Atentado de julho de 1889

Atentado de Julho de 1889
Gravura publicada no jornal francês Le Monde illustré em 21 de setembro de 1889, com uma representação do atentado e um retrato de Adriano do Valle.
LocalSaída do Teatro Sant'Anna, na Praça da Constituição (atual Praça Tiradentes), Rio de Janeiro, Império do Brasil.
Data15 de julho de 1889 (136 anos)
Tipo de ataqueTentativa de assassinato (suposta)
Alvo(s)Pedro II do Brasil
Arma(s)Revólver
Mortes0
Feridos0
Responsável(is)Adriano Augusto do Valle

O Atentado de Julho de 1889 foi uma suposta tentativa de assassinato contra o imperador Pedro II do Brasil, ocorrida na noite de 15 de julho de 1889, no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil. O evento, embora não tenha resultado em feridos e seu autor tenha sido posteriormente absolvido, tornou-se um sintoma da profunda crise política que levaria à Proclamação da República do Brasil quatro meses depois.[1]

O episódio se desenrolou na Praça da Constituição (atual Praça Tiradentes) quando a família imperial deixava o Teatro Sant'Anna após uma apresentação. Um jovem imigrante português, Adriano Augusto do Valle, disparou um tiro de revólver para o ar, ou na direção da carruagem imperial, enquanto bradava "Viva a República!".[1] O imperador permaneceu ileso e minimizou o ocorrido, mas o ato gerou intensas reações na imprensa e na sociedade, expondo as tensões entre republicanos, monarquistas e a comunidade portuguesa na capital.

Contrariando a crença popular de que o caso foi simplesmente ignorado por magnanimidade do imperador, o processo criminal ocorreu, mas seu desfecho se deu já sob o novo regime republicano. Em novembro de 1889, Adriano do Valle foi levado a júri popular e absolvido por unanimidade, sob o argumento de falta de provas de que o tiro fora direcionado à carruagem.[2]

Antecedentes: o clima político de 1889

O ano de 1889 foi o clímax de uma prolongada crise que desgastou as bases de sustentação do Império. A monarquia enfrentava o descontentamento de três importantes grupos:

  • A elite agrária escravocrata, que se sentiu traída pela abolição da escravatura em 1888 sem a devida indenização, levando a uma adesão em massa ao republicanismo ("republicanos de 13 de maio").[3]
  • Os militares, especialmente no Exército, que se sentiam desprestigiados e eram influenciados pelas ideias positivistas de ordem e progresso, vendo a República como um sistema mais moderno e eficiente.[4]
  • Setores da Igreja Católica, em decorrência da Questão Religiosa na década de 1870, que abalou a relação entre o Estado e o clero.[5]

Nesse cenário, o movimento republicano, antes restrito a pequenos círculos intelectuais, ganhava força e visibilidade. Jornais como O Paiz, de Quintino Bocaiuva, promoviam abertamente a mudança de regime, aumentando a tensão política na capital.[1] O atentado, embora isolado, foi imediatamente interpretado sob a ótica desse confronto iminente.

O atentado

Representação do atentado na revista portuguesa O Ocidente de 11 de agosto de 1889.

Na noite de 15 de julho de 1889, uma segunda-feira, D. Pedro II, acompanhado da imperatriz Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, da Princesa Isabel e de seu neto, o príncipe D. Pedro Augusto, assistiu a uma apresentação da aclamada violinista italiana Giulietta Dionesi no Teatro Sant'Anna.[1] O teatro, localizado na Praça da Constituição, era um dos principais centros culturais do Rio de Janeiro, palco de importantes companhias e debates sobre a identidade artística nacional.[6]

Por volta das 23h, ao final do espetáculo, a família imperial deixava o teatro. Enquanto a carruagem se afastava, passando em frente ao restaurante Maison Moderne, um jovem bem vestido aproximou-se e disparou um tiro de revólver. Testemunhas relataram que ele gritou "Viva a República!" ou "Morra a Monarquia! Viva a República!".[1]

O tiro não atingiu ninguém. A reação imediata de D. Pedro II, registrada por diversas fontes, foi de calma e desdém. Ele teria dito ao cocheiro para seguir e comentado com a família:

Não foi nada, foi um tiro de louco!

escreveu D. Pedro II, conforme relatado por fontes da época.

A carruagem seguiu pela Rua da Carioca em direção ao Paço Imperial, sem maiores incidentes. O atirador, em meio ao tumulto, conseguiu fugir inicialmente, mas foi capturado pela polícia pouco tempo depois.

O autor: Adriano Augusto do Valle

Adriano Augusto do Valle.

Adriano Augusto do Valle era um imigrante português, natural de Coimbra, com cerca de 20 anos de idade.[7] Trabalhava como caixeiro e estava desempregado na época do atentado. Fontes o descrevem como um jovem de "opiniões exageradas" e exaltado. A investigação policial apurou o boato de que ele já havia, em outra ocasião, atirado contra um retrato do Conde d'Eu.[1]

Após o disparo, Adriano fugiu para um bar nas proximidades, onde, já embriagado pelo consumo de absinto, começou a se vangloriar do feito. Ele teria dito aos outros frequentadores que atirara no imperador e que o faria novamente, pois da primeira vez errara o alvo.[7] Foi nesse estado que a polícia, liderada pelo delegado Bernardino Ferreira da Silva, o encontrou e prendeu em flagrante.[1]

Embora tenha gritado palavras de ordem republicanas, as investigações e a própria imprensa da época não encontraram ligações formais entre Adriano e os líderes do Partido Republicano.[8]

A investigação e o julgamento

A condução do caso coube ao 2º delegado auxiliar, Dr. Bernardino Ferreira da Silva. O processo judicial foi instaurado, e o promotor designado foi o Dr. João da Costa Lima Drummond, um jovem advogado e eloquente orador que mais tarde se tornaria professor.[9]

Representação do atentado na Revista Illustrada de 20 de julho de 1889.

O julgamento, no entanto, só ocorreu em 23 de novembro de 1889, uma semana após a Proclamação da República. O contexto político havia mudado drasticamente. O juiz que presidiu o júri foi o Dr. Hollanda Cavalcanti.[2]

A defesa de Adriano do Valle argumentou que:

  • O grito de "Viva a República!" havia perdido sua relevância criminal, uma vez que a República já era o regime vigente.
  • Não havia provas materiais conclusivas; ninguém ouviu o som da bala atingindo a carruagem, e nenhum projétil foi encontrado.
  • O réu estava em estado de completa embriaguez, o que diminuía sua responsabilidade.

Por uma votação unânime de 10 a 0, o júri absolveu Adriano Augusto do Valle, considerando "não provado que o réu tivesse desfechado a arma na direção do carro imperial". A notícia da absolvição foi publicada pelo jornal Gazeta de Notícias em 24 de novembro de 1889.[2]

A informação, presente na versão anterior deste artigo, de que Adriano do Valle teria falecido em Miracema em 1903, carece de fontes verificáveis e é contradita pelo fato documentado de sua absolvição e liberdade em 1889.

Reações ao atentado

O atentado provocou uma onda de reações que expuseram as profundas divisões da sociedade brasileira. A imprensa, em particular, tornou-se o principal palco para a batalha de narrativas.

Imprensa republicana

Os jornais republicanos, como O Paiz, de Quintino Bocaiuva, e a Gazeta da Tarde, adotaram uma estratégia de minimização de danos. Em editorial, Bocaiuva classificou o ato como um crime comum, produto da "auto-sugestão alcoólica" de um "infeliz", e não um ato político. Ele acusou os monarquistas de explorarem o evento para atacar o movimento republicano, que, segundo ele, era uma "evolução necessária e pacífica" e não dependia de atos de violência.[10]

Imprensa legalista e liberal

Jornais legalistas, mas com postura liberal, como a Gazeta de Notícias, também descartaram a hipótese de um complô político. No entanto, sua principal preocupação foi combater a onda de xenofobia que se insinuava contra os portugueses. O jornal criticou a polícia por dar destaque à nacionalidade do atirador, afirmando que "a loucura não é privilégio de nacionalidade alguma".[11]

Outros periódicos

O jornal feminino O Sexo Feminino expressou horror e alívio, publicando uma "nota de pesar que engrandecia o Imperador" e celebrava a sobrevivência de sua "Preciosa Vida". A historiografia aponta que essa foi uma das últimas grandes manifestações de lealdade do periódico à monarquia antes de aderir à causa republicana.[12]

Comunidade portuguesa

A nacionalidade do atirador causou pânico na comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. O embaixador de Portugal, Nogueira Soares, convocou uma reunião de emergência. Associações como o Liceu Literário Português e o Gabinete Português de Leitura publicaram notas de repúdio veementes, desassociando-se do ato e reafirmando sua lealdade ao imperador. Essa reação efusiva foi, ironicamente, criticada por jornais como a Gazeta de Notícias e O Paiz, que a consideraram exagerada e desnecessária.[1][11]

Análise histórica e consequências

Representação do atentado na edição do jornal Cidade do Rio de 17 de julho de 1889.

O atentado de julho de 1889 é considerado por historiadores mais como um sintoma do que como uma causa da queda do Império. Ele não alterou o curso dos acontecimentos, mas serviu como um "ensaio geral" para as forças políticas em conflito, revelando suas estratégias e fragilidades.[1]

  • Para os republicanos, o episódio expôs o risco de terem sua causa associada a atos de violência, forçando seus líderes a reforçarem publicamente o caráter pacífico e evolutivo de seu movimento.
  • Para os monarquistas, a tentativa de usar o atentado para gerar uma onda de simpatia pelo imperador e criminalizar a oposição teve efeito limitado, mostrando o desgaste da imagem do monarca como uma figura unificadora e intocável.
  • O desfecho do julgamento, com a absolvição de Adriano do Valle sob o novo regime, é simbolicamente poderoso. Ele representa a ruptura da nova ordem republicana com a lógica de crimes de "lesa-majestade", tratando o caso sob a ótica de um crime comum, e absolvendo o réu por falta de provas, num claro distanciamento do sistema judicial imperial.

O atentado também se insere num contexto de crescente violência política que marcou o fim do Império, que culminaria no atentado ao Almirante Barão de Ladário durante os eventos da Proclamação da República e no Massacre de 17 de novembro, no Maranhão.

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i Brasiliana Fotográfica (15 de julho de 2020). «Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado». Consultado em 12 de junho de 2025. Arquivado do original em 20 de julho de 2020 
  2. a b c Brasiliana Fotográfica (15 de julho de 2020). «Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado». Consultado em 12 de junho de 2025 
  3. Gomes 2013, p. 136.
  4. Carvalho, José Murilo de (2007). D. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras. p. 218. ISBN 978-85-359-0969-2 
  5. Schwarcz, Lilia Moritz (1998). As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras. p. 389. ISBN 978-85-7164-837-1 
  6. Augusto, Sergio; Almeida, Leonardo (2018). «Um palco para a ciência: o teatro de revista e a divulgação científica na Primeira República». História, Ciências, Saúde – Manguinhos. 25 (1): 157-175. Consultado em 12 de junho de 2025 
  7. a b Fialho, Anfriso (1891). História da fundação da República no Brasil. Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger. p. 65 
  8. Gomes 2013, p. 70.
  9. ASBRAP. «Galeria de Presidentes da Relação e do Tribunal de Justiça da Bahia - João da Costa Lima Drummond» (PDF). ASBRAP, nº 33. p. 20. Consultado em 12 de junho de 2025 
  10. «O Paiz, 19 de Agosto de 1889» (PDF). Hemeroteca Digital Brasileira. O Paiz: 1. 19 de agosto de 1889. Consultado em 12 de junho de 2025 
  11. a b Mendes, Ana Cláudia (2010). «Gritos de Morte à Monarquia? O republicanismo português e a queda do Império brasileiro». Repositório da Universidade do Porto. p. 68. Consultado em 12 de junho de 2025 
  12. Martins, Ana Luiza (2008). «O Quinze de Novembro do sexo: a representação do feminino no jornal O Sexo Feminino» (PDF). Repositório Institucional UNISAGRADO. p. 98. Consultado em 12 de junho de 2025 

Biliografia

  • Gomes, Laurentino (2013). 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil. São Paulo: Globo Livros. p. 136. ISBN 9788525054463