All-Negro Comics

All-Negro Comics
Revista
País de origem  Estados Unidos
Língua de origem inglês
Editora(s) All-Negro Comics, Inc.
Primeira edição 1947
Personagens principais Ace Harlem
Lion Man
Estatuto Extinta

All-Negro Comics foi uma revista em quadrinhos americana de 1947 que representa a primeira publicação conhecida escrita e desenhada exclusivamente por roteiristas e artistas afro-americanos. A iniciativa pode ser comparada aos chamados race films, produções cinematográficas voltadas ao público negro, feitas entre as décadas de 1910 e 1950,[1][nota 1] e ao cinema blaxploitation dos anos 1970.

Editada por Orrin Cromwell Evans, a antologia em quadrinhos teve apenas uma edição, com circulação e vendas limitadas.

Histórico de publicação

O jornalista afro-americano Orrin Cromwell Evans foi "o primeiro redator negro a cobrir pautas gerais para um jornal branco de grande circulação nos Estados Unidos" quando ingressou na equipe do Philadelphia Record.[3] Evans era membro da NAACP e um forte defensor da igualdade racial. Após o fechamento do Record em 1947, Evans pensou em usar o meio dos quadrinhos para destacar ainda mais "a esplêndida história do jornalismo negro".[3][4]

Evans fez parceria com o ex-editor do Record Harry T. Saylor, o editor esportivo Bill Driscoll e mais duas pessoas para fundar a editora All-Negro Comics, Inc., na Filadélfia, com ele mesmo como presidente.[3]

Em meados de 1947, a empresa publicou uma edição de All-Negro Comics, uma revista em quadrinhos de 48 páginas no formato padrão, com capa colorida brilhante e miolo em papel jornal. O copyright foi registrado em 15 de julho de 1947, com data de edição de junho de 1947.[5] Sua tiragem e distribuição são desconhecidas.[3] Diferente de outras revistas em quadrinhos da época, foi vendida por 15 centavos em vez dos tradicionais 10 centavos.

Segundo o escritor Tom Christopher, Evans

"...co-criou as histórias da revista junto com os artistas, que incluíam seu irmão, George J. Evans Jr.; dois outros cartunistas da Filadélfia, sendo um deles John Terrell e o outro chamado Cooper; além de um artista de Baltimore que assinava como Cravat. Provavelmente, os cartunistas escreviam seus próprios roteiros, com contribuições editoriais adicionais de Bill Driscoll."

Como observa um historiador cultural sobre a época:

"Embora houvesse algumas imagens heroicas de negros criadas por negros, como a tira de quadrinhos Jive Gray e All-Negro Comics, essas imagens não circulavam fora das comunidades negras segregadas no período pré-direitos civis."[6]

Evans tentou publicar uma segunda edição, mas não conseguiu comprar o papel jornal necessário. Um autor acredita que Evans foi impedido de fazê-lo por distribuidores preconceituosos, assim como por editoras concorrentes de donos brancos (como a Parents Magazine Press e a Fawcett Comics), que começaram a lançar seus próprios títulos com temas afro-americanos.[7]

O Official Overstreet Comic Book Price Guide, referência padrão da área, considera a edição única como "rara" e observa: "Raramente encontrada em bom ou ótimo estado; muitas cópias têm páginas amareladas."[8]

Em 2022, o roteirista de quadrinhos Chris Robinson financiou com sucesso uma campanha no Kickstarter para remasterizar e republicar a revista.[9] A edição reimpressa venceu o Prêmio Eisner de Melhor Coleção/Projeto Arquivístico — Quadrinhos em 2024.[10]

Conteúdo

A revista Time, em 1947, descreveu All-Negro Comics como "a primeira desenhada por artistas negros e povoada inteiramente por personagens negros". Ao descrever a história principal, Ace Harlem, disse:

"Os vilões eram dois assaltantes negros de terno zoot e fala gíria, cuja presença em qualquer outro gibi poderia ter gerado queixas de 'distorção' racial. Como era tudo dentro da comunidade, Evans achava que os leitores negros não se importariam."[11]

O protagonista Ace Harlem era um detetive afro-americano. Já os personagens da história Lion Man and Bubba foram criados para inspirar o orgulho do povo negro em sua herança africana.[3]

Histórias

  • Página editorial introdutória: All-Negro Comics: Presenting Another First in Negro History (Apresentando mais uma inovação na História Negra)
  • Ace Harlem – história de detetive desenhada por John Terrell. A estrutura e o estilo da narrativa lembram os detetives das tiras de aventura da época, como Dick Tracy. Sua presença nas páginas de All-Negro Comics antecipa personagens como Shaft, o famoso detetive negro do cinema blaxploitation dos anos 1970, sendo um dos primeiros exemplos de um herói urbano afro-americano forte, inteligente e autossuficiente em posição de protagonismo.
  • The Little Dew Dillies – história infantil com criaturas querubins que só bebês podem ver e ouvir, desenhada por Cooper
  • Ezekiel's Manhunt – conto ilustrado de aventura infantil com duas páginas
  • Lion Man and Bubba – estrelada por um afro-americano universitário enviado pela ONU a um depósito de urânio na Costa do Ouro, na África, onde adota o órfão Bubba. Desenhado por George J. Evans Jr. (sem relação com o artista branco George Evans). Um autor moderno comentou que Lion Man "usava o obrigatório colante de super-herói", embora capa e páginas mostrem-no de tanga. A figura de Lion Man pode ser interpretada como uma resposta direta a Tarzan e aos chamados tarzanides, heróis brancos que se tornavam "reis da selva", frequentemente retratados como superiores aos povos africanos.
  • Hep Chicks on Parade – gags ilustradas com mulheres estilizadas em roupas exageradas, assinadas por "Len"
  • Lil' Eggie – por Terrell, sobre o marido submisso Egbert e sua esposa
  • Sugarfoot – história de humor desenhada por Cravat, estrelando os músicos viajantes Sugarfoot e Snake Oil tentando conquistar a filha de um fazendeiro. Segundo o editorial de Evans, os criadores queriam "resgatar o humor quase perdido do adorável negro andarilho dos tempos antigos"
  • Remember — Crime Doesn't Pay, Kids! – aviso de utilidade pública em uma página com Ace Harlem e anúncio da próxima edição

Galeria

Notas

  1. A palavra race era usada em um sentido pejorativo, na década de 1950, os termos race music e race records foram substituídos por rhythm and blues ou R&B.[2]

Referências

  1. Mattos, A. C. Gomes de. A Outra Face de Hollywood: Filme B. [S.l.]: Rio de Janeiro: Rocco. ISBN 85-325-1496-0
  2. Black Pau: A soul music no Brasil nos anos 1970
  3. a b c d e Christopher, Tom (2002). «Orrin C. Evans and the story of All-Negro Comics». TomChristopher.com. Cópia arquivada em 7 de março de 2009  Reprinted from Comics Buyer's Guide February 28, 1997, pp. 32, 34, 37-38. Article includes reprinted editorial page "All-Negro Comics: Presenting Another First in Negro History" from All-Negro Comics #1
  4. «Orrin C. Evans: The First Black Comic Book Publisher». FirstComicsNews.com. 11 de fevereiro de 2016. Arquivado do original em 6 de março de 2016 
  5. Catalog of Copyright Entries. Third Series: 1947, Library of Congress, Copyright Office, p. 10
  6. Carpenter, Stanford W. "Imagining Just Them, Just Us, or a Just Society: Creating Black Characters for the Justice Society of America Comic Book", Chapter 14 in Agorsah, E. Kofi, and G. Tucker Childs, Africa and the African Diaspora: Cultural Adaptation and Resistance (AuthorHouse, 2005), ISBN 978-1-4208-2760-6
  7. «Orrin C. Evans: The First Black Comic Book Publisher». FirstComicsNews.com. 11 de fevereiro de 2016. Consultado em 15 de junho de 2016. Arquivado do original em 6 de março de 2016 
  8. Overstreet, Robert M. (2007). «All-Negro Comics». The Official Overstreet Comic Book Price Guide. 37. Gemstone Publishing / House of Collectibles. p. 411. ISBN 978-0-375-72108-3 
  9. «All-Negro Comics #1 75th Anniversary Hardcover Goes to Kickstarter». The Companion (em inglês). 9 de novembro de 2022. Consultado em 14 de outubro de 2024 
  10. «Eisner Awards». Comic-Con International (em inglês). Consultado em 14 de outubro de 2024 
  11. «The Press: Ace Harlem to the Rescue». Time. 14 de julho de 1947. Consultado em 1 de julho de 2011. Arquivado do original em 24 de abril de 2010