Alcoviteira (Gil Vicente)
A Alcoviteira, Brísida Vaz, é uma personagem criada pelo dramaturgo português Gil Vicente para refletir a decadência moral e a hipocrisia da sociedade do seu tempo. Vivendo de enganos e da exploração de raparigas, apresenta-se como alguém honrada e até merecedora do céu, por ter levado donzelas aos cónegos e, segundo ela, salvo raparigas ao colocá-las em conventos. Gil Vicente usa esta figura para denunciar a inversão de valores, mostrando como a imoralidade pode ser disfarçada de virtude quando associada a instituições respeitadas como o clero. Brísida simboliza, assim, a crítica social e religiosa presente no teatro vicentino, onde as aparências enganam e a verdadeira justiça divina se revela apenas no julgamento final.
No Auto da Barca do Inferno, esta personagem apresenta-se com voz elogiosa e usa uma linguagem popular. Começa por recusar a entrada no Inferno e acusa-se a si própria dizendo tudo o que traz consigo como se fosse a coisa mais natural. É a personagem que mais bagagem traz, representando todos os pecados que cometeu ao longo da vida. Tanto o Diabo como o Anjo não a acusam, mas ela defende-se por não querer ir para o Inferno, dizendo que casava muitas moças, que tinha sido muito martirizada, que tinha convertido muitas raparigas, que as tinha encaminhado e até que as vendia aos cónegos da Sé, argumentando que como servia a Igreja, deveria ir para o Paraíso.
Brísida Vaz: A figura da alcoviteira no teatro vicentino
Brísida Vaz é uma das personagens mais emblemáticas do teatro vicentino, representando a figura-tipo da alcoviteira, ou seja, mulher que trabalha com a alcouva. Esta palavra muito antiga tem as suas raízes no árabe: al-qawwāḍa(القوَّادة) → alcahueta (esp.) → alcouveteira / alcoviteira (port. arcaico) → alcoviteira (português moderno). Esta é uma figura recorrente na literatura de tradição medieval e renascentista. O nome Brísida Vaz surge em várias peças de Gil Vicente, fazendo muitos historiadores suspeitarem da possibilidade dela ter sido uma figura conhecida na altura. Esta personagem serve de espelho para a sociedade do seu tempo, funcionando como instrumento de crítica e sátira social.
Quem é Brísida Vaz?
Brísida Vaz é, essencialmente, uma intermediária em negócios amorosos ilícitos, alguém que vive da manipulação, da artimanha e da exploração das fraquezas alheias. É uma mulher de idade avançada, experiente, astuta e com um discurso fluido e persuasivo. Costuma intermediar encontros entre jovens raparigas e homens influentes, aproveitando-se da inocência de umas e dos desejos de outros. No entanto, a sua figura não é apenas a de uma criminosa ou vilã; é também uma crítica social encarnada: representa as desigualdades, a hipocrisia moral e a decadência de valores da sociedade da época.
Onde aparece Brísida Vaz?
A personagem Brísida Vaz surge em mais do que uma obra de Gil Vicente, mas é particularmente notória na peça "Auto da Índia", escrita em 1509. Esta obra é uma comédia em um acto que apresenta, de forma satírica, o comportamento de uma mulher adúltera após o marido partir para a Índia.
Nesta peça, Brísida Vaz aparece como conselheira e cúmplice da protagonista, que rapidamente se envolve com outros homens assim que o marido embarca. A alcoviteira incentiva-a a aproveitar a ausência do esposo para se divertir, justificando os seus conselhos com argumentos que misturam malícia e experiência de vida. Ela diz frases como:
"O que é ganho e dado, a ninguém faz pecado."
Esta fala revela o seu pragmatismo e a sua visão relativista da moral, típica das alcoviteiras vicentinas, que justificam os seus actos com ditados populares ou raciocínios de aparência lógica, mas eticamente duvidosa.
Exemplo de Brísida Vaz em cena
No "Auto da Índia", Brísida desempenha um papel fundamental ao ajudar a mulher do fidalgo ausente (o marido) a envolver-se com outros homens. É Brísida quem arranja os encontros, quem acalma a consciência da mulher e quem se enriquece com os "favores" que oferece.
Um excerto marcante da sua intervenção na peça é o momento em que defende que a fidelidade não compensa, pois:
"Ficar a mulher sozinha é perder-se a mais formosa."
Estas palavras, embora pronunciadas de forma cómica, têm um fundo de crítica mordaz à sociedade da época, que celebrava valores como a honra e a virtude feminina, mas tolerava (e até fomentava) comportamentos de infidelidade entre os homens.
Significado simbólico da personagem
Brísida Vaz não é apenas uma figura cómica ou caricata. A sua existência na peça serve um propósito crítico e moralizante. Representa a corrupção dos costumes, a decadência dos valores tradicionais e a influência perversa que certas figuras sociais exercem sobre os outros. Ao mesmo tempo, mostra como a mulher, mesmo marginalizada, pode encontrar poder e protagonismo através da sua astúcia e capacidade de manipulação.
Além disso, o nome "Vaz", associado à personagem, carrega em si um valor simbólico. O apelido Vaz, frequente nas obras de Gil Vicente, sugere uma certa pertença à realidade portuguesa da época — muitas vezes ligado a personagens de condição social mediana ou baixa, usadas pelo autor para retratar os vícios da sociedade.
Reflexão final: os "Vaz" no teatro vicentino
O nome "Vaz" aparece não apenas em Brísida Vaz, mas também noutras personagens vicentinas, como Joane Vaz no Auto da Barca do Inferno, que representa um fidalgo hipócrita e vaidoso. Esta repetição do apelido poderá ter um carácter intencional: "Vaz" torna-se um marcador social, um símbolo da mediocridade moral ou da dissimulação comum entre as figuras da época.
Neste contexto, é possível reflectir que Gil Vicente talvez tenha escolhido este nome precisamente por ser comum e reconhecível, dando às suas personagens uma identidade que podia ser vista como “do povo” mas também crítica e satírica. Os "Vaz" vicentinos vivem num espaço ambíguo entre a comicidade e a denúncia, funcionando como espelhos de uma sociedade em crise de valores, onde o prestígio social não corresponde necessariamente à virtude moral.
Brísida Vaz, como personagem-tipo, é uma figura incontornável da dramaturgia portuguesa, exemplo da capacidade de Gil Vicente em criar personagens que, mesmo mergulhadas no humor e no exagero, nos obrigam a reflectir sobre as contradições humanas que continuam, séculos depois, a ser tristemente actuais.