Alcir Lenharo

Alcir Lenharo
Alcir Lenharo, 1980
Nascimento1946
Morte1996 (49–50 anos)
CidadaniaBrasil
Alma mater
Ocupaçãohistoriador

Alcir Lenharo (1946 - 1996), historiador brasileiro, foi professor na área de História do Brasil no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas, entre 1980 e 1996. Desenvolveu pesquisas sobre questões políticas e culturais relacionadas à história contemporânea, com importantes estudos sobre história política, o pensamento totalitário, a cultura de massa e a inserção de diferentes elementos da cultura na sociedade. Seu último livro, resultado de sua tese de livre-docência, abordou o meio artístico de cantoras e cantores do rádio, dos anos 1930 aos anos 1950 (Cantores do rádio – A trajetória de Nora Ney e Jorge Goulart e o meio artístico do seu tempo).

Dados biográficos

Alcir Lenharo nasceu no interior do estado de São Paulo, no município de Arealva, em 1946, primeiro filho de Zulmira Caracho e Oreste Lenharo. Concluiu os estudos ginasiais no Seminário Nossa Senhora do Rosário, em Lins, em 1962, e os estudos secundários no curso colegial do Instituto de Educação Ernesto Monte, em Bauru, em 1965. Iniciou o curso de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 1969, onde formou-se em História, em 1973. Na mesma universidade, obteve os títulos de mestre (1978) e doutor (1985) em História Social.[1]

Foi docente de História do Brasil e Geral em algumas escolas da educação básica em São Paulo, entre 1969 e 1973: no Ginásio e no Colégio Teresiano, no Instituto Hebraico-Brasileiro Renascença e no Colégio Estadual prof. Gualter da Silva. No ensino superior, foi professor auxiliar e depois assistente da disciplina Antropologia e Realidade Brasileira na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo entre 1975 e 1980. Em 1979, foi professor assistente colaborador no Departamento de História da UFMT, em Cuiabá.[1] Foi colaborador também do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional-NDIHR, na mesma instituição.

Sua carreira e trajetória acadêmica se consolida pela atuação como professor e pesquisador no Departamento de História da Unicamp, entre 1980 e 1996. Alcir Lenharo morreu precocemente em Campinas, dia 07 de julho de 1996.

Trajetória acadêmica

Em sua dissertação de mestrado, desenvolvida com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP entre 1975 e 1976, analisou relações entre a política e o abastecimento no primeiro terço do século XIX no Brasil, sob orientação da historiadora Maria Odila da Silva Dias e sob análise da banca composta por Sérgio Buarque de Holanda e Pasquale Petrone. Título da dissertação: "Política & Negócios: o comércio de abastecimento do Rio de Janeiro (1808-1831)".[2] A tese de doutorado, defendida em 1985 sob orientação do historiador Adalberto Marson, trouxe contribuições originais para o estudo de história política, sobretudo sobre o chamado Estado Novo no Brasil, e teve como título: "Corpo e alma: mutações sombrias do poder no Brasil dos anos 30 e 40". A banca de defesa foi composta por: Arnaldo Daraya Contier, Maria Yedda Leite Linhares, Maria Stella Martins Bresciani, Roberto Romano da Silva.[2]

Alcir Lenharo atuou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e posteriormente na Universidade Estadual de Campinas-Unicamp. Ao integrar-se ao corpo docente do Departamento de História da Unicamp, apresentou em seu plano de trabalho o projeto intitulado "Contracultura e repressão no Brasil, 1968/1973", propondo uma pesquisa em periódicos da chamada contracultura discutidos a partir de autores como Theodor Adorno, Marilena Chauí, Michel Foucault, Walter Benjamin, Felix Guattari, Herbert Marcuse, Heloísa Buarque de Hollanda.

Participou da renovação das reflexões e dos estudos da área de História no Brasil entre os anos 1970 e 1990, nas quatro instituições superiores em que atuou, como estudante e como docente. Desenvolveu diversos projetos em sua atuação nos cursos de graduação e de pós-graduação em história da Unicamp, sobretudo no Centro de Pesquisa em História Social da Cultura-Cecult.[3] Foi orientador de nove dissertações de mestrado e de duas teses de doutorado, além dos trabalhos que estavam em pleno desenvolvimento e foram concluídos com apoio de colegas do departamento após seu falecimento.[2]

Sobre os debates e inovações historiográficas nos quais esteve diretamente envolvido na FFLCH-USP deixou um registro importante no artigo que elaborou sobre o historiador Carlos Alberto Vesentini, em 1990.[4] Alguns anos depois, as homenagens publicadas sobre Alcir Lenharo analisaram vários aspectos desse contexto acadêmico e da participação do historiador nessa renovação temática e metodológica na área de história.[5] As contribuições do historiador ao discutir o papel de dimensões estetizantes da política em diferentes contextos históricos, sobretudo em relação a momentos autoritários como o Estado Novo e o nazismo, têm sido avaliadas como fundamentais por seus pares. Seu último livro, sobre o meio artístico radiofônico no Brasil nos anos 1950, aprofundou análises sobre o papel da cultura na sociedade, considerando relações entre estética e política.

Uma sessão de resenhas foi dedicada especialmente ao historiador em 1997, publicada na revista Projeto História, reunindo homenagens de seis autores.[6] Um dossiê da revista Territórios e Fronteiras, "O legado de Alcir Lenharo", foi publicado em 2001, reunindo reflexões de ex-orientandos e colegas.[7] A Olimpíada Nacional de História do Brasil - ONHB, na edição de 2016 (ONHB8), utilizou um texto de Alcir Lenharo publicado na Sacralização da política, como texto acadêmico para análise das equipes olímpicas. Em 2023, as pesquisas sobre o meio artístico de cantores e cantoras do rádio, publicada em 1995, foi comentada pela historiadora Regina Horta Duarte na série Livros de Classe, episódio #38,[8] desenvolvido pelo Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Publicações do autor

Livros

Capa do livro Sacralização da política
Capa do livro Cantores do rádio
  • As tropas da moderação – o abastecimento da Corte na formação política do Brasil, 1808-1842. São Paulo: Edições Símbolo, 1979 (reedição Rio de Janeiro, RJ: Secretaria Municipal de Cultura/Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1993).
  • Crise e mudança na frente oeste de colonização: o comércio colonial de Mato Grosso no contexto da mineração. Cuiabá, MT: UFMT, 1982.
  • Colonização e trabalho no Brasil: Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste: os anos 30. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1986
  • Nazismo: "o triunfo da vontade". São Paulo, SP: Ática, 1986 (reedição até 2001).
  • Sacralização da política. Campinas: Papirus, 1986 (segunda edição, 1989).
  • Filhos Da Guerra. Holland A, Picchiarini R, Lenharo A. Fundação para o Desenvolvimento da Educação-FDE, 1995.
  • Cantores do rádio: trajetória de Nora Ney e Jorge Goulart e o meio artístico de seu tempo. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1995.
  • História. Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas-CENP, n.434. São Paulo, SP: Secretaria de Estado da Educação, 1993.
  • História. Coautoria de Alcir Lenharo. Argumento. Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas-CENP, n.434. São Paulo, SP: Secretaria de Estado da Educação, 1997.

Artigos

  • Rota menor: o movimento da economia mercantil de subsistência no centro-sul do Brasil, 1808-1831. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, Tomo XXVIII, 1978.
  • A marcha para o azul. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, n. Tomo XXXIII (1984), p. 7–16, 1984. DOI: 10.11606/1982-02671984TomoXXXIIIe1. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/anaismp/article/view/216147. Acesso em: 28 abr. 2024.
  • Luzes da cidade. Oculum, 1985, n.1, v.1, p. 50-55. Disponível em: https://periodicos.puc-campinas.edu.br/revistaoculum/article/view/13688. Acesso em 6 abr. 2025.
  • Estado Novo, Estado Velho - Novas direções historiográficas. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, n. Tomo XXXV, p. 7–13, 1987. DOI: 10.11606/1982-02671987TomoXXXVe1. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/anaismp/article/view/215546.. Acesso em: 28 abr. 2024.
  • A Civilização vai ao campo (Sindicalismo e cooperativismo rural a partir da década de 30). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, n. Tomo XXXIV, p. 7–19, 1985. DOI: 10.11606/1982-02671985TomoXXXIVe1. Disponível em: https://revistas.usp.br/anaismp/article/view/215868.. Acesso em: 28 abr. 2024.
  • Carlos Alberto Vesentini, historiador. Revista de História, São Paulo, n. 122, p. 117–127, 1990. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.v0i122p117-127. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/18623.. Acesso em: 5 abr. 2025.
  • Radiofonia e história. Fronteiras da História. Departamento de História da UFMG. p.3-10, 1991.
  • Fascínio e solidão: as cantoras do rádio nas ondas sonoras de seu tempo. Luso Brasilian Review, Univ. Wiscosin, v.30, 1, p.75-84, 1993.Disponível em: Fascínio e Solidão: As Cantoras do Rádio nas Ondas Sonoras do seu Tempo. Acesso em 11 mai 2025.
  • História e cotidiano: o lugar de uma categoria conceitual na pesquisa histórica. O tempo e o cotidiano na história. Fundação para Desenvolvimento da Educação, v. 18, p. 20-26, 1993.
  • República e corporativismo: dilemas da constituição da cidadania no Brasil. Anais da Semana Tiradentes Hoje: imaginário e política na República brasileira. p.177-189, 1994.

Publicações sobre o autor

  • Cunha, Maria Clementina. O afeto de um olhar para a história. Folha de S. Paulo, Caderno +mais!, domingo, 1 de setembro de 1996. Disponível em: Folha de S.Paulo - O afeto de um olhar para a história - 1/9/1996
  • Artigos reunidos no dossiê: O legado de Alcir Lenharo, em: Territórios e Fronteiras - Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFMT. v.2, n.2, jul-dez.2001
    • Albuquerque Jr., Durval Muniz. Íntimas histórias: a amizade como método de trabalho historiográfico.
    • Guimarães Neto, Regina Beatriz. Tempo e imagens: Alcir Lenharo e a história.
    • Duarte, Regina Horta. Caminhos de um historiador.
    • Volpato, Luiza Rios Ricci. A presença de Alcir Lenharo.
  • Artigos reunidos em: Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 14, 2012. Disponível em: A TRAJETÓRIA DE NORA NEY E JORGE GOULARTE E O MEIO ARTÍSTICO DE SEU TEMPO. Acesso em: 6 abr. 2025:
    • Simões, Ronaldo. HAI KAI.
    • Cunha, Maria Clementina. O afeto de um olhar para a história.
    • Borelli, Silvia Helena Simões. Sobre Alcir, para Alcir.
    • Honório Filho, Wolney. O historiador, a história e a cultura.
    • Pederiva, Ana Bárbara A. Trajetória de Nora Ney e Jorge Goulart e o meio artístico de seu tempo.
    • Rovai, Marta Gouveia de Oliveira. A manipulação dos desejos pela construção de imagens.
  • Resenhas de obras do autor:
    • Vieira, Maria Sulamita de Almeida. Cantores do Rádio: a trajetória de Nora Ney e Jorge Goulart e o meio artístico do seu tempo. Revista de Ciências Sociais, v. 25, n. 1/2, p. 163 a 165, 2020. Disponível em: http://www.periodicos.ufc.br/revcienso/article/view/43282. Acesso em: 11 maio. 2025.
    • De Moraes, A. K.; Castravechi, L. A. Aspectos econômicos da fronteira oeste do Brasil: uma revisão bibliográfica (séculos XVIII e XIX). Revista Cantareira, n. 18, 5 fev. 2019. Disponível em: ASPECTOS ECONÔMICOS DA FRONTEIRA OESTE DO BRASIL: uma revisão bibliográfica (séculos XVIII e XIX). Acesso em 11 maio. 2025.

Dissertações e teses orientadas pelo autor[9]

Na Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, SP:

Programa de Pós-graduação em História:

  • Pimentel, Thais Velloso Cougo. A Torre Kubitschek: trajetória de um projeto em 30 anos de Brasil. 1989 (mestrado)
  • Oliveira, Fátima Amaral Dias de. Trilha sonora: topografia semiótica paulistana nas canções independentes das décadas de setenta e oitenta. 1990 (mestrado)
  • Guillen, Isabel Cristina Martins. O imaginário do sertão: lutas e resistências ao domínio da Companhia Mate Larangeira (Mato Grosso: 1890-1945). 1991 (mestrado)
  • Meneguello, Cristina. Poeira de estrelas: o cinema hollywoodiano na mídia brasileira das décadas de 40 e 50. 1992 (mestrado)
  • Almeida, Maria de Fátima Ramos de. Uberlândia operária? Uma abordagem sobre as relações sociais em Uberlândia, 1950 a 1964. 1992. (mestrado)
  • Duarte, Regina Horta. Noites circenses: espetáculos de circo e teatro em Minas Gerais no século XIX. 1993. 2v. (doutorado)
  • Albuquerque Junior, Durval Muniz. O engenho anti-moderno: a invenção do Nordeste e outras artes. 1994 (doutorado)
  • Scarparo, Silvana Martos. A voz amiga em seu lar: análise das formas de relacionamento entre ouvintes e radionovelas em São Paulo nas décadas de 40 e 50. 1994 (mestrado)
  • Caes, André Luiz. Da espiritualidade familiar ao espírito cívico: a família nas estratégias de reestruturação da igreja (1890-1934). 1995 (mestrado)
  • Avancini, Maria Marta Picarelli. Nas tramas da fama: as estrelas do rádio em sua época áurea, Brasil, anos 40 e 50. 1996 (mestrado)
  • Silva, Ermínia. O circo: sua arte e seus saberes: o circo no Brasil do final do século XIX a meados do XX. 1996 (mestrado)
  • Silva, Silvia Cristina Martins de Souza e. Ideias encenadas: uma interpretação de "O demônio familiar", de José de Alencar. 1996 (mestrado)
  • Ribeiro, Aureo Eduardo Magalhães. As estradas da vida: história da terra, da fazenda e do trabalho no Mucuri e Jequitinhonha, Minas Gerais. 1997 (doutorado)

Faculdade de Educação Física:

  • Souza, Claudio Lucena de. Jogos infantis da cultura: uma avaliação da educação física escolar na 1a. fase do 1o. grau. 1994 (mestrado)

Menções ao autor na Wikimedia

Referências

  1. a b Dados biográficos e curriculares extraídos do dossiê Vida Funcional arquivado no Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp - SIARQ, sob o número 01-P-3990-1980-1-1. Consulta in loco feita em maio de 2025.
  2. a b c «Alcir Lenharo - Catálogo Histórico de Teses e Dissertações de História (1942-2000)». www.historiografia.com.br. Consultado em 5 de abril de 2025 
  3. «O Cecult | CECULT». www.cecult.ifch.unicamp.br. Consultado em 6 de abril de 2025 
  4. Lenharo, Alcyr (30 de julho de 1990). «Carlos Alberto Vesentini, historiador». Revista de História (122). 117 páginas. ISSN 2316-9141. doi:10.11606/issn.2316-9141.v0i122p117-127. Consultado em 5 de abril de 2025 
  5. «Folha de S.Paulo - O afeto de um olhar para a história - 1/9/1996». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 5 de abril de 2025 
  6. Simões; et al. (30 de junho de 1997). «Resenhas: Homenagens a Alcir Lenharo. Projeto História : Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História. v. 14 (1997): JAN./JUN. CULTURA E REPRESENTAÇÃO». revistas.pucsp.br. Consultado em 6 de abril de 2025. Cópia arquivada em 21 de abril de 2016 
  7. O legado de Alcir Lenharo, em: Territórios e Fronteiras - Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFMT. v.2, n.2, jul-dez.2001
  8. Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho-LEHMT/UFRJ (21 de novembro de 2023), Livros de Classe #38: Cantores do rádio, de Alcir Lenharo, por Regina Horta, consultado em 7 de abril de 2025 
  9. Dados baseados no acervo online do Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas - https://acervus.unicamp.br/