Aqua Tofana

Aqua Tofana (em português: Água Tofana), também conhecida como Acqua Toffana, Aqua Tufania ou Manna di San Nicola, era um veneno forte à base de arsénico, criado na Sicília por volta de 1630,[1] que teria sido amplamente utilizado em Palermo, Nápoles,[2] Perugia e Roma, Itália, durante o Renascimento. O nome Aqua Tofana evoluiu para se referir a uma categoria de venenos de ação lenta, incrivelmente mortais, mas em grande parte indetectáveis, assim como a Aqua Tofana. Esses venenos de ação lenta podem ter sido usados frequentemente ao longo do século XIX.[3] Ela foi associada a Giulia Tofana, ou Tofania, uma mulher de Palermo, supostamente líder de uma quadrilha de seis envenenadores em Roma, que vendia Aqua Tofana para mulheres italianas que queriam matar seus maridos.
História
A primeira menção registrada da Aqua Tofana data de 1632–33[4][1] quando foi usada por duas mulheres, Francesca la Sarda e Teofania di Adamo, para envenenar os seus maridos abusivos. Pode ter sido inventada por Teofania, que também recebeu o nome dela.[1] Ela foi executada por seus crimes, mas várias mulheres associadas a ela, incluindo Giulia Tofana (que pode ter sido sua filha) e Gironima Spana, mudaram-se para Roma e continuaram a fabricar e distribuir o veneno.[1] Uma vez em Roma, as mulheres podem ter adquirido o ingrediente principal, o arsénico, do Padre Girolamo de Sant'Agnese in Agone. O Padre Girolamo tinha acesso a esse veneno por meio do seu irmão, que era boticário.
As mulheres que viviam durante o Renascimento italiano recorriam desesperadamente a Giulia Tofana, sentindo que o assassinato era a sua única saída para casamentos abusivos. Elas eram consideradas propriedade do chefe da família, seja o pai ou o marido, e, portanto, o divórcio não era uma opção na época.[5]
A Aqua Tofana era camuflada em frascos rotulados como "Manna di San Nicola" ("Maná de São Nicolau de Bari"), um artifício de marketing destinado a despistar as autoridades, dando ao veneno a aparência de um cosmético e de um objeto devocional em frascos que incluíam uma imagem de São Nicolau. Dizia-se que este óleo era extraído dos ossos de São Nicolau em uma igreja localizada em Bari, Itália.[3] Alega-se que mais de 600 vítimas[2] morreram por causa deste veneno, principalmente maridos.
Giulia Tofana morreu sem ser descoberta; no entanto, os seus cúmplices foram eventualmente presos e punidos pelos seus crimes. Não está claro como os seus planos foram revelados, porém existem algumas teorias. A primeira teoria é que uma cliente confessou a um padre que planeava matar o marido usando Aqua Tofana e, em troca de uma confissão à polícia, recebeu imunidade. Outros teorizam que a polícia pode ter prendido um mensageiro que distribuía o veneno e, por meio desse indivíduo, conseguiu chegar às outras mulheres envolvidas na operação. Em 1659, cinco das mulheres envolvidas no negócio da Aqua Tofana foram enforcadas publicamente, enquanto quarenta de seus clientes foram presos perpétuos.[5]
Entre 1666 e 1676, a Marquesa de Brinvilliers envenenou o seu pai e dois irmãos, entre outros, e foi executada em 16 de julho de 1676.[6]
Ingredientes
Os ingredientes ativos da mistura são conhecidos, mas não se sabe como foram combinados. A Aqua Tofana continha principalmente arsénico e chumbo, e possivelmente beladona. A beladona é uma flor que era comumente usada em cosméticos na época para dilatar as pupilas. Era um líquido incolor e insípido e, portanto, facilmente misturado com água ou vinho para ser servido durante as refeições. Suas propriedades insípidas indicam que foi feita com uma tentativa deliberada de esconder o forte gosto metálico do arsénico.[3]
Sintomas
O envenenamento por Aqua Tofana podia passar despercebido e era tão letal que tinha a capacidade de matar as suas vítimas com apenas 4 gotas. É de ação lenta, com sintomas que se assemelham a doenças progressivas ou outras causas naturais, similares aos efeitos do envenenamento por arsénico. Aqueles envenenados por Aqua Tofana relataram vários sintomas. A primeira pequena dose produzia sintomas semelhantes aos de um resfriado, que se intensificavam para sintomas semelhantes aos da gripe na segunda dose. A vítima ficava muito doente na terceira dose; os sintomas incluíam vómitos, desidratação, diarreia e uma sensação de queimação na garganta e no estômago. A quarta dose matava a vítima. Como era de ação lenta, permitia que as vítimas tivessem tempo para se preparar para a morte, incluindo fazer um testamento e se arrepender. O antídoto frequentemente administrado era vinagre e sumo de limão.[7][3]
Lenda sobre Mozart
A lenda de que Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791) foi envenenado com Aqua Tofana[8] é completamente infundada, embora tenha sido o próprio Mozart quem iniciou este rumor.[9]
Impactos sociais contemporâneos
Quase 400 anos depois, a Aqua Tofana está ressurgindo como um símbolo importante no discurso feminista. Inspiradas pelo movimento feminista 4B da Coreia do Sul, mulheres nos Estados Unidos criaram o slôgane MATGA (Make Aqua Tofana Great Again - Torne a Aqua Tofana Grande Novamente), fazendo referência tanto ao slôgane MAGA de Donald Trump quanto ao veneno de Giulia Tofana. Esse movimento surgiu da preocupação de que a vitória presidencial de Trump colocasse em risco os direitos reprodutivos. É também uma retaliação direta à frase misógina "Your body, my choice." ("Seu corpo, minhas regras."), repetida após a vitória de Trump.[10] Mulheres estão participando dessa tendência nas redes sociais postando vídeos fingindo preparar Aqua Tofana e adicionando a mistura falsa às bebidas dos homens.[11] Uma mulher viralizou com um vídeo em que abre uma joia com um compartimento, revelando-a para a câmera com um sorriso malicioso, e legendou o vídeo dizendo que as mulheres americanas entenderiam sua referência à Aqua Tofana e que "eles", referindo-se a Donald Trump e seus apoiadores, pediram por isso.[12]
Referências
- ↑ a b c d Wexler, Philip (2017). Toxicology in the Middle Ages and Renaissance (em inglês). [S.l.]: Elsevier Science. pp. 63–64. ISBN 9780128095546
- ↑ a b Stuart, David C. (2004). Dangerous Garden (em inglês). [S.l.]: Harvard University Press. ISBN 9780674011045
- ↑ a b c d Dash, Mike (Janeiro de 2017). «Aqua Tofana». Toxicology in the Middle Ages and Renaissance (em inglês). [S.l.]: Academic Press. pp. 63–69. doi:10.1016/B978-0-12-809554-6.00006-8. Consultado em 21 de fevereiro de 2025
- ↑ Dash, Mike. «Aqua Tofana». Academia.edu (em inglês). Consultado em 24 de fevereiro de 2017
- ↑ a b Winstanley, Lila (3 de março de 2024). «Aqua Tofana: Bottled Revenge of the 17th Century Wife». Retrospect Journal (em inglês). Consultado em 6 de março de 2025
- ↑ Vincent, Benjamin (1863). Dictionary of Dates (em inglês). Londres: Edward Moxon & Co.
- ↑ Dash, Mike (6 de abril de 2015). «Aqua Tofana: slow-poisoning and husband-killing in 17th century Italy». A Blast From The Past (em inglês). Consultado em 30 de janeiro de 2026
- ↑ Chorley, Henry Fothergill (1854). Modern German Music: Recollections and Criticisms (em inglês). Londres: Smith, Elder & Co. p. 193
- ↑ Robbins Landon, H. C. (1988). 1791: Mozart's Last Year. Nova Iorque: Schirmer Books. p. 148 e ss.
- ↑ «MATGA movement: Furious over Donald Trump's win, women start a deadly trend on social media». CNBC TV18 (em inglês). 11 de novembro de 2024. Consultado em 30 de janeiro de 2026
- ↑ «'Your body, our choice' : Deadly 'MATGA' Movement emerges in US. All about women's new trend after Trump's victory». The Economic Times (em inglês). 13 de novembro de 2024. ISSN 0013-0389. Consultado em 30 de janeiro de 2026
- ↑ «Aqua Tofana MATGA vs Donald Trump MAGA explained: Viral US trend backs serial killer Giulia to battle POTUS 47; 'men should die for...'». The Week (em inglês). Consultado em 30 de janeiro de 2026