António Paulouro
| António Paulouro | |
|---|---|
| Nome completo | António Maria Paulouro |
| Nascimento | 3 de maio de 1915, Fundão, Castelo Branco, Portugal |
| Morte | 29 de agosto de 2002 (87 anos), Fundão, Castelo Branco, Portugal |
| Residência | Fundão, Castelo Branco, Portugal ![]() |
| Nacionalidade | Portuguesa |
| Ocupação | Jornalista, escritor e político português |
António Maria Paulouro (Fundão, 3 de maio de 1915 –Fundão, 29 de agosto de 2002) foi um jornalista, escritor e político português que fundou e dirigiu o Jornal do Fundão, um periódico regional criado nos finais de janeiro de 1946, durante o regime político do Estado Novo. [1]
Embora seja conhecido pelo jornal que produziu, Paulouro também desempenhou o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal do Fundão, entre 1951 e 1958, e foi militante do Partido Socialista, sendo, mais tarde, eleito pelo Partido Renovador Democrático, como deputado pelo círculo de Castelo Branco. [2]
O Jornal do Fundão foi visto como um porta-voz dos interesses da cidade, mas também como um espaço de promoção da cultura, contando, na sua colaboração, com alguns dos maiores nomes da escrita portuguesa do século XX, como José Saramago, Alexandre O’ Neill e Eugénio de Andrade. Arquitetado como um projeto politicamente independente que prometia entregar a verdade jornalística, o Jornal do Fundão foi suspenso pela Direção dos Serviços de Censura, entre maio e novembro de 1965, por desafiar a opressão política do salazarismo.[1][2]
Vida
Início de vida e educação
Nascido a 3 de maio de 1915, no Fundão, António Paulouro ficou órfão de mãe, Filomena Augusta Lindeza, doméstica, aos cinco anos. A família de três crianças ficou entregue ao pai, José Júlio Paulouro, e vivia na Rua Agostinho Fevereiro com vista para a Praça Velha. [3][4]
A 5 de março de 1916, foi batizado na Igreja de São Martinho, igreja matriz do Fundão, e, posteriormente, iniciou a instrução primária numa escola fundanense da Praça Velha. Com 11 anos, trabalhou como paquete da secretaria judicial, função que permitiu o seu primeiro contacto com a leitura e que, por sua vez, incentivou a vontade de escrever. Em 1929, entrou num grupo de escuteiros e decidiu, já com 14 anos, tornar-se um grande ativista e partidário da ditadura salazarista.[3][4]
Família e primeiros passos profissionais
A 3 de fevereiro de 1934, foi admitido como empregado de escritório da Federação Nacional de Produtores de Trigo, trabalho que manteve até dezembro de 1938.[3]
Mais tarde, em 1946, investindo uma pequena fortuna de 34 mil contos obtida no pós-guerra através de um negócio de minas de volfrâmio da Argemela, criou o Jornal do Fundão. Passado um ano, casou-se com Maria Cândida Gil Galvão da Fonseca e, com ela, teve 2 filhas, Maria Teresa Paulouro, nascida a 12 de outubro de 1947, e Maria José Paulouro, nascida a 19 de novembro de 1948. [3][4]
Com 87 anos, faleceu, vítima de um acidente vascular cerebral, no dia 29 de agosto de 2002.[5]
Carreira
António Paulouro iniciou o seu percurso profissional ainda jovem, trabalhando como paquete na secretaria judicial do Fundão e colaborando com o pequeno jornal local Gardunha. A partir da década de 1930, envolveu-se em atividades políticas locais, num período marcado pela consolidação do Estado Novo. O seu interesse pela vida pública levou-o a colaborar com figuras influentes da região, o que viria a contribuir para a fundação do Jornal do Fundão, em 26 de janeiro de 1946. Desde a primeira edição, o semanário adotou uma linha de trabalho centrada nos assuntos da comunidade, que se manteve durante a direção de Paulouro: «No nosso posto estaremos ao lado dos que trabalham e dos que sofrem, em fraterna compreensão que não é de hoje, mas de sempre.» (Jornal do Fundão, 1946, 1ª edição, editorial Rumo.) [2][3][4]
Embora inicialmente tivesse alguma proximidade do regime, António Paulouro passou a defender o trabalho independente do jornal, originando um conflito com a censura.[6]
Em 1951, foi nomeado vice-presidente da Câmara Municipal do Fundão, cargo ao qual renunciou em novembro de 1958, após desentendimentos políticos.[1]
Em 1960, fundou a revista Arco-Íris, de curta duração, cujo grupo de redatores viria a ser detido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).[1]
Durante a década de 1960, o Jornal do Fundão ganhou reconhecimento por expor acontecimentos ocultados pelos meios de comunicação, controlados pelo Estado Novo. Em 1963, o jornal deu destaque à visita do ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek à Beira Baixa, especialmente ao Fundão, no dia 12 de janeiro. Dois anos mais tarde, em 1965, noticiou a atribuição do Grande Prémio da Novela da Sociedade Portuguesa de Autores, ao escritor angolano Luandino Vieira, então detido no Tarrafal, acusado de atividades contra o regime. A publicação desta informação levou à suspensão do jornal, a 26 de maio, durante seis meses pelos serviços de censura.[2][3][7]
Além da atividade jornalística, Paulouro promoveu iniciativas culturais a nível nacional. Em 1972, organizou o Encontro Nacional do Teatro.[1]
Após o 25 de Abril, participou na criação da revista luso-espanhola Nova, em colaboração com Herberto Hélder e António Sena.[1]
Nos anos seguintes, dinamizou encontros e jornadas dedicadas à Beira Interior, como o Encontro de Emigrantes de 1977, em Santa Luzia, que contou com a presença do Presidente da República, o General Ramalho Eanes, e as Jornadas da Beira Interior de 1984, 1986 e 1990.[1][3]
No cenário político, Paulouro fez parte de listas eleitorais após a transição democrática e foi um dos fundadores do Partido Socialista. Foi deputado por Castelo Branco entre 1986 e 1987, eleito pelo Partido Renovador Nacional.[1][2][3]
Obra

Jornal do Fundão
«Dizem que eu fiz um jornal, eu digo que foi o jornal que me fez a mim.»[2]
Fundado em 1946, por António Paulouro, numa época onde o Estado Novo dominava, o Jornal do Fundão ficou conhecido por denunciar injustiças, apoiar os trabalhadores e defender a educação, tornando-se assim o semanário mais lido das Beiras. O periódico começou com uma tiragem de dois mil exemplares, mas, em 1949, já compilava cerca de 9 mil.[3][5][8]
Revista Arco-Íris
Em 1960, António Paulouro fundou e dirigiu a revista Arco-Íris, uma publicação generalista de pequeno formato, que reuniu poesia, divulgações, anedotas e curiosidades. Sediada em Lisboa, o chefe da redação era o escritor Mário Henrique-Leiria, tendo como editor Álvaro Fernandes Marques, e como ilustradores António Domingues, Infante do Carmo e Luís Demée. Alguns autores como José Cardoso Pires, Maria Judite de Carvalho e Joel Serrão atuaram como colaboradores. A revista publicou cinco edições, entre abril e agosto do ano da sua criação, sendo extinta após a PIDE ter detido três dos seus redatores.[1][9]
Revista luso-espanhola Nova
No ano de 1976, António Paulouro, em colaboração com Herberto Helder e António Sena, criou a revista luso-espanhola Nova, na qual foi fundador e diretor. A revista reuniu colaboradores e delegados internacionais, entre eles Jorge de Sena nos Estados Unidos, e Vicente Aleixandre em Espanha. Apesar de terem sido publicados apenas dois números, o periódico assumiu-se como um importante projeto numa fase pós-25 de abril, de renovação intelectual.[10][11]
Jornadas da Beira Interior
Foi em 1984 que Paulouro organizou, no Fundão, as primeiras Jornadas da Beira Interior, iniciativa para debater os problemas estruturais da região. Nesse encontro reuniram-se cerca de 500 participantes, onde se juntou Ramalho Eanes, na altura, Presidente da República. Estas reuniões resultaram na divulgação de três volumes, que contam com a contribuição de variados autores, entre os quais Fernando Paulouro Neves, sobrinho do jornalista, e Américo Dias Oliveira.[1]
Crónica das Águas que Passam (História Regadio Cova da Beira)
Divulgada em 1991, pelo Jornal do Fundão, a obra Crónica das Águas que Passam agrupa textos coordenados por António Paulouro sobre a história e a evolução do Regadio da Cova da Beira. Com cerca de 360 páginas, esta crónica inclui testemunhos de engenheiros e agricultores, tornando-se importante para o estudo agrícola e hidráulico da região.[12]
Prémios e homenagens
Ao longo da sua carreira, António Paulouro recebeu inúmeros prémios e distinções nas áreas do jornalismo, literatura e envolvimento cívico, sendo eles:
1985: Condecorado com a Ordem da Liberdade.[1]
1986: Homenageado, pela Universidade Pontifícia de Salamanca, com uma placa de prata. Além disso, o Jornal do Fundão é distinguido pela Ordem do Infante D. Henrique.[1][3]- 1990: Homenageado com uma medalha de prata, atribuída pela Câmara Municipal da Covilhã.[3]
- 1993: Homenageado, pela Câmara Municipal do Fundão, com uma medalha de ouro.[3]
- 2003: Criação do Prémio Literário António Paulouro pela Câmara Municipal do Fundão.[3]
- 2005: Inauguração da rua António Paulouro, no Fundão.[3]
- 2011: Estátua, em granito, erguida em sua honra. Obra inaugurada na cidade do Fundão, perpetuando a sua memória e legado na terra natal.[3][2]
- 2016: Homenageado no NewsMuseum, em Sintra.[2]
Legado
A memória do jornalista também permanece viva no jornal que fundou. Após a morte de António Paulouro, a direção e chefia da redação do Jornal do Fundão coube ao seu sobrinho, Fernando Paulouro Neves, sob a administração da filha, Maria José Paulouro. [13]
Porém, em abril de 2018, a família Paulouro vendeu a sua participação total ao Global Media, despedindo-se do jornal. Em 1998, António Paulouro já tinha vendido metade do Jornal do Fundão à, então, Lusomundo. Estas alterações na administração motivaram a saída de Fernando Paulouro do jornal, em 2012. No entanto, foi somente em 2018 que a família deixou de ter responsabilidades pelos destinos do periódico. [14][15]
Esta mudança foi anunciada na primeira página do jornal de 19 de abril, no mesmo espaço que António Paulouro escolheu, em 1946, apresentar o seu projeto, sob o título de «Fim de Ciclo». Por fim, em agosto de 2018, um grupo de jornalistas e docentes universitários comprou o Jornal do Fundão à Global Media Group.[15] [16]
Ver também
Ligações externas
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l Sindicato dos Jornalistas (29 de agosto de 2002). «Na morte de António Paulouro». Consultado em 25 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e f g h News Museum (2021). «António Paulouro». Consultado em 7 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o Saraiva, A. (2015). António Paulouro: Homem de palavra, homem de ação, homem de bem. Porto: In-Libris
- ↑ a b c d Melo, A. (30 de agosto de 2002). «António Paulouro: o jornalista e o seu jornal». Público. Consultado em 25 de outubro de 2025
- ↑ a b Capeia Arraiana (29 de agosto de 2023). «Cultura em Pessoa (4) – António Paulouro». Consultado em 23 de novembro de 2025
- ↑ Franco, C. (6 de fevereiro de 2021). «Jornal do Fundão: onde o jornalismo é um exercício de liberdade há 75 anos». Gerador. Consultado em 5 de novembro de 2025
- ↑ Barata, C. F. (4 de outubro de 2021). «A ação da Censura durante o Estado Novo: O caso do Jornal do Fundão». uBibliorum. Consultado em 14 de novembro de 2025
- ↑ Costa, M. «Jornal do Fundão: O Sonho e as Causas». RTP Ensina. Consultado em 17 de novembro de 2025
- ↑ Brás, G. (29 de agosto de 2002). «Faleceu António Paulouro». Público. Consultado em 18 de novembro de 2025
- ↑ Ruas com história (3 de maio de 2017). «No dia em que passam 102 anos sobre o nascimento de António Paulouro, Jornalista e fundador do Jornal do Fundão, ainda hoje uma referência no jornalismo regional, aqui fica esta pequena homenagem.». Consultado em 19 de novembro de 2025
- ↑ Capeia Arraiana (7 de novembro de 2015). «Efemérides 2015 – 7 de Novembro». Consultado em 17 de novembro de 2025
- ↑ Santos, J. H. (5 de abril de 2022). «Regadio – Uma oportunidade na Cova da Beira». Correio de Caria. Consultado em 19 de novembro de 2025
- ↑ Paixão, P. (22 de abril de 2018). «Família Paulouro despede-se do "Jornal do Fundão"». Expresso. Consultado em 18 de novembro de 2025
- ↑ Ribeiro, N. (20 de abril de 2018). «Família Paulouro sai do Jornal do Fundão». Público. Consultado em 18 de novembro de 2025
- ↑ a b Furtado, J. (1 de maio de 2018). «Media: Família Paulouro deixa Jornal do Fundão». Reconquista. Consultado em 19 de novembro de 2025
- ↑ Henriques, A. (23 de agosto de 2018). «Jornalistas compram Jornal do Fundão à Global Media». Público. Consultado em 27 de novembro de 2025
