Amélia de Rezende Martins

Amélia de Rezende Martins
Retrato da jovem Amélia de Rezende Martins.
Nascimento
Morte
03 de fevereiro de 1948 (70 anos)

Nacionalidadebrasileira
Ocupaçãoconferencista
historiadora
ensaísta
pianista

Amélia de Rezende Martins (Campinas, 23 de março de 1877 - Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1948) foi uma conferencista, historiadora, ensaísta, pianista e musicóloga brasileira. Foi também organizadora do Departamento de Assistência Social da Liga de Defesa Nacional, vice-presidente da Associação das Mães Cristãs (1905) e uma das idealizadoras do projeto Ação Social Brasileira (1918-1932). Fundou a sociedade Cultura Artística, a Sociedade Pró-Arte e a Sociedade dos Amigos de Música de Câmara.[1] É avó do historiador brasileiro Estevão Chaves de Rezende Martins.[2]

Vida

Amélia de Rezende Martins nasceu em Campinas, filha do Barão Geraldo de Rezende e de Maria Amélia Barbosa de Oliveira. Pertencia a uma família de destaque político e econômico no interior paulista, proprietária da Fazenda Santa Genebra. Era irmã de Elisa e Marieta, com quem partilhou a mesma formação doméstica, cuidadosamente planejada pelos pais.[1]

Fotografia preto e branco das famílias Rezende Martins e Silva Leite. Em pé, da direita para a esquerda, veem-se: Amélia de Rezende Martins; Eliza de Rezende; uma mulher; Jocelyne Mendes da Silva Leite; Marieta de Rezende e Bento da Silva Leite.

Recebeu educação esmerada com professoras europeias contratadas especialmente para as filhas do barão. O aprendizado incluía línguas estrangeiras, música, dança, pintura e literatura.[1] Entre 1886 e 1889 estudou no Colégio Progresso no Rio de Janeiro.[3]

Em 1892, acompanhada das irmãs, realizou uma viagem de estudos pela Europa, com cerca de um ano e meio de duração, que lhes permitiu contato direto com museus, concertos, igrejas e centros culturais. Paris, então no auge da Belle Époque, foi a cidade em que permaneceram mais tempo, experiência que marcou profundamente a visão cultural da futura escritora.[1]

No ambiente da Fazenda Santa Genebra, o contato com jornais e revistas em francês, inglês e alemão complementava a formação das jovens. A vida cotidiana incluía saraus, leituras e produção literária caseira, como o periódico familiar Le Petit Causeur, no qual cada integrante escrevia artigos.[1]

Amélia casou-se no dia 10 de novembro de 1894, aos 17 anos, com o médico João de Assis Lopes Martins, com quem teve nove filhos. Viveu em Campinas até 1945, mudando-se em seguida para Mendes, no Rio de Janeiro, e depois para a capital fluminense, onde faleceu em 1948.[1]

Atividade e produção musical

Vê-se, da esquerda para a direita: Brasilina Gonzaga de Castro Mendes; Amélia de Rezende Martins; José Maria de Rezende Martins; Marieta de Rezende; Dulce Mendes de Paula e uma criança.

O talento musical de Amélia manifestou-se ainda na infância, quando realizou seu primeiro recital de piano aos oito anos de idade. Na vida adulta, consolidou-se como uma das grandes incentivadoras da música no Brasil. Com músicos imigrantes e intelectuais, esteve à frente da fundação da Cultura Artística de Campinas, da Sociedade Pró-Arte e da Sociedade dos Amigos de Música de Câmara. Também promoveu seminários internacionais de música em Teresópolis e dedicou-se à difusão da música de câmara.[1]

A partir de 1918, Amélia de Rezende Martins passou a publicar obras voltadas ao ensino e à difusão da música, inseridas em um esforço mais amplo de suprir a carência de materiais em língua portuguesa. As nove sinfonias de Beethoven, História da Música (1918) e Curiosidades musicais (1920) destinavam-se a um público iniciante e não especializado. Concebidas como um projeto pessoal, essas publicações tinham como referência a cultura musical associada ao repertório erudito europeu.[4]

Produção histórica, geográfica e memorialística

Sua produção escrita pode ser dividida em três vertentes principais: ensaios de caráter social e moral, livros didáticos e biografia. Os ensaios, geralmente publicados em opúsculos, abordavam temas como os costumes femininos, a educação das crianças e a necessidade de regeneração da sociedade. Entre eles estão A moda (1920), Os problemas sociais e o feminismo (1924) e Ação social brasileira (1933). Na área didática, escreveu compêndios de Geografia e História, destinados ao ensino elementar, que alcançaram várias edições e foram adotados em escolas. Nessas obras, procurava simplificar o conhecimento e aproximá-lo da realidade cotidiana dos estudantes, muitas vezes escrevendo em tom coloquial e afetuoso.[1]

A biografia Um idealista realizador (1939), dedicada à vida de seu pai, o Barão Geraldo de Rezende, é uma obra com centenas de páginas, fotografias e documentos. Embora centrada na figura paterna, o livro também se destaca como testemunho da vida familiar e da formação de uma jovem no interior paulista do final do século XIX, sendo hoje valorizado como fonte memorialística.[1] Gilberto Freire escreveu duas avaliações críticas sobre o livro de Rezende Martins, uma publicada no Correio da Manhã, em 17 setembro de 1940 e outra no Correio Popular, em 26 de setembro de 1940.[5]

Em seus escritos jornalísticos, Rezende Martins assumiu uma posição abertamente contrária ao maximalismo (associado ao bolchevismo) e ao anarquismo, articulando uma crítica de caráter moral e religioso. Por meio de uma reescrita marcada pelo uso de imagens da maternidade, da infância e de referências cristãs, seus textos, voltados principalmente a leitoras das elites, apresentavam o catolicismo e a caridade cristã como respostas às ideias comunistas que considerava ameaçadoras à ordem social.[5]

Participação em iniciativas sociais

Retrato de Amélia de Rezende Martins em entrevista ao jornal A Noite (RJ), em 1931.

Além da atuação cultural e literária, Amélia participou ativamente de iniciativas sociais. Presidiu a Associação das Mães Cristãs, organizou o Departamento de Assistência Social da Liga de Defesa Nacional e foi uma das fundadoras da Ação Social Brasileira, criada na década de 1930, que reunia projetos voltados para a educação popular, o incentivo às artes e a melhoria das condições de vida das classes trabalhadoras.[1]

Seu pensamento social refletia a moral católica e conservadora de sua época, atribuindo à mulher um papel central na regeneração da sociedade por meio da maternidade e da educação dos filhos. Ao mesmo tempo, buscava soluções práticas para os problemas do país, propondo iniciativas como vilas operárias, museus de higiene, cinema escolar e colônias de férias.[1]

A partir da década de 1920, Amélia de Rezende Martins passou a dedicar-se à elaboração de um projeto social amplo, que culminou na criação da Ação Social Brasileira, fundada oficialmente em 1931. A instituição reunia mulheres de diferentes setores da sociedade e tinha por objetivo coordenar iniciativas dispersas de assistência e educação, propondo uma ação unificada em favor da regeneração moral e cultural do país. Inspirada em princípios católicos, a organização buscava promover o bem-estar social por meio da educação, da higiene e da cultura, atuando junto a escolas, associações beneficentes e grupos comunitários.[6]

Nos estatutos e textos da Ação Social Brasileira, Amélia defendia que a transformação da sociedade dependeria da formação moral e intelectual das mulheres, consideradas agentes centrais da estabilidade familiar e do progresso nacional. Entre as propostas do programa estavam a criação de vilas operárias com moradias acessíveis, hortas e escolas; a organização de cursos de economia doméstica e de higiene; e a fundação de museus, corais, cineclubes e espaços de recreação voltados às famílias. O projeto previa ainda o uso de meios modernos, como o cinema educativo e os jogos escolares, para tornar o aprendizado mais atraente e eficiente.[6]

Embora tenha se apresentado sempre como apenas uma mãe de família, Amélia construiu uma obra vasta, marcada pela coerência entre sua vivência doméstica, sua visão de mundo e sua atuação pública.[1]

Arquivo

O Centro de Memória da Unicamp reúne documentos de e sobre Amélia de Rezende Martins.[7]

Obra

Livros

  • Reflexões sobre o momento social (1918).
  • As nove sinfonias de Beethoven
  • História da Música (1918)
  • Complemento às reflexões sobre o momento social (1919).
  • Geografia Elementar (1919).
  • Curiosidades musicais (1920).
  • A moda (1920).
  • 24 pontos de História do Brasil (1923).
  • Meu livrinho de Missa (1926).
  • O meu Brasil (1930).
  • O livro de José Maria (1930).
  • Os problemas sociais e o feminismo (1924).
  • 40 pontos de Geografia (1930).
  • Pontos de História Universal: História Antiga e Idade Média (1932).
  • A mulher e a política (1932).
  • Ação Social Brasileira (1933).
  • Grandes problemas nacionais (1933).
  • Quinzena Anchietana. A Acção Social Brasileira pela voz do Brasil a Anchieta (1534–1934) (1934).
  • Compêndio de História do Brasil (1937).
  • Um idealista realizador: Barão Geraldo de Rezende (1939).
  • Quadro sinóptico e sincrônico de História do Brasil.
  • Quadros sincrônicos de História Universal.

Ligação externa

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l Belline, Ana Helena Cizotto (2004). «Amélia de Rezende Martins». In: Muzart, Zahidé Lupinacci. Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. II. Florianópolis: Editora Mulheres. pp. 773–791
  2. Alfaix Assis, Arthur (2024). «Historical Philosopher, Philosophical Historian : Estevao de Rezende Martins (1947-2025). In memoriam». Storia della storiografia (1/2). doi:10.19272/202411502009. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  3. Haydn, Amanda; Gonçalves, Mauro Castilho (20 de dezembro de 2019). «"A cruz de Cristo" nas fábricas e nas escolas: Amélia de Rezende Martins e a Ação Social Brasileira (ASB)». Revista Diálogo Educacional (63). ISSN 1981-416X. doi:10.7213/1981-416X.19.063.DS07. Consultado em 3 de janeiro de 2026 
  4. Igayara-Souza, Susana Cecilia Almeida (2 de maio de 2011). «Entre palcos e páginas: a produção escrita por mulheres sobre música na história da educação musical no Brasil ( 1907-1958)». doi:10.11606/T.48.2011.tde-04072011-145947. Consultado em 3 de janeiro de 2026 
  5. a b Vianna Neto, L. Modernismo eclipsado: arte e arquitetura alemã no Rio de Janeiro da era Vargas (1930-1945). Leiden University Centre for Linguistics (LUCL), Faculty of Humanities, Leiden University, 2020.
  6. a b Haydn, Amanda (20 de fevereiro de 2017). «Uma liderança feminina no laicato católico: a trajetória política e intelectual de Amélia Rezende Martins na Ação Social Brasileira (1918-1932)». Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  7. Redação (21 de novembro de 2025). «Coleção abrigada no Centro de Memória da Unicamp revela a riqueza histórica de Campinas». Jornal Correio da Manhã. Consultado em 3 de janeiro de 2026