António Telo de Menezes
D. António Telo de Menezes (c. 1595–1600 – depois de 1641), conhecido como D. António Telo, foi um nobre português, oficial naval e comandante militar. Foi um dos Quarenta Conjurados que participaram no golpe de 1 de dezembro de 1640, que restaurou a independência de Portugal e colocou D. João IV no trono.
Vida e família
D. António Telo nasceu por volta de 1595–1600 em Alverca do Ribatejo, filho de D. Francisco Telo de Menezes, governador de São Tomé e Príncipe, e de D. Bernarda de Almeida, filha herdeira. O seu irmão mais velho foi o morgado D. João Telo de Menezes, com geração extinta nos netos. Era também sobrinho-neto do D. João Telo de Menezes, Senhor de Aveiras pertencente à Casa dos Marqueses de Vagos, e pela mãe da família dos Vogados de Alverca e administradores do morgadio com capela no Adarce.
Carreira
Em 1615, D. António Telo de Menezes serviu como capitão de uma armada composta por quatro naus, na armada do enquanto o Capitão-Mor D. Jerónimo Manuel. Durante a viagem de Madrid a Lisboa e depois para a Índia, D. António Telo utilizou uma caravela para alcançar as naus que haviam partido antes, embarcando a tempo na sua nau e regressando depois ao Reino por terra acompanhado do capitão Manuel do Prado.
Em 1623, foi nomeado Capitão-Mor de uma armada de três naus, enfrentando uma tempestade no Cabo da Boa Esperança que causou grandes perdas. A nau capitânia da São Francisco Xavier naufragou perto de Lisboa, salvando-se apenas parte da tripulação e alguma carga.
Posteriormente, comandou armadas compostas por 3 naus, 3 galeões e 2 patachos. Durante uma destas viagens, a nau capitânia encalhou à entrada de Moçambique, tendo o mastro cortado, sendo reparada e invernando no local. Em Maio seguiu para Goa e regressou ao Reino, mas perdeu-se na barra de Lisboa, salvando-se apenas a tripulação.
Em 1640 servia como mestre de Campo de um Terço na Provincia da Beira, como relatado pelo Pe. Maia de Azevedo. Após a restauração, foi nomeado Mestre de Campo General do Alentejo e tornou-se membro do Conselho de Estado e do Conselho de Guerra.
Papel na Restauração
Em 1 de dezembro de 1640, António Telo integrou o grupo conhecido como os Quarenta Conjurados, que depuseram funcionários espanhóis e proclamaram D. João IV de Portugal. É tradicionalmente lembrado por ter disparado o primeiro tiro contra Miguel de Vasconcelos, o impopular secretário de Estado leal à Espanha.
Fontes publicadas já em 1641 — a chamada Relação de tudo o que se passou na feliz aclamação do Rei D. João IV (impressa em Lisboa em 1641) — descrevem o assalto ao Paço, a defenestração e morte de Miguel de Vasconcelos e nomeiam explicitamente António Tello entre os fidalgos que entraram na Secretaria. Segundo essa Relação, D. António Tello foi quem disparou e feriu primeiros adversários na Secretaria e quem entrou na Sala, tendo ainda golpeado o oficial António Correia e ferido o Capitão Diogo Garcez Palha; noutras passagens do relato é descrito como tendo disparado o primeiro tiro contra Miguel de Vasconcelos ou como o primeiro homem a feri-lo — as formulações variam consoante a edição/versão do relato, mas a Relação contemporânea o identifica de forma destacada como actor principal na ação.
Os registos após 1641 são escassos. António Telo é lembrado como um patriota da Restauração. Segundo o relato do Pe. Maia de Azevedo, na Felice Aclamação do mui Alto & mui Poderoso Rei D. João IV (1641), D. António Telo participou activamente no golpe:
“D. António Tello (como havia dado sua palavra de despedaçar o coração do Tirano) em cujo peito se havia de abrir a porta à liberdade de Portugal, estava na galeria que vai para o forte, esperando que se começasse a batalha para dar sobre o inimigo (…)”
E ainda:
“D. António Tello, com uma faca de conchas, que levava na mão esquerda, lhe deu muitas feridas [a Miguel de Vasconcelos], com as quais caiu logo no chão quase morto (…)”
Desta forma, Telo foi o primeiro a ferir mortalmente Miguel de Vasconcelos, secretário do então vice-rei Filipe III de Portugal, acto decisivo para o sucesso do golpe. O papel de D. António Telo foi determinante não só na execução do golpe, mas também na mobilização do povo e da nobreza. Segundo a mesma Relação:
“Passaram adiante estes deliberados Senhores, e à porta da Secretaria encontraram ao Oficial maior António Correia (…) todos o apertaram de maneira que se retirou apressado (…)”
Após a morte de Vasconcelos, os fidalgos e a população reuniram-se nas ruas de Lisboa, libertando presos e proclamando D. João IV como rei, acto considerado o início da Restauração da Independência de Portugal:
“Entraram no Paço todos com grandíssima alegria, e logo elegidos pelo Clero, pela nobreza, e pelo povo, em nome del-Rei Nosso Senhor como seus governadores, tomaram posse da Cadeira Real, o Senhor Arcebispo de Lisboa, o Presidente da Câmara, e o Presidente do Paço.”
Legado
D. António Telo de Menezes é lembrado como uma figura-chave da Restauração, tanto pela coragem demonstrada no combate inicial como pela acção decisiva que permitiu a aclamação de D. João IV. A sua acção é celebrada na historiografia portuguesa como exemplo de lealdade à pátria e determinação política.
Leituras adicionais
- [A Restauração de 1640 e o Estado da Índia](https://core.ac.uk/download/pdf/157624280.pdf) – JMM Ferreira
- [Relação de tudo o que se passou na felice aclamação do mui Alto & mui Poderoso Rei Dom João IV](https://purl.pt/35054) – Edição crítica por Evelina Verdelho
- [Fidalgos Portugueses que integraram a Armada da Índia](https://www.familysearch.org/en/memories/memory/17212862)
- [Relação de tudo o que se passou na felice aclamação do mui Alto & mui Poderoso Rei Dom João IV (1641)](https://purl.pt/35054)
- [História da feliz aclamação do Senhor Rei D. João o Quarto (1803)](https://books.google.com/books?id=XXXXXXX)
- Relação de tudo o que se passou na felice aclamação do mui Alto & mui Poderoso Rei D. João IV. — edição original impressa em Lisboa, por Lourenço de Anveres, 1641. (A Relação está reproduzida na edição de Roque Ferreira Lobo; o texto de 1641 é a base primária do relato do dia da Restauração).
- Roque Ferreira Lobo (ed.), Historia da feliz acclamação do senhor rei D. João o Quarto — edição que reproduz a Relação de 1641; impressão atribuída a Officina Simão Thaddeo Ferreira, Lisboa, 1803
Referências
- ↑ Frederick Charles Danvers, The Portuguese in India: A.D. 1571–1894, Londres, 1894.
- ↑ Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Vol. 1, Lisboa, 1874.
- ↑ Arquivo Histórico Ultramarino, referência PT/AHU/CU/146-001/0042/12153.
- ↑ Gregório de Almeida, Restauração de Portugal Prodigiosa, Lisboa, 1643.
- ↑ O Jardim Litterario, Volumes 5–6, 1849.