Alfredo Allen

Alfredo Allen, 1.º Visconde de Villar d’Allen (n. 29 de Janeiro de 1828; † 17 de Junho 1907, Porto), foi um agricultor, viticultor, industrial, dirigente associativo e benemérito português do século XIX, com papel destacado no desenvolvimento da agricultura, da viticultura e da enologia em Portugal, bem como na criação de importantes instituições culturais e económicas da cidade do Porto.[1]

Biografia

Membro da quarta geração da família Allen em Portugal e segundo filho de João Allen, (negociante portuense de ascendência britânica, tendo a sua actividade centrada na exportação de vinho do Porto, membro da Feitoria Inglesa e co-fundador do Banco Comercial do Porto e da Associação Comercial do Porto, importante colecionador de arte, tendo criado o Museu Allen), Alfredo Amsinck Allen destacou-se desde cedo pelo interesse pela agricultura, que considerava a base do progresso económico nacional. Convencido de que Portugal reunia condições naturais excecionais de clima e solo para se afirmar como país agrícola, empenhou-se ativamente na modernização do setor, inspirado pelos exemplos observados no estrangeiro.

Em 1857, liderou a organização de uma exposição agrícola na Torre da Marca, no Porto, iniciativa pioneira que contou com a colaboração de figuras como Roberto Van Zeller e foi inaugurada por D. Pedro V. Este evento é geralmente considerado um marco fundador do progresso agrícola e hortícola no norte de Portugal, e mesmo no país como um todo.[1]

Oito anos depois, em 1865, esteve entre os principais impulsionadores da criação do Palácio de Cristal do Porto, instituição da qual foi fundador e presidente da direção. Embora a iniciativa reunisse vários apoiantes, Alfredo Allen foi reconhecido como o principal orientador intelectual e organizativo do projeto, graças à sua experiência internacional e à sua capacidade de liderança.[1]

Após a construção do Palácio de Cristal, Alfredo Allen recebeu o título de Visconde de Villar d'Allen, atribuído pelo Rei D. Luís I por decreto de 13 de Janeiro de 1866, e foi eleito vereador da Câmara Municipal do Porto. Como responsável pelo pelouro dos jardins, promoveu uma profunda renovação paisagística da cidade, nomeadamente através da criação dos jardins do Palácio de Cristal e da Cordoaria, concebidos pelo arquiteto paisagista alemão Émile David, contratado por sua iniciativa. Estes jardins tornaram-se modelos de arquitetura paisagista do Romantismo em Portugal.

Atividade agrícola, vitícola e enológica

Reconhecido como agricultor distinto e profundo conhecedor de vinhos, Alfredo Allen desempenhou um papel central no combate à filoxera, que afetou gravemente a viticultura portuguesa na segunda metade do século XIX. Representou o governo português na convenção antifiloxérica de Berna e participou como comissário oficial no congresso de Bordéus, em 1881.

Foi presidente da Comissão Central Antifiloxérica do Reino e, mais tarde, da região Norte, tendo dirigido durante cerca de oito anos a campanha contra a praga numa fase marcada pela escassez de conhecimentos científicos eficazes. Apesar de muitos dos seus esforços terem sido posteriormente esquecidos, é reconhecido como uma das figuras mais importantes na defesa da viticultura duriense nesse período.

Alfredo Allen foi também diretor técnico e um dos fundadores da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, onde aplicou os seus vastos conhecimentos de enologia. Sob a sua orientação, a companhia destacou-se pela qualidade dos seus vinhos, nomeadamente o chamado Douro clarete, muito elogiado à época.[1]

Vida pessoal e ligação à Quinta do Noval

Alfredo Allen casou com Maria José Rebello Valente, filha de José Maria Rebello Valente, proprietário da Quinta do Noval, no concelho de Alijó, uma das mais importantes propriedades vitivinícolas do Douro.

Após a morte de José Maria Rebello Valente, a Quinta do Noval passou por herança para Maria José Valente Allen e, consequentemente, para a esfera de intervenção direta de Alfredo Allen. Dando continuidade à obra do sogro — responsável pela renovação profunda das vinhas, pela escolha criteriosa de castas e pela afirmação internacional dos vinhos do Noval — Alfredo Allen desempenhou um papel determinante como enólogo e orientador técnico da propriedade.[2]

Sob a sua influência, a Quinta do Noval consolidou práticas modernas de viticultura e vinificação, recorrendo a inovações técnicas, como o uso de prensas mecânicas do sistema Mabille, e mantendo a preocupação com a qualidade e autenticidade dos vinhos do Douro, nomeadamente no debate em torno da produção de vinhos do Porto sem adição.[2]

Contudo, a invasão da filoxera teve consequências devastadoras na propriedade. Apesar das tentativas de Alfredo Allen para conter a praga — incluindo a introdução experimental de cepas sicilianas —, os esforços revelaram-se infrutíferos. Em poucos anos, a produção da Quinta do Noval caiu drasticamente, passando de cerca de 300 pipas para apenas algumas unidades, o que acabou por conduzir, como sucedeu com muitas outras quintas durienses, à perda da propriedade.[2]

Esta ligação à Quinta do Noval reforça o papel de Alfredo Allen como figura central da viticultura duriense do século XIX, não apenas como dirigente institucional, mas também como enólogo e gestor direto de uma das mais emblemáticas quintas do Douro.[2]

Outras atividades e cargos

Ao longo da sua vida, Alfredo Allen exerceu numerosos cargos públicos e associativos, entre os quais:[1]

  • Membro da Sociedade Agrícola e do Conselho de Agricultura do Porto;
  • Secretário e comissário da Exposição Internacional Portuguesa de 1865;
  • Comissário português nas exposições internacionais de Viena (1874), Berlim (1888) e Paris (1889), integrando nesta última o grande júri internacional;
  • Ex-secretário do Brazilian & Portuguese Bank, no Porto;
  • Presidente da comissão promotora do comércio de vinhos e azeites do distrito do Porto;
  • Fundador e colaborador do jornal O Agricultor do Norte de Portugal;
  • Fundador do Orfeão do Palácio de Cristal e de escolas populares de música;
  • Fundador e diretor oficial da fábrica estatal de sulfureto de carbono da Serra do Pilar;
  • Membro e fundador de diversas associações, incluindo a Liga dos Lavradores do Douro, a Real Sociedade Humanitária e a Sociedade Nacional Camoniana.

Distinções

Pelos seus serviços, Alfredo Allen recebeu numerosas distinções nacionais e internacionais, entre as quais:[1]

  • Oficial da Legião de Honra de França;
  • Condecorações da Bélgica;
  • Distinções de mérito agrícola e de instrução pública em França;
  • Prémios em exposições nacionais e internacionais, incluindo Rio de Janeiro (1879) e Lisboa (1884);
  • Prémio de honra da Associação Comercial do Porto, na Exposição de Vinhos de 1880.

Morte e legado

Alfredo Allen faleceu no Porto, no dia 17 de Junho de 1907. A sua morte foi sentidamente lamentada pela cidade do Porto e pelo setor agrícola nacional, que reconheciam nele um dos principais artífices do progresso agrícola português do século XIX.[1]

Descrito pelos seus contemporâneos como possuidor de uma "alma diamantina e coração de ouro", Alfredo Allen deixou um legado duradouro na agricultura, na viticultura, na paisagem urbana e na vida cultural do Porto, sendo lembrado como um dos grandes beneméritos da cidade.[1]

Bibliografia

  1. a b c d e f g h Oliveira, Duarte. «Revista O Ocidente - 30 de Junho de 1907» (PDF) 
  2. a b c d Cardoso, António de Barros (2017). «Subsídios para o estudo do património vinícola de Alijó. A Quinta do Noval» (PDF)