Anacársis
| Anacársis | |
|---|---|
![]() Retrato de Anacársis, gravura italiana do século XVIII baseada em uma antiga joia lapidada | |
| Nascimento | século VII a.C. Cítia |
| Morte | século VI a.C. Hilaia |
| Progenitores |
|
| Ocupação | filósofo, político |
| Religião | Religião cita |
Anacársis (em grego clássico: Ἀνάχαρσις; romaniz.: Anákharsis) foi um príncipe e filósofo cita de historicidade incerta[1] que, na época de Sólon (por volta de 600 a.C.),[2] teria empreendido uma viagem de descoberta pela Grécia. Apesar de sua origem bárbara, foi considerado um dos Sete Sábios e tido como um pré-socrático.
Biografia
O antigo autor grego Heródoto de Halicarnasso conta em suas Histórias[3] que Anacársis era irmão do rei cita Saulios, e ambos eram filhos do anterior rei cita, Gnuro.[2][1]. Possuía um caráter gentil e uma grande curiosidade intelectual — ao contrário de seu povo, sempre descrito pelos gregos como primitivo e hostil à cultura. Sua curiosidade o levou a empreender longas viagens, que o levaram também à Grécia. Estrabão o cita como o inventor da âncora de duas correntes, e frequentemente também se atribui a ele a invenção do torno de oleiro. Heródoto observa que não encontrou nenhuma tradição sobre Anacársis entre os próprios citas, e assim sua figura deve ser (na maioria) mítica.[2]
Heródoto pressupõe que Anacársis era uma personalidade conhecida[4] e relata que, após seu retorno da Grécia, ele foi morto com uma flecha por seu irmão real Saulios por sacrificar à Deusa ancestral cita de Pernas de Serpente, em seu santuário no país de Hilea[2] realizando um ritual orgiástico e xamânico à noite durante o qual ele usava imagens em suas roupas e tocava tambores.[5][6] Afirmou ainda que Anacársis havia sido morto por renunciar aos costumes citas e adotado os gregos, embora essa afirmação tenha provavelmente sido inventada pelo próprio Heródoto.[2] Os rituais religiosos praticados por Anacársis correspondiam mais aos do sacerdócio travesti enareu dos citas.[5]
Legado
Uma ânfora encontrada no témenos ocidental de Olbia Pontica, onde ficava o templo de Apolo Iētros (lit. "Apolo, o Curador"), registrava a dedicação de “mel paterno” a esse deus por um cita chamado Anaperrēs (Αναπερρης), que pode ter sido filho de Anacársis.[7][8]
O sobrinho de Anacársis, Idantirso, que era filho e sucessor de Saulios, mais tarde se tornaria famoso entre os gregos por resistir à invasão persa da Cítia em 513 a.C.[1]
Na filosofia greco-romana

Mais tarde, a tradição greco-romana transformou Anacársis em uma figura lendária, uma espécie de “bom selvagem” que representava a “sabedoria bárbara”, razão pela qual os antigos gregos o incluíram como um dos Sete Sábios da Grécia.[2] Consequentemente, Anacársis tornou-se uma figura popular na literatura grega,[1] e muitas lendas surgiram sobre ele, incluindo alegações de que ele teria sido amigo de Sólon.[2]
Diógenes Laércio descreve Anacársis como um cita espirituoso e perspicaz, que se tornou vítima de seu filo-helenismo em sua terra natal atrasada.[9] Ele também relata o encontro de Anacársis com Sólon e menciona estátuas dele, bem como numerosos ditos atribuídos a ele (50 Apotegmas). O historiador grego antigo Éforo de Cime mais tarde usou essa imagem de Anacársis para criar uma imagem idealizada dos citas.[1] Outros autores[10] também transmitem frases atribuídas a Anacársis.
Por fim, Anacársis tornou-se completamente uma figura ideal de “homem da natureza” ou “bom selvagem” na literatura grega, bem como a figura favorita dos cínicos, que lhe atribuíram uma obra do século III a.C. intitulada Cartas de Anacársis.[1] Cícero cita uma dessas cartas em suas Tusculanae disputationes.[11]
Luciano escreveu duas obras sobre ele, Anacársis ou Atletismo (Ἀνάχαρσις ἢ Περὶ Γυμνασίων) e O Cita (Σκύθης).[12](inscrição necessária)
Devido à transformação de Anacársis em um personagem favorito dos filósofos gregos, quase todos os escritos antigos a respeito dele são sobre literatura grega, o que dificulta avaliar as informações sobre o próprio Anacársis histórico.[1]
Anacársis é mencionado em A Apologética, de Tertuliano de Cartago, um apologista cristão montanista norte-africano que citou seu argumento contra o anti-intelectualismo.[13] Ele também é mencionado em outra obra de Tertuliano, Sobre o Pálio.[13] Ele é mencionado como inventor na República de Platão, em 600a.[14]
Referências
- ↑ a b c d e f g Ivantchik 2018.
- ↑ a b c d e f g Ivantchik 2016, p. 314.
- ↑ Heródoto, Histórias 4,46; 4,76 f.
- ↑ Heródoto, Histórias 4,46; vgl. Platão, A República 10,600a.
- ↑ a b Ustinova 1999, p. 79.
- ↑ Heródoto, Histórias 4,76.
- ↑ Rusyayeva 2007, p. 99-100.
- ↑ Rusyayeva 2003, p. 97.
- ↑ Diógenes Laércio 1,101 ff.
- ↑ Aristóteles, Ética a Nicômaco 10,6,1176b,33; Ateneu, Deipnosophistai 10,437 f.; 10,445 f.; Cláudio Eliano, História colorida 2,41.
- ↑ Cicero, Tusculanae disputationes 5,90.
- ↑ Martin, R. P. (31 de dezembro de 1996). Branham, R. Bracht; Goulet-Cazé, Marie-Odile, eds. The Scythian Accent: Anacharsis and the Cynics. The Cynics. [S.l.]: University of California Press. pp. 136–155. ISBN 978-0-520-92198-6. doi:10.1525/9780520921986-008. Consultado em 15 de novembro de 2025
- ↑ a b The Complete Works of Tertullian. Toronto, Ontário, Canadá: [s.n.] pp. 39, 2778
- ↑ «Plato, Republic, Book 10, section 600a». www.perseus.tufts.edu. Consultado em 19 de janeiro de 2026
Bibliografia
- Este artigo incorpora texto (em inglês) da Encyclopædia Britannica (11.ª edição), publicação em domínio público.
Chisholm, Hugh, ed. (1911). «Anacharsis». Encyclopædia Britannica (em inglês) 11.ª ed. Encyclopædia Britannica, Inc. (atualmente em domínio público)- Ivantchik, Askold I. (2016). «L'idéologie royale des Scythes et son expression dans la littérature et l'iconographie grecques : l'apport de la numismatique» [The Royal Ideology of the Scythians and its Expression in Greek Literature and Iconography: the Contribution of Numismatics]. Dialogues d'histoire ancienne (em francês). 42 (1): 305–329. Consultado em 15 de novembro de 2025
- Ivantchik, Askold (2018). «Scythians». Encyclopædia Iranica. Nova Iorque: Encyclopædia Iranica Foundation; Brill Publishers. Consultado em 15 de novembro de 2025
- Rusyayeva, A. S. (2007). «Religious Interactions between Olbia and Scythia». In: Braund, David; Kryzhintskiy, S. D. Classical Olbia and the Scythian World: From the Sixth Century BC to the Second Century AD. Oxford: Oxford University Press. pp. 93–102. ISBN 978-0-197-26404-1
- Rusyayeva, Anna S. (2003). «The Main Development of the Western Temenos of Olbia in the Pontos» (PDF). In: Bilde, Pia Guldager; Højte, Jakob Munk; Stolba, Vladimir F. The cauldron of Ariantas: studies presented to A.N. Ščeglov on the occasion of his 70th birthday. Aarhus: Aarhus University Press. pp. 93–116. ISBN 978-8-779-34923-0[1]
- Schubert, Charlotte (2010). Anacharsis der Weise. Nomade, Skythe, Grieche [Anacharsis the Wise. Nomad, Scythian, Greek]. Leipziger Studien zur Klassischen Philologie, volume 7, Tübingen: Narr ISBN 978-3-8233-6607-2
- Ustinova, Yulia (1999). The Supreme Gods of the Bosporan Kingdom: Celestial Aphrodite and the Most High God. Leiden; Boston: Brill Publishers. ISBN 978-9-004-11231-5
Referências clássicas
- Heródoto, Histórias iv. 46, 76-7; Luciano de Samósata, Scytha; Cícero, Tusc. Disp. v. 32; Diógenes Laércio i. 101-5; Ateneu, iv. 159, x. 428, 437, xiv. 613; Cláudio Eliano, Varia Historia, v. 7.
Ligações externas
- «Xena as Heiress of Anacharsis: Her Route to Immortality». www.whoosh.org. Consultado em 16 de novembro de 2025
- «Lives of the Eminent Philosophers/Book I - Wikisource, the free online library». en.wikisource.org (em inglês). Consultado em 16 de novembro de 2025
- «Voyage du jeune Anacharsis en Grèce, de l'abbé Barthélemy (1788).». remacle.org. Consultado em 16 de novembro de 2025
