Adriano Viégas da Cunha Lucas

Adriano Viégas da Cunha Lucas (Coimbra, 16 de junho de 1883 Coimbra, 17 de dezembro de 1950) foi um jornalista e

Adriano Viégas da Cunha Lucas
Nascimento
6 de junho de 1883
Morte
17 de dezembro de 1950
ResidênciaCoimbra
NacionalidadePortuguês
OcupaçãoJornalista e Político

político português, mais conhecido por ser o fundador do Diário de Coimbra.[1]

Vida Pessoal

Adriano Lucas nasceu a 16 de junho de 1833, em São Bartolomeu, bairro do município de Coimbra. Filho de Francisco Rodrigues da Cunha Lucas e de sua esposa, Maria Theresa Abranches Fazenda Viegas da Cunha Lucas.[2][3]

Adriano acabou por crescer numa família numerosa, tendo mais três irmãos, sendo eles, António Lucas Fazenda Viegas, Agostinho Viegas da Cunha Lucas e Laura Adelaide Viegas de Abranches Lucas de Andrade. A 21 de outubro de 1883, é batizado na Igreja Paroquial de São Bartolomeu, em Coimbra.[3]

Mais tarde, casou, pela primeira vez a 18 de novembro de 1936, em Coimbra, com Georgette Pinto Borges Viegas da Cunha Lucas (18981990), com quem veio a ter dois filhos: Branca Maria da Cunha Lucas (1923–2000) e Adriano Mário da Cunha Lucas. No entanto, divorciou-se da mãe dos seus filhos e casou pela segunda vez com Maria Emílio Brito Ferreira.[3]

Veio a falecer a 17 de dezembro de 1950, aos 67 anos, em Coimbra.[2][3]

Carreira

Ao longo da sua vida atuou em diversos campos, desde criar o jornal mais antigo de Portugal até participar em sociedades económicas como a Sociedade Industrial Taveirense.

Em acréscimo, inaugurou o Café Santa Cruz, um Café-Restaurante com uma projeção nacional de referência, procurando “respeitar o traçado original”, que se havia perdido com o uso, na sua cidade natal.[2]

Além disso, fundou a Sociedade de Mercearias que, mais tarde, passou a designar-se Farinhas Limitada Fábricas Triunfo (1923), bem como a Auto-Industrial (1920). Estas duas fábricas tornaram-se, ao longo do século XX, as empresas com maior volume de negócios e as que mais emprego geravam em Coimbra. [4]

Entre 1920 e 1930, Adriano dedicou-se à criação de várias empresas em Coimbra e na região.

Fábricas Triunfo

As Fábricas Triunfo, fundadas por Adriano Viegas da Cunha Lucas e Mário Pais, a 1 de fevereiro de 1913, foram uma das maiores empresas de Coimbra em volume de negócios e uma das maiores empregadoras. Antes da revolução do 25 de Abril, as Fábricas Triunfo foram um dos principais pontos geradores de emprego na cidade. [4]

A fábrica era composta por três unidades distintas que se dedicavam à produção de bolachas, massas, rebuçados, drops, ração animal e arroz. Esta tinha delegações no Porto, Abrantes e Faro. [4]

A 8 de dezembro de 1938, uma das unidades sofreu um dos maiores incêndios ocorridos naquela zona, alastrando-se por todas as Fábricas Triunfo, à exceção da fábrica de moagem que se encontrava nas traseiras do edifício. O incêndio provocou grandes prejuízos: “o segundo cofre dos escritórios das fábricas, que continham importantes documentos e 60 contos em notas do Banco de Portugal. Tanto o dinheiro como os documentos ficou tudo inutilizado.”[5] Na década de 50, a fábrica foi transferida para a Zona Industrial, sendo as antigas instalações demolidas em 2004. [6]

Após 70 anos em função, a Fábrica de bolachas Triunfo, a última em funcionamento até então, fecha as portas em 2001, levando várias pessoas ao desemprego. Em 2025, as bolachas Triunfo ainda perduram na memória dos mais velhos, sendo um grande sucesso nos anos 70.[4]

Auto Industrial, Lda.

Adriano Viégas da Cunha Lucas, juntamente com o Dr. Abel Pereira Andrade, Augusto Luiz Martha, José Correia Amado e o Dr. Mário Raul Leite Santos, fundaram, a 20 de dezembro de 1920, a Auto Industrial, em Coimbra, que, em conjunto com as Fábricas Triunfo, se tornou um grande sucesso.[7]

Nessa década, era uma sociedade por quotas com um capital social de 250 mil escudos, sendo pioneira no setor industrial em Portugal. Continua a ser reconhecido, até novembro de 2025, como “um importante grupo empresarial que está presente em diversas áreas de atividade”[8], representado várias marcas de automóveis, como Alfa Romeu, BMW e Mercedes.

Vida no ramo do jornalismo

Uma das mais marcantes contribuições de Adriano Viégas da Cunha Lucas foi a criação do Diário de Coimbra, a 24 de maio de 1930, sendo este o jornal diário mais antigo de Portugal e um dos mais antigos da Europa.[2]

Assim como o seu fundador, o diário tem raízes da Revolução Francesa, valorizando o Liberalismo e as suas vertentes, sendo, naturalmente, contra qualquer regime ou ideal autoritário, nomeadamente o fascista.[2]

Além disso, foi símbolo da luta a favor da descentralização do poder nacional e da defesa da criação da Região das Beiras, uma vez que Adriano Lucas tinha como lema, durante a criação do jornal e a sua direção, “caminhar em frente, sempre num ritmo acelerado, em defesa dos interesses da cidade e das Beiras”[2].

Ainda, o Diário de Coimbra integra outros diários, nomeadamente, o Diário de Aveiro, Diário de Leiria e Diário de Viseu, tornando-se, assim, o principal grupo de imprensa da região das Beiras.[9]

O jornal e o seu fundador, embora tenham continuado assentes no modelo clássico, baseado, sobretudo, na impressão em papel, foram acompanhando as evoluções tecnológicas ao longo dos tempos. Além disso, o jornal foi crescendo e passou a marcar presença em várias plataformas online. Assim, mesmo após a morte do fundador, o jornal expandiu-se para as redes sociais.

O jornalista controlou todas as atividades no grupo jornalístico durante 20 anos, desde a sua fundação, a 24 de maio de 1930. No entanto com a sua morte, em 1950, o filho mais novo assumiu a liderança do jornal, gerindo todos os trabalhos do mesmo até à sua morte em 2011. Contudo, o jornal continua na mão da família à data de 2025, mais especificamente ao encargo do neto Adriano Callé Lucas.[2]

O trabalho de Adriano Mário Lucas, depois de assumir a direção do jornal fundado pelo pai, foi posteriormente reconhecido pela Câmara Municipal de Coimbra, que criou, em parceria com a Universidade de Coimbra, o Prémio de Jornalismo Adriano Lucas, a 4 de abril de 2011. O prémio em questão tem como objetivo incentivar e promover os trabalhos na área do jornalismo, com maior destaque no género reportagem.[10]

Em 1997, em homenagem a Adriano Lucas, a Câmara Municipal de Coimbra deu o nome à rua onde se localizava o edifício do Diário de Coimbra: Rua Adriano Lucas.[11]

Obstáculos na atuação jornalística

O Diário de Coimbra tinha como princípio a defesa dos valores de liberdade e de democracia, porém, no período do Estado Novo, a resistência do jornal de Adriano Lucas viu-se desafiada.[2]

No aniversário de 90 anos do jornal, a direção afirmou que o mesmo foi alvo de diversas armadilhas por parte da PIDE e da censura. Apesar das adversidades, manteve-se firme, permanecendo dedicado a Coimbra e à Região das Beiras.[12]

Um dos artigos publicados no jornal, intitulado de “Max e o Trapézio Voador”, encadeou o maior confronto entre as duas entidades[13]. A história falava sobre a morte de um artista circense devido a más condições de trabalho, porém o seu chefe não compareceu ao funeral. O regime considerou o artigo como uma ofensa, afirmando que Max representava o reitor Maximino Correia e o mestre do circo Salazar.

Após a publicação, o governo salazarista impôs uma suspensão de 20 dias e ordenou a substituição do diretor, levando à suspensão das atividades do diário por um período de um ano, desde 7 de julho de 1945 a 11 de julho de 1946. Esta foi considerada a mais rigorosa punição imposta a um diário português e ao seu diretor.[2]

Campanhas jornalísticas

Adriano Lucas tinha como objetivo no Diário de Coimbra “a defesa do cidadão e das minorias.”[14]

Este ideal era visível através de diversas campanhas públicas que saíam em defesa da população. Em 1932, após um naufrágio na Figueira da Foz, o diário reuniu um grupo de estudantes para angariar doações para os pescadores, conseguindo oito contos. Em 1974, foram recolhidas 15 mil assinaturas para ajudar os desfavorecidos, pondo fim aos perigosos trilhos do comboio de Coimbra.[2][15]

Vida Política e Económica em Coimbra

Político na cidade de Coimbra

Adriano Lucas, antes de fundar o Diário de Coimbra, dedicou-se a uma vida política ativa. Foi vereador antes e depois da Primeira República (1926).[16]

A sua assinatura é encontrada em diversas partes das Atas da Câmara de Coimbra, das diversas sessões extraordinárias, onde resolvia problemas e fazia propostas para a autarquia em conjunto com outros políticos.[17]

A 1 de março de 1923, tomou posse como secretário e vereador na comissão executiva da Câmara de Coimbra[18]. Este mostrou-se presente como vereador em várias reuniões, como a sessão extraordinária municipal de Coimbra, a 28 de dezembro de 1923.

Economista na cidade de Coimbra

Banco Comercial das Beiras

O Banco Comercial das Beiras foi mais um dos projetos de Adriano Viégas Lucas, desenvolvido em conjunto com outros comerciantes e empresários da região, que visavam a criação de uma instituição bancária, que concretizasse as necessidades de financiamento da indústria e do comércio local. Este projeto recebeu aprovação do Conselho Bancário no dia 18 de novembro de 1930, consolidando a sua sede em Coimbra.[19]

Porém, a execução deste empreendimento ficou comprometida, devido a “inúmeras dificuldades na concretização do capital estabelecido, organização e prossecução dos objectivos iniciais”.[19]

Café Santa Cruz

O simbólico Café Santa Cruz, situado na Praça 8 de Maio, em Coimbra, prestou homenagem aos seus fundadores, nomeadamente Adriano Viégas da Cunha Lucas, Adriano Ferreira da Cunha e Mário Pais e a todos os restantes sócios-gerentes. Essa homenagem foi conservada na “Mesa dos Gerentes”[20], onde estão gravados os nomes e assinaturas de todos os participantes na fundação do café.

Antes da sua inauguração, o local onde se situa o café, no coração de Coimbra, era ocupado por um edifício religioso, a Igreja de S. João de Santa Cruz, construída em 1530, no Mosteiro de Santa Cruz.

Adriano e os restantes fundadores do café enfrentaram alguns contratempos relativamente à alteração da fachada do antigo edifício de carácter religioso, uma vez que a Câmara Municipal de Coimbra não aprovava a ideia de requalificação urbana.

Este espaço foi inaugurado no dia 8 de maio de 1921. Desde então, o Café Santa Cruz tornou-se um marco cultural da cidade de Coimbra, organizando diversos eventos culturais e até encontros políticos. Ademais, é sede da Associação Portuguesa dos Cafés com História, que, a partir de 2015, inclui toda a gestão e dinamização da Rota dos Cafés com História de Portugal.[21]

Até novembro de 2025, o estabelecimento já não se encontra sob a tutela da família de Adriano Lucas, que o manteve até 1970 e que, posteriormente, o vendeu à família do atual gerente, Vítor Lucas.[22]

Referências

  1. O Diário de Coimbra faz 95 anos. (2025, Maio 24). Diário De Coimbra: O Seu Jornal De Notícias De Coimbra. Consultado a novembro 17, 2025, de <https://www.diariocoimbra.pt/2025/05/24/o-diario-de-coimbra-faz-95-anos/>
  2. a b c d e f g h i j Diário de Coimbra, Adriano Lucas - O decano da imprensa portuguesa (Documento no Issuu), Issuu, Consultado a 17 de Novembro https://issuu.com/diariodecoimbra/docs/alucas-60_anos
  3. a b c d Adriano Viegas da Cunha Lucas. Family Search. consultado a 17 de novembro de 2025. https://ancestors.familysearch.org/pt/LYLY-VBP/adriano-viegas-da-cunha-lucas-1883-1950
  4. a b c d José Augusto Leite, Fábricas Triunfo, Restos de Coleção (2011). Consultado a 13 de novembro de 2025. https://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/02/fabricas-triunfo.html
  5. Incêndio de Coimbra, Diário de Lisboa (1938). 05764.028.07118 (5767). P.2. Consultado em 13 de novembro de 2025. http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=05764.028.07118#!2
  6. Rafael Matos. Encerramento da Fábrica da Triunfo em Coimbra. Shorthand. Consultado em 13 de novembro de 2025. https://jornalismofluc.shorthandstories.com/media-project-proposal-fashion/index.html
  7. José Augusto Leite. Auto Industrial. Restos de Coleção (2013). Consultado em 13 de novembro de 2025. https://restosdecoleccao.blogspot.com/2013/02/auto-industrial.html
  8. Grupo Auto-Industrial: Pioneiro no Sector Automóvel. Grupo Auto Industrial. Consultado a 13 de novembro de 2025. https://www.grupoautoindustrial.pt/sobre/quem-somos/
  9. Estatuto Editorial, Universidade de Coimbra, Consultado em 17 de novembro, https://www.uc.pt/fluc/dfci/pdfs/estatuto_editorial
  10. RTP, Autarquia de Coimbra cria Prémio de Jornalismo de Investigação “Adriano Lucas”, RTP Notícias, (2011, 7 de outubro). Consultado a 17 de Novembro, https://www.rtp.pt/noticias/pais/autarquia-de-coimbra-cria-premio-de-jornalismo-de-investigacao-adriano-lucas_n486299
  11. ACTA DA REUNIÃO ORDINÁRIA DA CÂMARA MUNICIPAL DE COIMBRA. Local: Sala das Sessões dos Paços do Município PERÍODO DE ANTES DA ORDEM DO DIA INTERVENÇÃO DOS MEMBROS DO EXECUTIVO. Intervenção do Senhor Presidente Intervenção dos Senhores Vereadores ORDEM DO DIA. (n.d.). consultado a 17 de novembro de 2025. p.11 intervenção do vereador António Vilhena. <https://www.cm-coimbra.pt/wp-content/uploads/2011/09/Acta0404.pdf>
  12. Paulo Novais. "Diário de Coimbra assinala 90 anos e apela a leitores e anunciantes para ajudarem na sobrevivência". Observador. Consultado a 17/11/2025. https://observador.pt/2020/05/24/diario-de-coimbra-assinala-90-anos-e-apela-a-leitores-e-anunciantes-para-ajudarem-na-sobrevivencia
  13. Carlos Ferrão. "Diário de Coimbra". Blog "As Tias Camelas". Data de consulta 17/11/2025. https://astiascamelas.blogspot.com/2022/05/diario-de-coimbra.html
  14. Diário de Coimbra. "Diário de Coimbra Memórias 90 anos". Issuu. Data de consulta 17/11/2025. https://issuu.com/diariodecoimbra/docs/di_rio_de_coimbra_-_mem_rias_90_anos
  15. "Diário de Coimbra assinala 90 anos de existência. Parabéns!". Notícias de Coimbra. Data de consulta 17/11/2025. https://www.noticiasdecoimbra.pt/diario-de-coimbra-assinala-90-anos-de-existencia-parabens/#goog_rewarded
  16. Armando Malheiro da Silva, Sidónio e Sidonismo: vol. I história de uma vida, Coimbra University Press (2006). p. 189, 2º parágrafo. 9789728704537, 9789892604718, 9728704534, 9892604717. Consultado em 17 de novembro de 2025.
  17. Arquivo Digital da Câmara Municipal de Coimbra _ “Atas da Câmara, 1923-1924” Câmara Municipal de Coimbra. (n.d.). Atas da Câmara, 1923-1924 (13 de dezembro de 2021; p. 62). Arquivo Digital da Câmara Municipal de Coimbra. Consultado a 16 de novembro de 2025. <https://arquivodigital.cm-coimbra.pt/XarqDigitalizacaoContent/Documento.aspx?DocumentoID=490441&AplicacaoID=1>
  18. Arquivo Digital da Câmara Municipal de Coimbra _ “Atas da Câmara, 1923-1926” Câmara Municipal de Coimbra. (n.d.). Atas da Câmara, 1923-1926 (13 de dezembro de 1921; p. 42 [p. 40 da ata]). Arquivo Digital da Câmara Municipal de Coimbra. Consultado a 16 de novembro de 2025. <https://arquivodigital.cm-coimbra.pt/XarqDigitalizacaoContent/Documento.aspx?DocumentoID=490440&AplicacaoID=1>
  19. a b Banco de Portugal, Banco Comercial das Beiras, Consultado a 17 de novembro, https://www.bportugal.pt/arquivo/details?id=17418
  20. Redação de Coimbra, Nomes de sócios desde 1923 gravados em mesa no Café Santa Cruz, Diário de Coimbra, Consultado a 17 de novembro, https://www.diariocoimbra.pt/2025/10/08/nomes-de-socios-desde-1923-gravados-em-mesa-no-cafe-santa-cruz/
  21. Comércio com História, Café Santa Cruz, Consultado a 14 de novembro, https://www.comerciocomhistoria.gov.pt/listings/cafe-santa-cruz-4174/
  22. Arquivo do Café Santa Cruz, Café Santa Cruz, Consultado a 17 de novembro, https://cafesantacruz.com/impressaarquivo/