António Borges Coelho

António Borges Coelho
António Borges Coelho
Nascimento
Morte
17 de outubro de 2025 (97 anos)

PrémiosPrémio Universidade de Lisboa (2018)
Género literárioHistória, poesia, teatro
Magnum opusRoseira Verde (1962)

António Borges Coelho GCSEGCL (Murça, 7 de outubro de 1928Carcavelos e Parede, Cascais, 17 de outubro de 2025) foi um historiador, poeta e teatrólogo português.[1][2] Catedrático de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dedicou-se ao estudo dos períodos medieval e moderno.[3]

Biografia

Natural de Murça, António Borges Coelho concluiu os estudos elementares na sua terra natal em 1940. Ingressou de seguida no seminário franciscano de Montariol, em Braga, onde permaneceu até 1945, ano em que foi expulso. Concluiu os estudos liceais em Vila Real, em setembro de 1948, e mudou-se para Lisboa no mês seguinte, onde se inscreveu na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Posteriormente, no ano letivo de 1949-50, matriculou-se no curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras.[4]

Dedicou-se desde cedo à oposição ao regime do Estado Novo, integrando o Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUDJ). Em 1957, tornou-se funcionário do Partido Comunista Português, organização a que permaneceu ligado até 1991, ano em que se desfiliou na sequência da dissolução da União Soviética.[4] No mesmo ano de 1957, foi detido pela PIDE por atividade política oposicionista e sujeito a prisão política, tendo estado encarcerado na Prisão do Aljube e, posteriormente, no Forte de Peniche, onde permaneceu até 1966.[5]

O percurso académico de António Borges Coelho desenvolveu-se sobretudo após a Revolução de 25 de Abril de 1974. Iniciou a docência universitária nesse contexto, tendo lecionado disciplinas de História Medieval e Moderna. Doutorou-se em História em 1978, com uma tese dedicada à Revolução de 1383–1385, prosseguindo uma carreira académica regular na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Obteve a agregação em 1991 e foi nomeado professor catedrático em 1993, vindo a jubilar-se em 1998. Paralelamente à atividade docente, esteve ligado a unidades de investigação em História, nomeadamente ao Centro de História da Universidade de Lisboa, no quadro da reorganização da investigação histórica universitária no período pós-revolucionário.[4]

Foi um historiador interveniente mas também jornalista n'A Capital e no Diário de Lisboa. Foi diretor da revista História e Sociedade (1978-1981) antes de se tornar o primeiro diretor do Le Monde diplomatique (edição portuguesa), cargo que exerceu de abril de 1999 a janeiro de 2005.

A 9 de junho de 1999, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. A 27 de novembro de 2018, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.[6] [7]

Morreu, vítima de pneumonia, a 17 de outubro de 2025, no lar da Associação de Solidariedade Social dos Professores, em Carcavelos, freguesia de Carcavelos e Parede, no concelho de Cascais, depois de também ter contraído o vírus da covid-19.[8]

Formação intelectual e contexto historiográfico

A formação intelectual de António Borges Coelho desenvolveu-se em grande medida fora dos percursos académicos convencionais, em particular durante os anos de prisão política no Forte de Peniche, onde esteve detido entre 1962 e 1966. Neste contexto, organizou e participou num intenso trabalho coletivo de leitura, estudo e discussão historiográfica, em contacto com outros presos políticos, entre os quais Álvaro Cunhal.[4]

Entre os autores que marcaram decisivamente a sua formação contam-se cronistas e historiadores portugueses clássicos, como Fernão Lopes, Alexandre Herculano e Gama Barros, bem como historiadores estrangeiros ligados à História Económica e Social. Este percurso contribuiu para a definição de uma abordagem crítica da historiografia tradicional, centrada nas estruturas sociais, nos conflitos políticos e no papel das classes populares na história portuguesa.[4]

Investigação e contributos historiográficos

A obra historiográfica de António Borges Coelho caracteriza-se por uma forte coerência temática e interpretativa, centrada na análise das transformações sociais, económicas e políticas da sociedade portuguesa medieval e moderna. Um dos eixos centrais do seu trabalho foi o estudo da crise do século XIV e da Revolução de 1383–1385, que entendia como um momento decisivo de reconfiguração das estruturas de poder e das relações sociais.[4]

Em obras como A Revolução de 1383 (1965) e Raízes da Expansão Portuguesa (1964), Borges Coelho desenvolveu uma interpretação da expansão portuguesa articulada com a transição do feudalismo para formas sociais e económicas de tipo capitalista, dialogando criticamente com debates historiográficos internacionais sobre o desenvolvimento económico europeu. Outro campo fundamental da sua investigação foi o estudo do legado islâmico na História de Portugal. A obra Portugal na Espanha Árabe (1972–1975) contribuiu para a valorização da herança cultural, económica e científica do mundo islâmico na formação histórica portuguesa, contrariando leituras nacionalistas do passado.[4]

A partir da década de 1970, dedicou-se igualmente ao estudo das instituições políticas e repressivas do Antigo Regime, nomeadamente através da análise dos concelhos e da Inquisição. O seu trabalho sobre a Inquisição de Évora destacou a dimensão estrutural e social da repressão inquisitorial e as suas consequências culturais e económicas de longa duração.[4]

Receção crítica e legado

A obra e o percurso intelectual de António Borges Coelho têm sido objeto de reflexão historiográfica e cultural antes e depois do seu desaparecimento. O lugar singular de Borges Coelho na historiografia portuguesa tem sido salientado sublinhando a sua formação intelectual em contexto de repressão política, a coerência temática da sua obra e a sua articulação entre investigação histórica, compromisso cívico e reflexão crítica sobre o passado autoritário português.[9]

Obra

Pese embora o valor de seus estudos pioneiros sobre a inquisição portuguesa, a sua principal obra será, porventura, o Portugal na Espanha Árabe, coletânea de textos árabes sobre a ocupação muçulmana daquilo que viria a ser o território de Portugal.

Obras publicadas

  • Roseira Verde (1962)
  • Raízes da Expansão Portuguesa (1964)
  • O 25 de Abril e o Problema da Independência Portuguesa
  • A Revolução de 1383 (1965). A 5a. edição de 1984 tem uma longa introdução em que debate interpretações de outros historiadores, com destaque para o conceito de revolução.
  • Ponte Submersa (1969)
  • Portugal na Espanha Árabe (1972-1975)
  • Comunas ou Concelhos? (1973)
  • Fortaleza (1974)
  • No Mar Oceano (1981)
  • Questionar a História (1983)
  • A Inquisição em Évora (1987)
  • Os Nomes das Ruas (1993)
  • Ao Rés da Terra (poesia) (2002)
  • História de Portugal I - Donde Viemos (2010)
  • História de Portugal II - Portugal Medievo (2010)
  • História de Portugal III - Largada das Naus (2011)
  • História de Portugal IV - Na Esfera do Mundo (2013)
  • História de Portugal V - Os Filipes (2015)
  • História de Portugal VI - Da Restauração ao Ouro do Brasil (2017)
  • Comunas ou Concelhos (Caminho, 2019)
  • Senhores da Navegação, da Conquista e do Comércio (Caminho, 2019)
  • História e Oficiais da História (Caminho, 2021)
  • História de Portugal VII - Portugal na Europa das Luzes (2022)
  • Espinosa e Leibniz (Caminho, 2023)
  • Crónicas e Discursos (Caminho, 2024)
  • Os Lusíadas - Antologia Temática e Texto Crítico (Avante, 2024)
  • Poemas (Caminho, 2025)

Ver também

Historiador e Escritor Moçambicano.
Maestro Coral Português
Museu do Neo-Realismo
História de Portugal
Inquisição Portuguesa
Al-Andalus

Referências

  1. «Caminho - António Borges Coelho». www.caminho.leya.com 
  2. «António Borges Coelho | Wook». www.wook.pt 
  3. «Universidade de Coimbra - Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património - António Borges Coelho». www.uc.pt 
  4. a b c d e f g h João Madeira, «António Borges Coelho», Dicionário de Historiadores Portugueses, Biblioteca Nacional de Portugal. Disponível em: https://dichp.bnportugal.gov.pt/historiadores/historiadores_coelho.htm
  5. «António Borges Coelho (1928–2025)», Sindicato dos Professores do Norte (SPN), 17 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.spn.pt/Artigo/antonio-borges-coelho-1928-2025
  6. «Entidades Nacionais Agraciadas com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "António Borges Coelho". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 6 de janeiro de 2019 
  7. «Presidente da República envia condolências à família de António Borges Coelho». Presidência da República Portuguesa. 18 de outubro de 2025. Consultado em 5 de fevereiro de 2026 
  8. «António Borges Coelho (1928-2025), historiador e antifascista fundamental». www.publico.pt. Consultado em 17 de outubro de 2025 
  9. Sérgio Campos Matos, «Homenagem a António Borges Coelho», Le Monde diplomatique (edição portuguesa), II série, n.º 229, novembro de 2025, pp. 4–5.

Ligações externas


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[[Categoria:Historiadores medievais]]

[[Categoria:Professores da Universidade de Lisboa]]

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