raquel (2009). O ayllu andino nas crônicas quinhentistas [online]. São Paulo: UNESP. p. 101. 213 páginas. ISBN 978-85-7983-000-6
- ↑ PORTUGAL, Ana Raquel (2009). O ayllu andino nas crônicas quinhentistas [online]. São paulo: UNESP. p. 102. 213 páginas. ISBN 978-85-7983-000-6
- ↑ BRANTS, Sarah; GONZALO, Huaranca (2012). Ser joven en el Norte de Potosí: un acercamiento sobre la identidad y participación de jóvenes quechuas y aymaras del Norte de Potosí. La Paz: [s.n.]
- ↑ ESCALANTE G., C.; VALDERRAMA FERNANDEZ, R. (2020). Ayllus incas. tierras del sol y agua del Huanacauri en Sucsu Auccaille, San Jerónimo, Cusco. Lima: Anthropologica. pp. 161–185
- ↑ LAURENTI SELLERS, Diego (2017). Autonomía Indígena Originario Campesina en las tierras altas de Bolivia. Santiago: [s.n.] pp. 222–252. Consultado em 7 de setembro de 2025
- ↑ SAINTENOY, Thibault (13 de abril de 2016). «ARQUEOLOGÍA DE LAS LLAQTAS DEL VALLE DEL APURÍMAC: CONTRIBUCIÓN AL ESTUDIO DE LA TERRITORIALIDAD DE LAS COMUNIDADES ALDEANAS SERRANAS EN LOS ANDES PREHISPÁNICOS». Chungará. 48 (2): 147-172
- ↑ ESTUPINAN VITERI, T. (2018). «El Puxilí de los Yngas, el ayllu de la nobleza incaica que cuidó de los restos mortales de Atahuallpa Ticci Cápac.». Cuidad de México. Rev. hist. Am. (154): 37-80. Consultado em 7 de setembro de 2025
- ↑ MUNOZ MORAN, O. (27 de março de 2017). «TODOS LOS SANTOS: TRADICIÓN Y AYLLU ANDINO». Arica. 49 (2): 227-239. Consultado em 7 de setembro de 2025