Acervo Bajubá
O Acervo Bajubá é um arquivo comunitário LGBTQIAPN+ localizado em São Paulo, Brasil. Criado em 2010, o projeto tem como objetivo preservar e compartilhar memórias das comunidades de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, pessoas trans, queer, intersexo, assexuais, pansexuais e outras dissidências sexuais e de gênero.[1] O acervo conta hoje com mais de 20.000 itens, tendo a maior parte sido doada por indivíduos LGBTQIAPN+ e ONGs. O acervo abrange uma ampla variedade de itens efêmeros: revistas nacionais gays e travestis, zines, panfletos de festas, livros raros, literatura lésbica, roupas de crossdressing, DVDs pornográficos, pôsteres políticos e sobre HIV/AIDS e materiais audiovisuais.[2] O nome faz referência ao pajubá, dialeto de origem afro-brasileira que se popularizou entre pessoas LGBTQIAPN+ e que está associada à troca de notícias, segredos e formas de resistência cultural, utilizado principalmente por travestis.[3]
História
A iniciativa surgiu em 2010 a partir da reunião de materiais ligados à memória LGBTQIAPN+ iniciada pelo pesquisador Remom Bortolozzi.[2] Remom e seu companheiro na época, Felipe Areda, iniciaram um processo de aquisição de obras de arte, livros, periódicos, LPs e CDs produzidos por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais brasileiras, ou mesmo materiais com a temática da diversidade sexual e a pluraridade de expressões de gênero no Brasil.[4] A escolha do termo coleção em vez de arquivo é intencional. Remom e Felipe consideravam que enquanto o arquivo é “historicista e nomológico” e busca estabelecer interpretações totalizantes, o colecionador abraça a natureza fragmentária e incompleta de seu acervo, motivado pela expectativa de uma nova descoberta que possa transformar o todo.[4][5]
Em 2017, a coleção mudou-se de Brasília para São Paulo, onde fez parceria e foi hospedada por uma série de organizações independentes, incluindo a Casa 1, um espaço cultural e de acolhimento LGBTQIAPN+, de 2019 a 2021. Depois, em 2022, mudou-se para o Grupo de Incentivo à Vida (GIV), uma organização civil que defende as pessoas que vivem com HIV/Aids na Vila Mariana.[3] A partir de 2025, as coleções foram transferidas para um espaço de escritório dedicado na Santa Efigênia, centro de São Paulo, embora a coleção de livros permaneça no GIV. O acervo é apoiado pelo trabalho de diversos voluntários e é coordenado pelas pesquisadoras e ativistas Natan Angel e Yuri Fraccaroli.
Acervo
O Bajubá reúne atualmente cerca de 20 mil itens em diferentes formatos, como livros, revistas, jornais, fanzines, panfletos, cartazes, fotografias e registros audiovisuais.[3] Parte do acervo também é formada por documentos pessoais, cartas, testemunhos e doações da própria comunidade.[1] O conjunto traz registros importantes da história e da cultura LGBT no Brasil, especialmente a partir da segunda metade do século XX.[1][2] Entre os itens preservados, destacam-se obras literárias, estudos acadêmicos, revistas especializadas e publicações pornográficas, que ajudam a compreender aspectos culturais e políticos da história da população LGBT no Brasil.[1]
Um dos destaques é o raro conjunto completo de todas as 38 edições impressas do Lampião da Esquina, um jornal homossexual marcante publicado entre 1978 e 1981, durante a gradual “abertura” da ditadura militar brasileira. Com uma tiragem de aproximadamente 15.000 exemplares, o Lampião fazia parte da imprensa alternativa do país. Por meio de suas manchetes irônicas, estética exagerada, layouts de página não convencionais e justaposição de imagens sensacionalistas e eróticas, o jornal aborda questões de repressão política e direitos civis que dizem respeito não apenas aos homens gays, mas também às pessoas trans, lésbicas, mulheres, negros e comunidades indígenas.[6]
Atividades
Além de trabalhar na preservação de documentos e outros itens importantes para a história LGBTQIAPN+, o acervo também promove atividades educativas e culturais, tais como:
- Memorial incompleto da epidemia de Aids (2021–2023), que reúne histórias de pessoas afetadas pela epidemia de HIV.[1]
- Podcasts, como Passagem só de ida (2021), sobre migrações LGBT para São Paulo, e Palanque (2022), sobre a presença de pessoas LGBT na política.[1]
- Publicações coletivas, como Poéticas de vida – escritas de si(da) (2022), Não parecem sentir vergonha (2022) e Tudo que deixei de dizer em voz alta (2023).[1][3]
- Exposições, como Porta de Boate (2023), dedicada à memória do transformismo em São Paulo.[2]
- Arquivo transformista (2025), acervo digital público e gratuito dedicado à arte transformista em São Paulo.[7]
O Bajubá também organiza oficinas, mutirões de catalogação e projetos de criação coletiva em parceria com artistas, educadores e pesquisadores.[1][8]
Abordagem
O projeto entende o arquivo não apenas como um depósito de documentos, mas um espaço vivo de produção de memória e conhecimento de corpos no presente.[2] Sua atuação busca valorizar diferentes formas de contar histórias, combinando práticas de arquivamento com oficinas de escrita, gravação de relatos, ações performáticas e exposições.[3][2]
Ver mais
Referências
- ↑ a b c d e f g h «Acervo Bajubá». Cadastro Nacional de Museus. Consultado em 2 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e f Fraccaroli, Yuri (2023). «The archive and the cafezinho: challenging (disembodied) histories by embodied archival experiences at Acervo Bajubá, an LGBT+ community archive in Brazil». Gender & Development. 31 (2–3): 535–556. doi:10.1080/13552074.2023.2249765
- ↑ a b c d e Fraccaroli, Yuri; Natan, Angel (2025). «Escapar del mercadão da memoria: las apuestas de Acervo Bajubá, un archivo LGBTQIAPN+ brasileño». Memorias Disidentes. 2 (3): 251–260. ISSN 3008-7716. Consultado em 2 de outubro de 2025
- ↑ a b Bortolozzi, Remom Matheus; Areda, Felipe (2017). «Nosso Caos, Nosso Cosmos: Notas sobre a Memória e a Cultura LGBT Brasileira». UniLetras (2): 157–173. ISSN 1983-3431. doi:10.5212/uniletras.v39i2.9820. Consultado em 20 de novembro de 2025
- ↑ Altmayer, Guilherme (8 de janeiro de 2026). «Bajubá Collection: São Paulo, Brazil, acervobajuba.com.br . Accessed October 2025». Design and Culture (em inglês): 1–4. ISSN 1754-7075. doi:10.1080/17547075.2025.2605022. Consultado em 18 de janeiro de 2026
- ↑ Altmayer, Carlos Guilherme Mace (18 de outubro de 2022). Tropicuir:. Col: Prêmio CTCH. Rio de Janeiro, RJ: Numa Editora
- ↑ «Arquivo Transformista». Arquivo Transformista. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Acervo Bajubá participa do projeto Percursos Curatoriais». Memorial da Resistência de São Paulo. Consultado em 2 de outubro de 2025