Alomorfia

A alomorfia é um fenômeno morfológico em que um mesmo morfema apresenta diferentes realizações fonológicas, conhecidas como alomorfes. Esses alomorfes refletem a interação entre morfologia e fonologia, podendo ser condicionadas por fatores fonológicos, morfológicos, sintáticos ou lexicais. O estudo da alomorfia busca compreender como esses fatores interagem com a estrutura da palavra.

1. Tipos de alomorfia

A literatura linguística distingue três tipos principais de alomorfia: fonológica (ou superficial), morfofonológica (ou verdadeira) e supletiva.

Essas categorias diferenciam-se pelo tipo de gatilho envolvido e pelo grau de previsibilidade da alternância.

1.1. Alomorfia fonológica (ou superficial)

A alomorfia fonológica, também chamada de superficial, é completamente previsível pelo contexto sonoro. A alternância encontrada, portanto, pertence e pode ser explicada pelo componente fonológico da gramática.

Um exemplo pode ser observado no inglês, com o comportamento do sufixo de plural, que apresenta três variantes principais:

  • [-s] após sons surdos, como em caps [kæps];
  • [-z] após sons sonoros, como em bags [bægz];
  • [-əz] após sibilantes, como em buses [bʌsəz].

Esse padrão reflete dois processos fonológicos:

  1. Assimilação de sonoridade, pela qual o sufixo plural /-z/ passa a /-s/ devido ao traço [-vozeado] do som precedente;
  2. Epêntese da vogal [ə], empregada para evitar a sequência de sibilantes adjacentes, uma configuração fonotaticamente desfavorecida no inglês.

Os fenômenos supracitados não se restringem ao domínio morfológico, mas refletem propriedades fonológicas gerais do inglês. A própria estrutura silábica da língua mostra que sequências de consoantes [-voice][+voice] são fortemente restringidas.

Por exemplo, são possíveis combinações em que uma consoante sonora é seguida de uma surda, como em tense /tens/. No entanto, o inverso, uma consoante surda seguida de uma sonora, como em uma forma hipotética /kæts/ não ocorre. Essa assimetria revela uma restrição fonotática contra sequências do tipo [-voice][+voice].

Essa restrição explica por que o morfema de plural, cuja forma subjacente é /-z/, assume a forma desvozeada [-s] após consoantes surdas: trata-se de um caso de assimilação regressiva de sonoridade, necessária para manter a harmonia entre os segmentos adjacentes e respeitar os padrões fonotáticos da língua.

O mesmo raciocínio aplica-se ao bloqueio de encontros de sibilantes, que motiva a inserção da vogal epentética [ə] em palavras como buses [bʌsəz].

Assim, a alternância entre [-s], [-z] e [-əz] em cats, dogs e buses representa apenas uma instância morfológica de um padrão fonológico mais amplo, que expressa tendências gerais do inglês: evitar clusters de sibilantes e ajustar a sonoridade entre consoantes adjacentes.

1.2. Alomorfia verdadeira

A alomorfia verdadeira envolve alternâncias que não são totalmente previsíveis pela fonologia, pois estão restritas a determinados contextos morfológicos ou classes lexicais.[1][2]

1.2.1 Alomorfia morfofonológica

Diferentemente de uma mudança puramente fonológica, que se aplica de modo geral na língua, a alomorfia morfofonológica é condicionada pelo contexto morfológico. O ambiente que aciona a mudança envolve a fronteira entre morfemas ou um traço morfossintático particular.

Um exemplo é a alternância entre leaf e leaves no inglês. No plural, a fricativa final /f/ torna-se sonora /v/, mas essa mudança não é produtiva nem se aplica a todos os substantivos terminados em /f/ (por exemplo, roofroofs, e não rooves). Isso mostra que o processo é restrito ao plural de algumas raízes e deve ser tratado como uma regra morfofonológica, não como um processo fonológico geral.

Outros exemplos incluem:

Inglês: drive → drove (/aɪ/ → /oʊ/ no passado);

Português: poder → pude (/o/ → /u/ no pretérito perfeito).

Em ambos os casos, há condicionamento morfológico, pois a alternância só ocorre em contextos específicos de flexão verbal e não é previsível pela fonologia da língua como um todo.

1.2.2 Alomorfia supletiva

A alomorfia supletiva ocorre quando as formas de um mesmo morfema não apresentam relação fonológica sistemática. Nesses casos, o falante precisa memorizar qual alomorfe corresponde a cada contexto, já que regras fonológicas não derivam os alomorfes a partir de uma mesma representação subjacente.

No coreano, por exemplo, o sufixo que marca nominativo apresenta duas formas sem qualquer semelhança fonológica: -i e -ka. Apesar disso, o gatilho da alternância é fonológico, pois depende da estrutura da base à qual o sufixo se anexa:[3]

- i ocorre após consoante, preservando o padrão silábico CV:

pap-i → “o arroz (sujeito)”;

-ka ocorre após vogal, criando uma nova sílaba CV:

ai-ka → “a criança (sujeito)”.

A escolha garante que o resultado final mantenha a estrutura CV.CV, evitando sílabas mal formadas (com codas pesadas ou hiatos).

As duas formas são fonologicamente independentes, mas estão em distribuição complementar: cada uma aparece em um ambiente fonológico distinto, assegurando a estrutura silábica preferida. Trata-se, portanto, de supleção condicionada fonologicamente, em que a fonologia não deriva um alomorfe do outro, mas seleciona qual deles será usado. Assim, a fonologia não tem um papel na derivação dos alomorfes a partir de uma forma subjacente, mas tem papel na seleção de qual das duas formas memorizadas deve ser escolhida.

Um caso semelhante ocorre no catalão, na marca de gênero masculino.[4]

O morfema de gênero pode ser expresso por diferentes alomorfes: ∅, -u e, mais raramente, outros sufixos. O padrão mais comum é o morfe zero, como em gos (“cachorro”), cuja forma masculina singular é gos.

Entretanto, quando a formação do plural resultaria em uma sequência de duas sibilantes idênticas consecutivas (gos-s), ocorre a seleção supletiva do alomorfe -u, que cria uma sílaba intermediária e interrompe o contato /s/ + /s/:

gos → gos-u-s (“cachorros”)

Essa alternância evita um encontro fonotaticamente marcado, caracterizando mais um caso de supleção condicionada pela fonologia.

Por outro lado, existem casos de supleção sem condicionamento fonológico, em que a alternância é puramente lexical:

Inglês: go → went; good → better.

Português: sou → fui; ir → vou.

Nesses casos, não há relação fonológica sistemática entre as formas nem há restrição fonológica envolvida na escolha. A seleção de cada alomorfe é determinada pelo sistema morfossintático da língua.

2. Alomorfia em raízes e sufixos

A alomorfia não se restringe aos afixos. As raízes também podem apresentar formas alomórficas, como ilustram alguns exemplos anteriormente discutidos. No hiaki, por exemplo, temos casos de supleção de raízes.[5]

  • Verbos intransitivos: supleção pelo número do sujeito

Aapo weye

“Ele/ela está andando.”

Vempo kate

“Eles estão andando.”

  • Verbos transitivos: supleção pelo número do objeto

Aapo/ Vempo uka koowi-ta me’a-k

“Ele/eles mataram o porco.”

Aapo/ Vempo ume koowi-m sua-k

“Ele/eles mataram os porcos.”

Referências

  1. BONET, Eulàlia; LLORET, Maria-Rosa; MASCARÓ, Joan. Understanding Allomorphy. Oxford: OUP, 2015.
  2. EMBICK, David. Localism vs. Globalism in Morphology and Phonology. Cambridge, MA: MIT Press, 2010.
  3. EMBICK, David. Localism vs. Globalism in Morphology and Phonology. Cambridge, MA: MIT Press, 2010
  4. NEVINS, Andrew. Phonologically-conditioned allomorph selection. In: EWEN, Colin; HUME, Elizabeth; OOSTENDORP, Marc van; RICE, Keren (ed.). The Companion to Phonology. Harvard University, 2011.
  5. NEVINS, Andrew. Phonologically-conditioned allomorph selection. In: EWEN, Colin; HUME, Elizabeth; OOSTENDORP, Marc van; RICE, Keren (ed.). The Companion to Phonology. Harvard University, 2011.