Alagados (canção)
"Alagados"
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| Single de Os Paralamas do Sucesso do álbum Selvagem? | |
| Lançamento | 1986 |
| Gênero(s) | Pop rock, reggae, juju, samba |
| Duração | 5:00 |
| Gravadora(s) | EMI Records |
| Produção | Liminha |
"Alagados" é uma canção escrita por Bi Ribeiro, João Barone e Herbert Vianna, os três membros do grupo Os Paralamas do Sucesso, para Selvagem?, o terceiro álbum da banda que foi lançado originalmente em 1986. A música foi classificada em 63º lugar na lista das 100 maiores músicas brasileiras publicada pela revista Rolling Stone.[1]
Informação
A canção faz um relato da dura realidade da vida nas favelas brasileiras, mais especificamente nas cariocas (como presenciado no verso "a cidade que tem braços abertos num cartão-postal"), durante o período da intensa crise socioeconômica que atingiu o país durante a década de 1980. No refrão, faz um paralelo desta realidade com a da favela de Trenchtown, na Jamaica, e da favela de Alagados, em Salvador, colocando-as num mesmo nível (também muito inspirados no universo de Jorge Amado). Como pano de fundo foram utilizadas as imagens desses grandes bolsões de miséria instalados em orlas paradisíacas existentes mundo afora, assim como a Favela da Maré, no Rio de Janeiro - a qual Herbert Vianna costumava passar em frente quando cursava arquitetura.[2] Esta escolha é proposital, justamente para mostrar o contraste entre as diferentes realidades em destaque a crítica às desigualdades sociais.[3] Isso é um reflexo da multiculturalidade da banda, que passou a observar mais a brasilidade ao invés do rock norte-americano, como vinha fazendo nos primórdios.[4] De modo que se tornou um ícone da denúncia social ao retratar a vida precária e invisibilizada nas periferias urbanas da América Latina e do Caribe: Alagados, em Salvador; Trenchtown, em Kingston (Jamaica); e a Favela da Maré, no Rio de Janeiro.[5]
A canção retrata a cidade do Rio de Janeiro como sendo um lugar com "punhos fechados" e que "nega oportunidades" a seus moradores mais pobres, enquanto que essa interpretação pode ser expandida para todo o País daquela época. Também é feita uma referência à popularização em massa dos aparelhos televisores naquele período, no verso "a esperança não vem do mar, nem das antenas de tevê". A canção mostra ainda como a fé do brasileiro numa melhoria de sua qualidade de vida parece ter acabado quase por completo durante essa época.
A canção traz influências de juju music e samba e traz a participação de Gilberto Gil e do percussionista Marçalzinho, que gravou um tamborim.[6][7] "Quando Herbert foi mostrar a letra da música para Bi e Barone, ele estava meio inseguro, porque parecia um samba e eles não tocavam samba. Então os três começaram a mexer com as possibilidades que a música dava e partiram para um caminho mais africano e acabaram encontrando um formato para “Alagados“."[8]
Análise da Letra
Na primeira estrofe, ele mostra que para as pessoas que vivem nessas condições sub-humanas, o amanhecer de um dia já é um grande desafio, pois o despertar lhes tira do mundo da fantasia (os sonhos) para as suas duras e miseráveis realidades, aqui exemplificadas por palafitas, trapiches e farrapos. Além, é claro, dos filhos (nestes conglomerados, invariavelmente, a quantidade de crianças é imensa, sendo estas as principais vítimas do descaso).
Na segunda estrofe, para fixar a insensibilidade das autoridades, Herbert usou uma imagem forte: a figura do Cristo Redentor de braços abertos, tão explorada pelos governantes do Rio de Janeiro como um símbolo de acolhimento, na verdade é uma falácia, pois a triste realidade daquelas pessoas mostra que a cidade (a sociedade), além de não acolhê-las, abandonou-as à própria sorte.
O trecho “a esperança não vem do mar, NEM das antenas de TV” garante que a resolução daqueles problemas não virá por qualquer uma dessas opções.
Assim, percebemos que ele usa o refrão para, além da crítica social, também fazer um alerta àquelas pessoas: se elas quiserem realmente que a justiça social lhes seja feita, elas têm que ir à luta, pois a esperança de justiça tão esperada não virá daquele mar à sua frente (uma eventual referência ao Sebastianismo?), muito menos virá por intermédio das antenas de TV (a televisão, proposta como um meio de informação e comunicação é também, sabemos, um mundo de fantasias), ou seja, nada do que almejam cairá do céu.
Nos dois últimos versos ele demonstra que é necessário ter fé (a arte de viver baseia-se nela), assim como o seu ceticismo em relação às autoridades e à burguesia (só não se sabe fé em quê).
Em “Alagados”, assim como em outras canções do período, a banda critica a situação de desumana de desigualdade social, realidade que ainda em 2025 não é muito diferente - de acordo com integrante João Barone: "Várias músicas são atemporais. E mesmo algumas que contextualizam os anos 80/90, infelizmente seguem atuais, com muitas de nossas mazelas ainda iguais.”[9]
Videoclipe
O videoclipe de "Alagados", o primeiro da banda, foi lançado em 1986 programa semanal "Fantástico", da TV Globo.Foi idealizado por Roberto Berliner, cinegrafista considerado como o "quarto paralama", por acompanhar a banda em toda a sua trajetória.[10]
Em sintonia com a letra, mostra cenas de moradias em condições irregulares, catadores de lixo, vendedores ambulantes e moradores de rua. Mostra também os integrantes da banda percorrendo o cenário das favelas do Rio de Janeiro e até sendo revistados por policiais - recebendo o famoso "baculejo".
Em entrevista o diretor relatou o processo de filmagem que permitiu obter esses cenários tão marcantes em cena: "Os Paralamas [do Sucesso] viram o programa que eu fiz da Dulce Quental e me chamaram para fazer o primeiro clipe deles, o Alagados (1986), primeiro clipe do LP Selvagem. Foi uma virada na carreira deles. Porque é com Alagados que eles chegam pra valer no Brasil, começam a fazer sucesso e a olhar para o Brasil. O Alagados é um disco que tem muita influência africana e brasileira e aí eu falo: “esse disco é muito brasileiro. O clipe vai ser um documentário”. A gente então vai pro Morro de São Carlos, no Estácio, pro baile funk, pra Vila Mimosa, isso em 1986. É um clipe documentário, coisa que ninguém fazia. Filmei com a câmera na mão, bem raíz brasileira, ligado numa coisa de cinema de terceiro mundo".[11]
Referências
- ↑ «Cópia arquivada». Consultado em 11 de fevereiro de 2013. Arquivado do original em 19 de outubro de 2013
- ↑ «Livro detalha disco de críticas sociais que se tornaram hits dos Paralamas do Sucesso». CartaCapital. 12 de agosto de 2023. Consultado em 24 de novembro de 2025
- ↑ Sousa, Wilgner Brenner Lira (2023). «"Somos o futuro da nação": cultura juvenil e rock no Brasil nos anos 80 (1983-1989)». Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Nolla, Lívia (13 de junho de 2025). «História da música "Alagados", dos Paralamas do Sucesso». Novabrasil. Consultado em 24 de novembro de 2025
- ↑ Silva, Raniery Soares da (16 de julho de 2025). «Alagados, trenchtown, favela da Maré - a esperança vem da educação pública: a experiência do C.E. Professor João Borges de Moraes na Maré/Rj». Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ «Paralamas revisitam marco de sua história em show que celebra hoje os 25 anos de 'Selvagem?'». O Globo. 29 de outubro de 2011. Consultado em 29 de novembro de 2024
- ↑ «G1 – Música – Antonio Carlos Miguel » Pará pop » Arquivo». g1.globo.com. Consultado em 29 de novembro de 2024
- ↑ Nolla, Lívia (13 de junho de 2025). «História da música "Alagados", dos Paralamas do Sucesso». Novabrasil. Consultado em 24 de novembro de 2025
- ↑ «Paralamas celebram quatro décadas revisitando trajetória e a força dos clássicos». Jornal de Brasília. Consultado em 24 de novembro de 2025
- ↑ Lima', 'Irlam Rocha (4 de abril de 2021). «Paralamas é tema de documentário que acompanha 40 anos de trajetória». Diversão e Arte. Consultado em 24 de novembro de 2025
- ↑ França, Andréa Martins (janeiro–junho de 2022). «O documental e o vídeo na trajetória de Roberto Berliner: "quase virei correspondente de guerra"». Significação. 48 (56)