Caranguejo-arborícola

Caranguejo-arborícola
Espécime avistado em Homestead, na Flórida, nos Estados Unidos
Espécime avistado em Homestead, na Flórida, nos Estados Unidos
Espécime avistado na ilha Sanibel, na Flórida, nos Estados Unidos
Espécime avistado na ilha Sanibel, na Flórida, nos Estados Unidos
Estado de conservação
G5 (TNC) [1]
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Subfilo: Crustacea
Classe: Malacostraca
Ordem: Decapoda
Infraordem: Brachyura
Família: Sesarmidae
Gênero: Aratus
Espécie: A. pisonii
Nome binomial
Aratus pisonii
(H. Milne Edwards, 1837)
Sinónimos[2]
  • Sesarma pisonii (H. Milne-Edwards, 1837)
  • Aratus pisoni (H. Milne-Edwards, 1837)

Caranguejo-arborícola,[3] aratu-marinheiro, aratu-da-pedra, aratupeba ou aratupinima[4] (nome científico: Aratus pisonii) é uma espécie de caranguejo da família dos sesarmídeos (Sesarmidae), endêmico do Atlântico Ocidental tropical, da Flórida, nos Estados Unidos, ao litoral de Santa Catarina, no Brasil.

Nomes

Espécime de alimentando

O nome popular caranguejo, segundo Joan Corominas, derivou do espanhol cangrejo, cuja atestação mais antiga remonta o ano de 1251, como diminutivo de cangro, que por sua vez derivou do latim cancer, cancri.[5] Aratu deriva do tupi ara'tu, em sentido definido, e foi registrado ca. 1584 como aratû e em 1587 como aratu.[6][7] Aratupeba é formada por aratu + -peba (de pewa ou bewa, "chato, plano, liso, largo, achatado"), e significa "aratu chato"; foi registrado pela primeira vez em 1648.[8][9] Aratupinima é formado por aratu + -pinima (de pi'nima, "malhado, manchado, listrado, rajado"[10]) e significa "aratu malhado"; foi registrado pela primeira vez em 1648.[11] Por conseguinte, o epíteto específico pisonii homenageia o naturalista holandês Guilherme Piso (1611–1678) que viajou pelo Brasil em 1638 com Georg Marggraf e depois coescreveu a importante obra naturalista Historia Naturalis Brasiliae.[12]

Descrição

O caranguejo-arborícola e A. pacificus são as duas espécies do gênero Aratus.[13] O caranguejo-arborícola é uma espécie pequena, com machos medindo em média dois centímetros de comprimento e fêmeas um pouco menos.[14][15] Seu crescimento relativo foi descrito como sendo linear e quase perfeito para machos e fêmeas, já que a largura e o comprimento da carapaça mostraram uma relação isométrica.[16] Os olhos grandes são bem separados e a carapaça é mais larga na frente do que atrás. Sua cor é marrom-oliva e mesclada, o que ajuda o caranguejo a se camuflar com o ambiente. As patas são marrons ou mescladas, e tufos de pelos pretos estão próximos às pontas.[14][15] São pontiagudos, o que ajuda o caranguejo a escalar a folhagem do mangue. As pernas posteriores longas facilitam a locomoção arbórea. O esterno é geralmente envolvido pela carapaça. As pernas locomotoras possuem dáctilos curtos (seções mais externas) e propódios relativamente longos (seções adjacentes). Os órgãos reprodutores masculinos, em forma de H e bilateralmente simétricos, são encontrados no cefalotórax, na parte frontal e abaixo da carapaça dorsal. A fêmea possui um par de ovários, também localizados na parte frontal do cefalotórax e conectados por uma ponte transversal.[16]

Distribuição e habitat

O caranguejo-arborícola é encontrado nas regiões tropicais e semitropicais ao longo das costas das Américas do Norte, Central e do Sul. No lado Atlântico, sua distribuição se estende da Flórida, nos Estados Unidos, ao litoral de Santa Catarina, no Brasil, incluindo toda a região do Caribe (p. ex. Trindade e Tobago).[17][4] Habita ambientes supratidial e estuarinos, onde é avistado sobre rochas, pilares de píeres e manguezais,[18] e lagos hipersalinos. Nos manguezais é comumente encontrado no mangue-vermelho (Rhizophora mangle), no mangue-branco (Laguncularia racemosa) e no sereíba (Avicennia germinans e Avicennia schaueriana) e Pelliceria rhizophorae.[19] Sobe pelas árvores quando a maré sobe e descendo à lama exposta quando a maré baixa.[14][15]

Ecologia

O caranguejo-arborícola é social apenas na organização de ninhos, mas não em castas.[20] Sua razão sexual obtida num estudo por Diaz e Conde (1989) mostrou que a razão fêmea-macho foi de 1,3:1 onde havia mais fêmeas para machos. Sua estrutura populacional apresentou estabilidade e distribuição simétrica de tamanho ao longo do ano. A taxa de mortalidade foi difícil de determinar.[16]

Alimentação

O caranguejo-arborícola é onívoro, embora a maior parte de sua dieta seja composta de folhas das árvores de mangue em que vive. Consome a epiderme das folhas e marcas características de raspagem mostram onde se alimentou. Mesmo onde é incomum, seu consumo pode constituir mais de 90% da herbivoria das folhas de mangue. Também come detritos orgânicos e algas e, oportunisticamente, se alimenta de carniça e pequenos invertebrados, incluindo vermes poliquetas, nematoides e foraminíferos.[14][15] Também se alimentam dos tecidos em decomposição das raízes do mangue e das fezes de outros de sua espécie.[16] Em testes de alimentação, descobriu-se que prefere alimentos de origem animal a alimentos vegetais. Isso não é surpreendente, considerando que as folhas de mangue têm baixo valor nutricional, mas o que é surpreendente é a alta proporção de matéria foliar na dieta dos caranguejos. Isso pode ser uma resposta ao maior risco de predação na água do que no dossel.[20] É predado por aves, mamíferos terrestres e caranguejos maiores. É eficiente em escapar de predadores em potencial, pois consegue deslizar pelos galhos a uma velocidade de 1 m/s e saltar para a segurança na água, mas lá pode se tornar vítima de um peixe predador.[14][15]

Reprodução

Exoesqueleto abandonado na ilha Sanibel, na Flórida

O caranguejo-arborícola apresenta grande plasticidade no tamanho corporal e história de vida. Em manguezais hipersalinos na Venezuela, há indivíduos anões, incluindo fêmeas ovígeras pequenas, enquanto em manguezais em fozes de rios ocorrem indivíduos maiores com alto esforço reprodutivo. O tamanho máximo (largura cefalotorácica) é 27 milímetros. Em Bertioga, no estado de São Paulo, a idade reprodutiva varia de 1 a 2,5 anos e a longevidade de 4,5 a 6 anos; em Ubatuba, em São Paulo, a idade reprodutiva é menor que 1 ano. A primeira maturidade sexual das fêmeas ocorre entre 10 e 14 milímetros, com idades de um a 2,5 anos, dependendo da localização, fotoperíodo e temperatura.[19]

Os membros da ordem dos decápodes são, em sua maioria, gonocóricos. O ritual de cortejo pré-copulatório é comum e envolve sinais olfativos e táteis. Geralmente há transferência indireta de esperma.[18] A fêmea carrega os ovos fertilizados sob o abdome até que estejam prontos para eclodir.[21] O desenvolvimento larval ocorre em quatro estágios, que consistem em quatro larvas zoeicas e uma larva megalopa.[16] O desenvolvimento embrionário dura de 16 a 20 dias a 25ºC e salinidade 34. As fêmeas têm reprodução contínua, com até seis desovas anuais, principalmente na estação chuvosa,[19] o que é vantajoso, pois causa alteração na salinidade da água, bem como aumento de nutrientes e crescimento de plâncton, e, portanto, aumenta a produtividade primária da água. Isso é benéfico às larvas, pois evitaria o estresse osmorregulatório e o encalhe. Os machos normalmente apresentam uma taxa de crescimento mais rápida, já que as fêmeas têm um esforço reprodutivo maior e, portanto, não mudam de pele enquanto incubam seus ovos.[16] A espécie está presente o ano todo no Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. A fecundidade varia de cinco a 35 mil ovos por fêmea por desova, com mortalidade larval elevada, e apenas 17% chegam ao tamanho adulto de 18 milímetros.[19]

Comportamento

Os caranguejos-arborícolas adultos se distinguem de outras espécies por sua preferência por caminhar sobre qualquer substrato em velocidades variadas, embora ainda seja capaz de caminhar lateralmente. Para escapar da predação, passam a maior parte do tempo na copa das árvores e só se aventuram para baixo quando buscam alimento na maré baixa. Durante o período reprodutivo, as fêmeas geralmente migram em direção às margens do manguezal, que possuem características adequadas, como umidade, para o desenvolvimento dos ovos e liberação das larvas.[22] Esse movimento em direção às margens também pode servir como uma forma de encontrar possíveis parceiros. Os juvenis demonstram uma resposta comportamental aos predadores, escondendo-se atrás de objetos estreitos, como galhos.[16]

Conservação

Indivíduo avistado sobre uma folha na Flórida

O caranguejo-arborícola é uma espécie-modelo em estudos de ecologia de doenças: hospedeira de simbiontes e vírus de mandioca, servindo para investigar dinâmicas patogênicas em ecossistemas costeiros.[23] A Nature Serve Explorer classificou o caranguejo-arborícola como seguro (G5), pois é bastante difundido, mas seu habitat está ameaçado localmente pelo desenvolvimento, especialmente na Flórida.[1] Em 2018, o caranguejo-arborícola foi classificado como pouco preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)[3][24] e vulnerável na Lista das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção no Estado do Rio de Janeiro.[25] No Brasil, em sua área de distribuição, ocorre em apenas quatro áreas de conservação: a Área de Proteção Ambiental Delta do Parnaíba (APA Delta do Parnaíba), a Reserva Extrativista de Cururupu (Resex Cururupu), a Área de Proteção Ambiental da Baixada Maranhense (APA Baixada Maranhense) e a Área de Proteção Ambiental das Reentrâncias Maranhenses (APA Reentrâncias Maranhenses).[19]

A área de manguezais no Brasil é cerca de 13 mil quilômetros quadrados, distribuída do rio Oiapoque (4°30’N), no Amapá, ao rio Ponta Grossa (28°30’S), em Santa Catarina. A linha costeira brasileira tem 7 400 quilômetros, chegando a mais de 8 500 quilômetros considerando recortes do litoral. O Brasil detém a segunda maior extensão de manguezais do mundo, com 7,4% do total global. Apesar de aproximadamente 50% dos manguezais mundiais terem sido destruídos, no Brasil não há redução significativa detectada, embora a degradação tenha aumentado nas últimas décadas. Metade da população brasileira vive a menos de 200 quilômetros do mar, e mais de 70 milhões de pessoas impactam diretamente os ambientes litorâneos, especialmente próximos a grandes centros, onde poluição e exploração comprometem baías e estuários.[19]

O crescimento populacional exerce pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis, como dunas, manguezais e estuários. No Brasil, 80% do esgoto não recebe tratamento e é lançado em rios, lagoas ou no mar. A poluição por resíduos é alta, com 90% do lixo coletado destinado a “lixões”, dos quais 50% ficam próximos a corpos d’água. A aquicultura também contribui para a degradação dos manguezais. Mais de 3.000 toneladas de poluentes líquidos são despejadas diariamente no litoral brasileiro, sendo cerca de 130 toneladas de poluentes industriais altamente tóxicos. A poluição por óleo, crônica ou aguda, é um risco constante ao longo da costa. Essas mudanças ambientais reduzem habitats, aumentam mortalidade, competição e predação. Espécies arborícolas, especialmente as associadas ao gênero Avicennia, são fortemente afetadas pela supressão dos bosques de mangue e pela qualidade nutricional das plantas.[19]

Referências

  1. a b «Aratus pisonii, Mangrove Tree Crab». Nature Serve. NatureServe Explorer 2.0. Consultado em 7 de janeiro de 2023. Cópia arquivada em 29 de abril de 2025 
  2. Froeser, R.; Pauly, D. «Aratus pisonii (H. Milne Edwards, 1837)». World Register of Marine Species (WoRMS). Consultado em 12 de maio de 2025. Cópia arquivada em 25 de abril de 2025 
  3. a b «Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção» (PDF). Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente. 2018. Consultado em 3 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2018 
  4. a b «Aratu-marinheiro». 24 de setembro de 2012. Consultado em 12 de maio de 2025 
  5. Grande Dicionário Houaiss, verbete caranguejo
  6. Grande Dicionário Houaiss, verbete aratu
  7. Papavero, Nelson; Teixeira, Dante Martins (2014). Zoonímia Tupi nos Escritos Quinhentistas Europeus (PDF). São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade de São Paulo (USP). p. 290. Consultado em 12 de maio de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 7 de julho de 2015 
  8. Grande Dicionário Houaiss, verbete -peba
  9. Grande Dicionário Houaiss, verbete aratupeba
  10. Grande Dicionário Houaiss, verbete -pinima
  11. Grande Dicionário Houaiss, verbete Aratupinima
  12. Henri Milne-Edwards (1837). Histoire naturelle des crustacés: comprenant l'anatomie, la physiologie et la classification de ces animaux. 2. Paris: Librairie encyclopédique de Roret. pp. 76 
  13. Peter K. L. Ng; Danièle Guinot; Peter J. F. Davie (2008). «Systema Brachyurorum: Part I. An annotated checklist of extant Brachyuran crabs of the world» (PDF). Raffles Bulletin of Zoology. 17: 1–286. Consultado em 28 de fevereiro de 2010. Arquivado do original (PDF) em 6 de junho de 2011 
  14. a b c d e Sweat, L. H. (8 de junho de 2009). «Aratus pisonii». Smithsonian Marine Station at Fort Pierce. Consultado em 12 de maio de 2025. Cópia arquivada em 8 de agosto de 2017 
  15. a b c d e «Aratus pisonii Mangrove Crab, Mangrove Tree Crab». Reeflex. Consultado em 2 de maio de 2025. Cópia arquivada em 12 de maio de 2025 
  16. a b c d e f g «Aratus pisonii (Mangrove Tree-climbing Crab)» (PDF). UWI Guide to the Animals of Trinidad & Tobago. Consultado em 2 de maio de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 4 de junho de 2024 
  17. Salvi, Fabiola Inês (junho de 2002). Biologia do caranguejo-arborícola Aratus pisonii (H. Milne Edwards, 1837) (Crustacea, Brachyura, Grapsidae) nos Manguezais de Iguape, SP (PDF). Chapecó: Universidade do Oeste de Santa Catarina. p. 7. Consultado em 12 de maio de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 3 de julho de 2022 
  18. a b «Aratus pisonii (Milne-Edwards, 1837)». SeaLifeBase. Consultado em 2 de maio de 2025. Cópia arquivada em 12 de maio de 2025 
  19. a b c d e f g Pinheiro, Marcelo Antonio Amaro; Dias-Neto, José; Santana, William Ricardo Amancio; Mantelatto, Fernando Luis Medina; Freire, Andrea Santarosa; Rodrigues, Ana Maria Torres; Oliveira, Danielly Brito de; Keunecke, Karina Annes; Santos, Luciana Cavalcanti Maia; Rodrigues, Luiz Fernando; Repinaldo, Marilia; Torres, Rodrigo Augusto; Scofield, Vinicius; Santos, Roberta Aguiar dos; Boos, Harry (2023). «Aratus pisonii (H. Milne-Edwards, 1837)». Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). doi:10.37002/salve.ficha.14557.2. Consultado em 24 de maio de 2025. Cópia arquivada em 29 de abril de 2025 
  20. a b Erickson, Amy A.; Feller, Ilka C.; Paul, Valerie J.; Kwiatkowski, Lisa M.; Lee, Woody (2008). «Selection of an omnivorous diet by the mangrove tree crab Aratus pisonii in laboratory experiments» (PDF). Journal of Sea Research. 59 (1–2): 59–69. Bibcode:2008JSR....59...59E. doi:10.1016/j.seares.2007.06.007. Arquivado do original (PDF) em 24 de dezembro de 2013 
  21. Melo, L. (1996). «Reproductive patterns of Aratus pisonii (Decapoda: Grapsidae) from an estuarine area of São Paulo Northern Coast, Brazil» (PDF). Revista de Biología Tropical. 44 (2): 397–404 
  22. de Arruda Leme, Maria Helena; Negreiros-Fransozo, Maria Luciao (1998). «Reproductive patterns of Aratus pisonii (Decapoda: Grapsidae) from an estuarine area of São Paulo Northern Coast, Brazil». Revista de Biología Tropical. 46 (3): 673–678. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2024 
  23. Zhang, Y.; Alvarez, A. F.; Cabrera, A. (2022). «Pathology and genetic connectedness of the mangrove crab (Aratus pisonii) symbionts» (PDF). Animal Diseases. doi:10.1186/s44149-022-00039-7 
  24. «Aratus pisonii (Milne-Edwards, 1837)». Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Consultado em 11 de maio de 2025. Cópia arquivada em 11 de maio de 2025 
  25. «Texto publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro contendo a listagem das 257 espécies» (PDF). Rio de Janeiro: Governo do Estado do Rio de Janeiro. 2018. Consultado em 2 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 2 de maio de 2022