Anna Ribeiro de Góes Bittencourt

Anna Ribeiro de Góes Bittencourt
Nascimento1843
Itapicuru
Morte1930 (86–87 anos)
Salvador
CidadaniaBrasil
Ocupaçãoescritora

Anna Ribeiro de Góes Bittencourt (Itapicuru, 31 de janeiro de 1843 - Salvador, 31 de dezembro de 1930) foi a primeira ficcionista e a primeira romancista baiana.[1]

Vida

Anna Ribeiro de Góes Bittencourt foi filha única de Ana Maria de Anunciação Ribeiro e de Matias de Araújo Góes. Mudou-se com sua família para Catu, no Recôncavo Baiano, com dois anos de idade.[2] Lá morou na Fazenda Mocambo. Pertencia a uma das famílias tradicionais da Bahia.[1]

Na infância, apresentou um problema de visão, posteriormente diagnosticado como consequência de uma conjuntivite mal curada, que só foi plenamente tratada quando tinha cerca de 20 anos. Essa condição contribuiu para que sua formação educacional fosse irregular, em contraste com a educação formal geralmente oferecida às meninas de sua condição social. Considera-se que a experiência de isolamento e solidão decorrente desse quadro tenha estimulado sua inclinação pelas letras.[1]

Após casar-se com Sócrates de Araújo Bittencourt, em 1865, mudou-se para Salvador, onde deu continuidade à sua formação intelectual e artística. Na capital baiana, aperfeiçoou seus estudos de francês, iniciou o aprendizado da língua italiana e retomou a prática de piano e canto. Também passou a integrar os circuitos culturais, aproximando-se de espaços de sociabilidade intelectual e de debates científicos em circulação na província. A participação de seu marido nesses ambientes - como a Faculdade de Medicina - favoreceu seu contato com práticas e discussões que ampliaram sua formação cultural.[2][1]

Em 1868, o casal retornou ao engenho de Api por causa doença do pai de Anna e pelas transformações que afetavam a economia rural da época, como a Abolição da escravidão. Somente em um momento posterior, com a reorganização da vida familiar, Anna voltou-se de modo mais consistente à produção literária.[2]

Bittencourt teve três filhos.[3] O primeiro deles, Pedro Ribeiro de Araújo Bittencourt, nasceu em 1886.[1]

Anna retorna para Salvador em 1907, após a morte de seu marido.[2]

Carreira literária

Em 1875, Anna Ribeiro iniciou sua carreira escrevendo versos parnasianos, muito apreciados na época. A partir de 1880, Bittencourt passou a colaborar com diversos periódicos, entre os quais a Gazeta de Notícias da Bahia, jornal diário de Salvador, A Verdade, que circulava em Alagoinhas, e o Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, editado em Lisboa.[1]

A produção literária de Bittencourt é diversificada e pode ser agrupada em romances de temática religiosa e romances de caráter profano. Os romances sagrados seriam A filha de Jephté (1882) e Abigail (1921), enquanto sua ficção profana seriam as obras O anjo do perdão (1885), Helena (1901), Lúcia (1903), Letícia (1908) e Suzana, este último inédito. [1]

Publicado em 1882, A filha de Jephté baseia-se em um episódio do Antigo Testamento e retoma a narrativa bíblica do juiz israelita Jefté, vencedor dos amonitas, que, para cumprir uma promessa feita a Deus, se vê obrigado a sacrificar a própria filha. O romance dialoga diretamente com a tragédia homônima de Jean Racine.[4]

O anjo do perdão foi publicado em capítulos diários na Gazeta de Notícias da Bahia. Ambientado no Recôncavo Baiano, o romance retrata costumes, práticas sociais e relações familiares características da região no final do século XIX. O livro contou com o prefácio do Visconde de Taunay.[1]

Em Helena, a autora utiliza como pano de fundo a campanha militar da Independência da Bahia, articulando a narrativa ficcional a intrigas políticas e conflitos pessoais associados ao período.[1]

Abigail, inspirado na Sagrada Escritura, foi publicado em capítulos no Diário da Bahia e dialoga com temas morais e religiosos recorrentes na obra de Bittencourt.[1]

Em Suzana, escrito quando Bittencourt tinha quase oitenta anos de idade, a narrativa registra o declínio da economia rural dos engenhos, associado ao fim da escravidão e às dificuldades de adaptação à ausência de mão de obra cativa. O romance acompanha a trajetória de uma jovem que se transfere para a capital baiana, enquanto seu pai se torna funcionário público dependente das disputas partidárias da época, evidenciando as transformações sociais e econômicas do período.[1]

Letícia narra a trajetória da jovem homônima, filha de um próspero senhor de engenho do Recôncavo Baiano, que se envolve com Eurico Mendes, um advogado abolicionista do Rio de Janeiro. Órfã de mãe desde a adolescência, a personagem é apresentada com traços de docilidade e refinamento. O romance propõe modelos de conduta moral e social voltados especialmente às mulheres da elite baiana, situando essas expectativas no contexto das transformações provocadas pelo fim da escravidão no Brasil.[3]

De modo geral, em seus romances, Bittencourt defendia a necessidade de que as mulheres se instruíssem para além das chamadas prendas domésticas, enfatizando a educação intelectual feminina como elemento fundamental para a sua formação moral e social.[1]

Incentivada pela neta Anna Mariani, Bittencourt elaborou o livro de memórias Longos serões do campo, no qual relata acontecimentos históricos relevantes para a Bahia e atribui à literatura um papel central na transmissão de conhecimentos entre gerações. A obra foi datilografada após sua morte e permaneceu sob a guarda do neto Clemente Mariani, que chegou a planejar sua publicação na década de 1970, sem êxito. O manuscrito foi publicado em 1992, por iniciativa da bisneta Maria Clara Mariani Bittencourt, por ocasião do cinquentenário da morte de Anna Bittencourt.[1]

Obras

  • A filha de Jephté (1882)
  • O anjo do perdão (1885) – folhetim publicado na Gazeta de Notícias da Bahia
  • Helena (1901) – folhetim publicado no Jornal de Noticias da Bahia
  • Lúcia (1903)
  • Letícia (1908)
  • Suzana (s.d.) – manuscrito inédito
  • Abigail (1921) – folhetim publicado no Diário da Bahia
  • Os longos serões do campo (1992) – obra póstuma, em dois volumes

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m Maria Inês de Moraes Marreco (1 de janeiro de 2012). «Anna Ribeiro de Góes Bittencourt: a atuação marcante de uma escritora oitocentista» (PDF). IEG - Instituto de Estudos de Gênero. Anna Ribeiro de Góes Bittencourt: a atuação marcante de uma escritora oitocentista. 10. Consultado em 9 de outubro de 2025 
  2. a b c d FONTES, Nancy Rita Vieira; ALVES, Ívia (1999). «Ana Ribeiro». In: MUZART, Zahidé Lupinacci. Escritoras Brasileiras do Século XIX. 1. Ilha de Santa Catarina: Mulheres 
  3. a b Oliveira, Marcelo Souza (15 de dezembro de 2008). «FIOS LITERÁRIOS NA TEIA DA HISTÓRIA: paternalismo, escravidão e pós-abolição num romance de Anna Ribeiro». Outros Tempos: Pesquisa em Foco - História (6). ISSN 1808-8031. doi:10.18817/ot.v5i6.204. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  4. Coelho, Nelly Novaes (2002). Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001. São Paulo: Escrituras. ISBN 978-85-7531-053-3