Augusto, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo

 Nota: Não confundir com Augusto de Saxe-Gota-Altemburgo (patrono das artes durante a era do Iluminismo).
Augusto
Retrato por Ludwig Döll, 1807
Duque de Saxe-Gota-Altemburgo
Período20 de abril de 1804
a 17 de maio de 1822
Antecessor(a)Ernesto II
Sucessor(a)Frederico IV
Dados pessoais
NascimentoEmil Leopold von Saxe-Gotha-Altenburg
23 de novembro de 1772
Gota, Saxe-Gota-Altemburgo,
Sacro Império Romano-Germânico
Morte17 de maio de 1822 (49 anos)
Gota, Saxe-Gota-Altemburgo, Sacro Império Romano-Germânico
EsposasLuísa Carlota de Mecklemburgo-Schwerin
Carolina Amália de Hesse-Cassel
Descendência
Luísa de Saxe-Gota-Altemburgo
CasaSaxe-Gota-Altemburgo
PaiErnesto II, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo
MãeCarlota de Saxe-Meiningen
ReligiãoLuteranismo
Brasão

Emílio Leopoldo (nome completo em alemão: Emil Leopold von Saxe-Gotha-Altenburg; Gota, 23 de novembro de 1772 – Gota, 17 de maio de 1822), que como governante e em documentos oficiais assinava Augusto, foi o duque soberano do Ducado de Saxe-Gota-Altemburgo de 1804 até sua morte.

Um importante mecenas e intelectual, frequentava círculos literários e manteve uma relação próxima com vários poetas. Ele também foi autor de Um Ano em Arcádia (1805), um dos primeiros romances modernos, que abordou o amor entre pessoas do mesmo sexo.[1][2][3]

Através de sua única filha, Luísa, fruto de seu primeiro casamento, Augusto foi avô materno do Príncipe Alberto, consorte da Rainha Vitória. Por meio dos descendentes do príncipe e da rainha, Augusto tornou-se ancestral de monarcas que chegaram aos tronos da Alemanha, Rússia, Grécia e Romênia, além de figurar entre os antepassados dos atuais soberanos do Reino Unido, Noruega, Dinamarca, Suécia e Espanha.[4][5]

Biografia

Emílio Leopoldo, segundo filho do duque soberano Ernesto II e da princesa Carlota de Saxe-Meiningen, nasceu em 23 de novembro de 1772.[6] Após a morte inesperada e precoce de seu irmão mais velho, Ernesto, no ano de 1779, tornou-se herdeiro aparente ao Ducado de Saxe-Gota-Altemburgo.[6] Como governante e em documentos oficiais assinava Augusto.[6] Como escritor e no convívio pessoal preferia "Amil" ou, mais ainda, "Emília".[6] Sua compleição delicada e esguia, aliada à elevada estatura, conferia-lhe uma suavidade quase feminina.[6]

Herzog August von Gotha als Griechin (1857). Gravura de "Emília", travestido, em trajes gregos, por Ernst Keil (editor).

Augusto era conhecido pelo seu travestismo: gostava de aparecer na corte vestido de mulher e chocar as pessoas que o rodeavam. A conhecida pintora Caroline Louise Seidler, que se encontrava em Gota no inverno de 1811 para pintar um retrato da família do duque, descreveu-o como "a pessoa mais original do seu tempo," com uma aparência "um tanto feminina". Augusto gostava de dançar, de vestir meias de seda e aparecer vestido de mulher. Entre os seus amigos, gostava de ser tratado apenas por "Emília".[6]

Recebeu, junto ao irmão Frederico, sólida educação sob a direção do barão von der Lühe e, especialmente, do conselheiro de legação Samuel Elisée Bridel-Brideri.[6] Em 1788 os dois príncipes seguiram para Genebra a fim de prosseguir a instrução e fortalecer a saúde fragilizada, regressando a Gota em 1791 enriquecidos de conhecimentos.[6] Uma série de cursos sobre filosofia, direito, história e literatura concluiu sua formação.[6] Augusto passou então a assistir às sessões do ministério para familiarizar-se com os assuntos do governo.[6]

Retrato de Augusto com a primeira esposa, Luísa Carlota, por Alexandre Molinari.

Em 21 de outubro de 1797 casou-se com a princesa Luísa Carlota de Mecklemburgo-Schwerin, que veio a falecer em 4 de janeiro de 1801 depois de dar à luz a princesa Luísa, futura esposa do duque soberano Ernesto I de Saxe-Coburgo-Gota.[6] Em segundas núpcias uniu-se à princesa Carolina Amália de Hesse-Cassel. Eles não tiveram filhos[6] e se distanciaram logo após o casamento, porque "seus pontos de vista mútuos sobre a vida são completamente diferentes".[7]

Com a morte de seu pai, em 20 de abril de 1804, Augusto ascendeu como o novo soberano do ducado. Os tempos turbulentos provocados pela guerra com a França e pela dominação napoleônica, acompanhados de sucessivas marchas de tropas e massivos aquartelamentos, foram mitigados pela prudência do duque. Suas convicções políticas divergiam das de muitos contemporâneos alemães, pois só tomou parte na guerra contra Napoleão por obrigação e reconhecia nele um homem extraordinário. O próprio Napoleão iniciava as cartas que lhe dirigia com as palavras mon cousin ("meu primo") e encerrava-as com votre cousin ("vosso primo"). Visitou o duque repetidas vezes em Gota para demonstrar apreço, embora jamais tenha pernoitado no Palácio de Friedenstein.[8][9]

Retrato de Augusto, por Josef Grassi.

A cordialidade entre ambos manifestou-se também em ocasiões públicas. No Congresso de Erfurt, em 1808, Napoleão sentou-se diante do duque durante o jantar e, percebendo que ele comia quase nada, perguntou-lhe a razão. Augusto respondeu galantemente: "Estou me alimentando dos raios do sol, que agora brilham sobre mim". A seguir, Napoleão quis saber a extensão de seu país, ao que Augusto replicou: "Majestade, tão grande quanto Vossa Majestade ordenar".[8]

Assim, o próprio Napoleão visitava frequentemente Augusto ao longo dos anos.[10] Quando Napoleão passou novamente por Gota a caminho da Batalha de Leipzig, quis pernoitar no Castelo de Friedenstein.[10] O Duque Augusto mandou preparar um quarto especialmente para seu hóspede.[10] O quarto preto e dourado era particularmente impressionante por causa de seu requintado teto de estuque: decorado com várias constelações, representava o sol e a lua com os rostos de Napoleão e Augusto.[10] Apesar da hospitalidade, Napoleão só conseguia pensar na batalha iminente. Era meia-noite quando ele acordou em um suor frio de sua "cama preta que de repente parecia um caixão".[10] "Seriam as velas que iluminavam o quarto destinadas ao seu próprio velório? Isso só poderia ser um presságio sinistro!", disse ele.[10] Assustado, Napoleão agarrou suas roupas e saiu apressadamente do castelo sem olhar para trás. Passou o resto da noite com suas tropas.[10] Apesar do sonho, Napoleão não morreu naquele dia, mas pouco depois perdeu a Batalha de Leipzig. Ainda hoje, muito tempo depois da morte de Napoleão, seu quarto sinistro pode ser visitado no Castelo de Friedenstein.[10]

Mapa do Ducado de Saxe-Gota-Altemburgo à época de Augusto.

A relação amistosa entre ambos contribuiu para que o território de Gota fosse tratado com grande consideração durante o conflito.[6] A França poupou a região de danos graves e até cancelou a contribuição de guerra de 1.700.000 francos imposta em 1806.[6] Após a derrota prussiana em Jena, em 14 de outubro de 1806, Gota sofreu bastante, e muitos pressionaram Augusto a abandonar o país.[6] Ele declarou, porém, que desejava permanecer junto a seus cidadãos fiéis e compartilhar com eles qualquer destino.[6] Quando os príncipes do norte alemão foram obrigados a aderir à Confederação do Reno, Augusto não utilizou a autonomia resultante para ampliar seu próprio poder.[6] Em outubro de 1813, quando tropas francesas em retirada passaram por Gota, permaneceu em sua residência, como antes, e impediu saques e violências.[6] A pedido de Augusto, Napoleão ordenou que os acessos da cidade fossem guarnecidos, obrigando as tropas a contorná-la, embora nem sempre fosse possível evitar excessos fora do perímetro urbano.[6]

A virada política de 1813 não agradou ao duque, mas ele se submeteu aos novos tempos. Poucas semanas após a retirada de Napoleão, aderiu aos aliados em novembro de 1813 e viajou pessoalmente a Frankfurt am Main.[6] Associou-se à Santa Aliança em 30 de dezembro de 1817, assim como às demais convenções das potências signatárias datadas de 20 de junho, 24 de julho e 12 de dezembro de 1818.[6]

Busto de Augusto, por Balthasar Rathgeber.

O duque era essencialmente um homem de imaginação e de ideias cujo valor nem sempre era seguro.[6] Estudos que exigiam investigação profunda e esforço contínuo,[6] bem como a caça e equitação,[11] não lhe agradavam, e as criações de sua poderosa fantasia frequentemente esbarravam em obstáculos intransponíveis.[6] O dinheiro não lhe tinha grande significado, e ao adquirir obras de arte ou objetos preciosos pagava sempre o preço pedido.[6]

Após a Paz de 1815, empregou todas as contribuições francesas recebidas não em proveito pessoal, mas para amortizar dívidas da administração do território.[6] Movia-o o constante desejo de fazer o bem e de ser reconhecido como governante benevolente.[6] Diversas instituições e leis de caráter assistencial datam de seu governo.[6] Construiu novas e belas estradas, criou em 1811 uma milícia policial montada ou gendarmaria para a segurança das áreas rurais, aprimorou o sistema de recrutamento, cuidou da melhoria dos caminhos vicinais, instalou marcos indicadores em todos os cruzamentos, reformou as instituições de assistência aos pobres, concedeu aos católicos em 1806 e aos reformados em 1807 os mesmos direitos civis dos luteranos e aboliu em 1811 a penitência eclesiástica, então considerada obsoleta.[6] Sua inclinação pelas artes e pelas ciências levou-o a incentivá-las de todas as formas.[6] Enriquecia continuamente as coleções de arte do Palácio de Friedenstein; doou à biblioteca a importante coleção particular de seu pai e incorporou a ela a valiosa coleção de manuscritos orientais adquirida pelo viajante Ulrich Jasper Seetzen.[6] O gabinete de arte recebeu dele diversas esculturas em marfim e madeira, e a galeria de pinturas tornou-se mais rica em quadros e gravuras. O gabinete chinês, pelo qual nutria especial predileção, foi reorganizado sob sua orientação.[6] Apesar de não ser admirador da astronomia, preservou e apoiou generosamente o observatório fundado por seu pai. A Universidade de Jena e os ginásios de Gota e Altemburgo beneficiaram-se amplamente de sua generosidade.[6]

A imaginação singular, extravagante e indisciplinada do duque conferia ao seu espírito direção insólita. Lia muito e retinha o que lia; apreciava conversar com eruditos, artistas e mulheres espirituosas, mantendo com elas vasta correspondência, estendida inclusive a comerciantes de moda e cabeleireiros.[6] Suas cartas, assim como seus escritos, distinguiam-se pela delicadeza e abundância de ideias incomuns e expressões engenhosas. Dedicava-se com prazer à poesia, à música e ao desenho.[6]

Retrato de Augusto, por Josef Grassi.

Existem referências à sua possível homossexualidade nos seus trabalhos literários. Em 1805, publicou o romance poético Um Ano em Arcádia (em alemão: Ein Jahr in Arkadien: Kyllenion). Trata-se de uma obra pastoral idílica que se desenrola na Grécia e na qual vários casais se apaixonam, ultrapassam vários obstáculos e vivem felizes para sempre. A característica que mais se destaca neste trabalho é o facto de um dos casais ser homossexual e a sua relação ser retratada da mesma forma que a dos restantes casais. É provavelmente a primeira história de amor entre pessoas do mesmo sexo a ser retratada desta forma:[3]

Mas os amantes [Julantíscos e Alexis] não se abraçaram até que estivessem na espaçosa estoa; então eles se apressaram juntos para o banho quente, onde eriçadas mulheres coríntias esfregaram seus membros enrijecidos com perfumados unguentos, e depois, para um banquete, e, então, eles caíram sonolentos e bêbados de sono e dormiram de mãos dadas, para nunca mais se separarem.[12]

A obra surgiu de um debate com uma francesa que admirava profundamente aos idílios de Gessner, e à qual Augusto, discordando, prometeu compor idílios ao modo verdadeiramente grego.[6]

Traduziu ainda as Lettres d’un Chartreux de Charles Pougens, que distribuiu apenas entre amigos próximos. Outras obras, como Panedone e Cartas emilianas, permaneceram inacabadas e inéditas.[6]

Seu espírito brilhoso e transbordante, por vezes mordaz, ocasionalmente feria; quando percebia isso, esforçava-se para reparar o mal.[6] Era um excêntrico original.[6] Nos últimos anos de vida deitava-se muito tarde e levantava-se igualmente tarde, geralmente apenas para a mesa do almoço.[6] Recebia visitas no leito, inclusive ministros e enviados estrangeiros.[6] Tinha aversão por equitação e caça; montou a cavalo apenas uma vez, usando meias e sapatos de seda e sem qualquer cobertura para a cabeça.[6] Pressionado por seus acompanhantes, assistiu uma única vez a uma caçada, mas proibiu previamente qualquer disparo.[6] Amava apenas a dança e, pouco antes de morrer, ainda dançava com graciosa elegância.[6] Jean Paul, com quem mantinha correspondência amistosa, afirmou que ele "possuía gigantomaquia e era um rebelde personificado, multiforme, leve e ardente, fresco e mutável, oscilando entre sol e terra, ora caindo, ora ascendendo".[6] Goethe considerava-o "simultaneamente agradável e desagradável", enquanto Augusto o julgava pedante.[6] Carl Maria von Weber, com quem Augusto trocou inúmeras cartas[13] e cujas dívidas foram pagas pelo duque, dedicou-lhe o seu segundo concerto de piano como gesto de gratidão.

O duque morreu repentinamente em consequência de um eczema que se espalhou pelo corpo e foi sepultado na ilha do parque de Gota.[6]

Genealogia

Os antepassados de Augusto, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo em três gerações
Augusto, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo Pai:
Ernesto II, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo
Avô paterno:
Frederico III, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo
Bisavô paterno:
Frederico II, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo
Bisavó paterna:
Madalena Augusta de Anhalt-Zerbst
Avó paterna:
Luísa Doroteia de Saxe-Meiningen
Bisavô paterno:
Ernesto Luís I, Duque de Saxe-Meiningen
Bisavó paterna:
Doroteia Maria de Saxe-Gota-Altemburgo
Mãe:
Carlota de Saxe-Meiningen
Avô materno:
Antônio Ulrico, Duque de Saxe-Meiningen
Bisavô materno:
Bernardo I, Duque de Saxe-Meiningen
Bisavó materna:
Isabel Leonor de Brunsvique-Volfembutel
Avó materna:
Carlota Amália de Hesse-Philippsthal
Bisavô materno:
Carlos I, Conde de Hesse-Philippsthal
Bisavó materna:
Carolina Cristina de Saxe-Eisenach

Referências

  1. «Obituary: The Duke of Saxe Gotha». The Gentleman's Magazine (January—June 1822). 92. [S.l.: s.n.] 1822 
  2. «Obituary: The Duke of Saxe Gotha». The Inquirer (1822). 1. [S.l.: s.n.] 1822 
  3. a b Haggerty, George; Zimmerman, Bonnie, eds. (2000). «German Literature». Encyclopedia of Lesbian and Gay Histories and Cultures. [S.l.: s.n.] p. 612. ISBN 0-815-34055-9 
  4. Marlene A. Eilers, Queen Victoria's Descendants (Baltimore, Maryland: Genealogical Publishing Co., 1987)
  5. Béeche, Arturo E., The Coburgs of Europe, Eurohistory, 2013. ISBN 978-0-9854603-3-4
  6. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai aj ak al am an ao ap aq ar as at au Beck, August. "August, Emil Leopold" in Allgemeine Deutsche Biographie 1 (1875), pp. 681-683. Consultado em 12 de dezembro de 2025
  7. Berbig, Max. Karoline Amalie of Hesse-Kassel in: The wives of the rulers of the Duchy of Gotha. Gotha: 1890, p. 142.
  8. a b Beck, August. Geschichte der Regenten des gothaischen. Gota: Landes, 1868, p. 449.
  9. S Bedd als Sarch (em alemão). Arquivado em 6 de outubro de 2014. Consultado em 27 de setembro de 2014.
  10. a b c d e f g h "Das Bett als Sarg Stiftung Schloss Friedenstein Gotha" In /www.stiftung-friedenstein.de. Consultado em 12 de dezembro de 2025
  11. Béeche, Arturo E., The Coburgs of Europe, Eurohistory, 2013, p. 19. ISBN 978-0-9854603-3-4
  12. Augusto, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo (2022) [1805]. Um Ano em Arcádia 🔗. Traduzido por Pedro Decleva Fernandes. [S.l.: s.n.] pp. 115–116. ISBN 9786500426274 
  13. Correspondência entre Carl Maria von Weber e Augusto, Duque de Saxe-Gota-Altemburgo (em alemão) In Carl-Maria-von-Weber-Gesamtausgabe. weber-gesamtausgabe.de. Consultado em 12 de dezembro de 2025

Leitura complementar

  • August, Herzog von Sachsen-Gotha, Kyllenion Ein Jahr in Arkadien (1805; reprint Berlin 1985 with biographic info.)
  • Warrack, John. «Travels: 1811-1813». Carl Maria Von Weber. [S.l.: s.n.] ISBN 0-521-29121-6 
Augusto de Saxe-Gota-Altemburgo
Casa de Saxe-Gota-Altemburgo
Ramo da Casa de Wettin
23 de novembro de 1772 – 17 de maio de 1822
Precedido por
Ernesto II

Duque de Saxe-Gota-Altemburgo
20 de abril de 1804 – 17 de maio de 1822
Sucedido por
Frederico IV