Abílio Mendes

Abílio Mendes
Nascimento10 de abril de 1911
Maia
Morte4 de junho de 1992 (81 anos)
Lisboa
Nacionalidadeportuguesa
CidadaniaPortugal
ParentescoPai dos médicos Jaime Mendes e Abílio Mendes e do cantor Carlos Mendes
Alma materFaculdade de Medicina da Universidade do Porto e Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Ocupaçãomédico pediatra, puericultor, pedagogo, pesquisador e político

Abílio da Costa Mendes Júnior GOL (Maia, 10 de abril de 1911 – Lisboa, 4 de junho de 1992) foi um médico pediatra e político português. Opositor do «Estado Novo», entre 1931 e 1937, enquanto aluno da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, teve participação ativa no movimento associativo estudantil que liderou. Devido ao seu posicionamento político foi impedido pelo regime de entrar nas carreiras públicas médica hospitalar e da docência universitária, no entanto, destacou-se no setor privado como pediatra, puericultor, pedagogo e pesquisador. Foi membro ativo do MUD (Movimento de Unidade Democrática), da ASP (Acção Socialista Portuguesa), e, em 1973, fundador do Partido Socialista. Após a «revolução dos cravos», foi candidato a deputado à Assembleia Constituinte e presidente da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos.

Biografia

Formação e liderança estudantil

Após concluir a 4.ª classe foi, por influência da sua professora primária junto da família, matriculado na “Escola Mouzinho da Silveira”, onde se ministrava o ensino geral, bem como o curso preparatório do exame de admissão ao Instituto Industrial. Isto com o intuito de seguir engenharia. Todavia, aos 14 anos, com determinação, mudou o rumo dos estudos para seguir medicina, em vez de engenharia. Nesse sentido, matriculou-se no Colégio Almeida Garrett, no Porto, onde completou o liceu. E, em 1931, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, coincidindo com momentos políticos agitados, logo iniciou uma intensa atividade no movimento associativo estudantil[1][2].

Eleito delegado de curso no ano escolar de 1932-1933, participou numa greve geral, com forte adesão, em que morreu um estudante, e sofreu, pela primeira vez, a violência policial do regime do «Estado Novo»[1][2].

Fez parte da direção da Associação de Estudantes de Medicina do Porto e, juntamente com Almerindo Lessa (1909-1995), participou na revista universitária Germen[3][1][2].

Nessa época, Abílio Mendes foi ainda chefe de redação do Jornal da Maia (concelho de onde era natural) dirigido por António Macedo [1][2].

Em 1934, resolveu ir para a capital terminar a sua licenciatura, que concluiu em 1937, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, então sita no Campo de Santana, sendo eleito, em Assembleia-geral, diretor da revista Medicina, que se tornou na época um jornal de ciência, arte e humanismo e órgão da Associação de Estudantes, onde colaboraram grandes mestres da medicina entre os quais Augusto Celestino da Costa, Veloso Pinho e Abel Salazar, lugar que só viria a abandonar após a licenciatura, altura em que a publicação foi suspensa por decisão da Mocidade Portuguesa [1][2].

Abel Salazar (1889 – 1946) que tinha sido seu professor de histologia, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, com quem manteve assídua correspondência em 1935 e 1936[4][5][6][2][7].

Pertenceu ao «Bloco Académico Antifascista» como representante da faculdade de medicina, onde se relacionou com jovens ativistas que viriam a ser personalidade notáveis como Adolfo Casais Monteiro, Álvaro Cunhal e Mário Dionísio[1][2].

Face à sua liderança do movimento associativo estudantil esteve para ser expulso da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, por proposta do ministro da educação, quando apenas lhe faltava uma cadeira para terminar o curso[1][2].

Atividade profissional

Após concluir a sua licenciatura em medicina, o início da sua vida profissional coincidiu com a Guerra Civil Espanhola e internamente com um período de enorme repressão aos que, como era o seu caso, lutavam contra o fim do «Estado Novo». Assim, concorreu, por duas vezes, aos Hospitais Civis tendo ficado sempre classificado entre os primeiros, o que lhe permitiria a admissão imediata na carreira hospitalar, mas foi, no entanto, excluído por decisão ministerial, o que o impediu de entrar não só na carreira médica hospitalar, mas também na carreira da docência universitária[1][2].

Desta feita, viu-se obrigado a fazer a sua formação de pediatra, primeiro no Hospital de Santa Maria e depois no Hospital de Dona Estefânia, em regime de voluntariado, tendo sido posteriormente convidado pelo professor Carlos Salazar de Sousa para Assistente livre de pediatria. Sempre impedido pelo regime de entrar nos quadros destes hospitais, neles dedicou muitos anos da sua vida profissional sem qualquer remuneração[1][2][8][9].

Abílio Mendes, apesar dos constrangimentos a que foi sujeito, conseguiu pela sua tenacidade, competência e brilhantismo angariar elevado reconhecimento nacional ao desenvolver a sua actividade em consultas domiciliárias e nos consultórios privados, primeiro na Travessa do Calado e depois na Avenida António Augusto de Aguiar, onde mais tarde também trabalharam os seus dois filhos Abílio e Jaime, médicos pediatras como ele, e por ali passaram muitos milhares de crianças. Como clínico pediatra defendeu a necessidade da interação mãe/recém-nascido, considerando como fundamental a amamentação. Para além de ter sido um pediatra eminente, foi também um puericultor, pedagogo e pesquisador. Publicou vários artigos da especialidade em jornais, caso do Diário de Lisboa, República e Diário Popular, e em revistas de pediatria nacionais e internacionais, sendo de destacar o seu estudo: Tumores vasculares: hemangiomas e linfangiomas; seu tratamento esclerosante pelo citrato de sódio, dado a grande repercussão que teve pelo êxito dos seus resultados terapêuticos[1][2].

Em finais da década de 1950, foi convidado pela administração da Companhia Nacional de Electricidade (CNE) para organizar toda a parte de assistência infantil nos Serviços Médicos da Companhia, mais tarde Electricidade de Portugal (EDP), tendo colaborado também no boletim do clube do pessoal, onde publicou variadíssimos artigos de puericultura, subordinados ao tema «A criança e o seu desenvolvimento»[1][2].

Atividade política e outra

Quando era ainda estudante universitário, ingressou na loja maçónica «Revoltar», ao Vale de Almada onde conviveu com Alexandre Babo, Keil do Amaral e Eugénio Ferreira, entre outros[1][2].

Em 1941, fundou com Amaral Guimarães e Alexandre Babo as Edições Sirius, que tiveram uma importante contribuição cultural, tendo publicado as primeiras edições dos romances «Esteiros» e «Engrenagem», de Soeiro Pereira Gomes [1][2][10]

Foi membro ativo do MUD (Movimento de Unidade Democrática), da ASP (Acção Socialista Portuguesa), e, nessa última qualidade, participou nas eleições dos delegados que, a 19 de abril de 1973, se reuniram na cidade alemã de “Bad Münstereifel”, onde teve lugar a última Assembleia Geral desse movimento, que funcionou como Congresso, e onde foi votada a sua reconversão em Partido Socialista na clandestinidade, sendo seu fundador[2][11][12][13].

Após a «revolução dos cravos», em 1975, foi candidato a deputado à Assembleia Constituinte nas listas do Partido Socialista[1][2].

A partir de 1982, presidente da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos [1][2].

Nos últimos anos da sua vida, foi membro efetivo do Supremo Conselho do 33.º Grau do Rito Escocês antigo e aceite para Portugal, do Grande Oriente Lusitano[2][1]

Vida pessoal

Nasceu na freguesia de Barreiros, concelho da Maia, distrito do Porto, a 10 de abril de 1911, sendo o filho mais novo de Rosa de Sousa e de Abílio da Costa Mendes. Seu pai, um industrial com êxito, residia no Rio de Janeiro e ia de longe em longe a Portugal. Por isso a lembrança que retinha de, em criança, ter visto seu pai pela primeira vez, reportava-se aos seus doze anos de idade. Sendo o mais novo de onze irmãos, foi uma irmã mais velha que o criou[1][2].

Em 1938 casou, pelo registo civil, com Enid Augusta Teixeira Mendes[1][2].

Tiveram três filhos[1][2]:

  • Jaime Teixeira Mendes (Licenciado em medicina pela faculdade de medicina da Universidade de Lausana, Suíça, foi dirigente estudantil e esteve exilado na Suíça de 1965 a 1974. Durante o serviço militar, participou nas campanhas de dinamização cultural do MFA (Movimento das Forças Armadas) em Sernancelhe e Penedono. Trabalhou como médico em hospitais suíços e portugueses, nomeadamente no l’Hôpital de l’Enfance, no Hospital de Santa Maria e no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil. Aposentou-se dos hospitais públicos em abril de 2009. Foi sócio fundador do Sindicato Médico da Zona Sul e pertenceu à direção da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Pediátrica (1993–1995) e à direção do Colégio da Especialidade de Cirurgia Pediátrica da Ordem dos Médicos (1994–1996, 1997–2000, 2005–2007 e 2008–2010). A partir de 2014 foi presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos. É coautor do livro «A Foto – E o Reencontro Meio Século Depois» (Âncora Editora, 2012)[14]
  • Carlos Eduardo Teixeira Mendes (Lisboa, 23 de maio de 1947) arquiteto, editor discográfico, apresentador de televisão, cantor, compositor e ator, fundador do conjunto Sheiks e vencedor do Festival RTP da Canção em 1968, com a canção "Verão" e em 1972, com "Festa da Vida"[15]
  • Abílio Teixeira Mendes (Lisboa, 14 de dezembro de 1939 - Lisboa, 6 de setembro de 1988 médico. Em agosto de 1962 foi «expulso por trinta meses da Universidade de Lisboa, por ter sido um dos dirigentes associativos da Academia de Lisboa que [desde o dia 24 de março] maior actividade desenvolveu no movimento estudantil, e "por ter comparecido na maioria dos plenários feitos em Lisboa, incitando sempre a massa académica à luta".» Em 1965 concluiu o curso de medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa; De 13 de Janeiro de 1968 a 3 de Março de 1970, como alferes e tenente médico miliciano, esteve na guerra colonial portuguesa em Angola, o que lhe serviu de inspiração para os livros «Henda Xala» (publicado, em 1ª edição, pela Ulmeiro, em 1984[16][17], e, em 2ª edição, pelo Círculo de Leitores, em 1992, ISBN 972-42-0551-7[18]) e «Coisas de África arquive-se» (Ulmeiro, 1987)[19][20][21][22]

Morreu em Lisboa, a 4 de junho de 1992, e está sepultado no cemitério do Alto de São João [1][2].

Homenagens

Condecoração

Elogios fúnebres

Proferidos, a 5 de junho de 1992, por José Magalhães Godinho, membro do Supremo Conselho, e por Ramón La Féria, Grão-mestre do Grande Oriente Lusitano[1][2].

Toponímia

A 5 de junho de 2010, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu o seu nome a uma rua da capital de Portugal, defronte do Hospital Lusíadas Lisboa, no Alto dos Moinhos, na freguesia de São Domingos de Benfica. Após o descerramento da respetiva placa toponímica, seguiu-se uma sessão de homenagem no Hospital dos Lusíadas[1][2][24][25][26]

Livro

«Abílio Mendes: médico pediatra, 1911-1992», de Isménia Neves, com coordenação de Jorge Pereira da Silva, e António Trindade, Lisboa, C.M., 2010[27]

Outras

Em 27 de fevereiro de 1981, foi homenageado pelos trabalhadores da EDP - Energias de Portugal e Electricidade de Portugal[1][2].

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w ««Abílio Mendes - Médico Pediatra 1911-1992» por Isménia Neves» (PDF). Câmara Municipal de Lisboa. Junho de 2010. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y GAMA, Maria José (2016). Caminhos da liberdade - biografias. Albufeira: Arandis. p. 278-282. Consultado em 7 de setembro de 2025 
  3. Helena Roldão (12 de fevereiro de 2019). «Ficha histórica:Germen: revista dos estudantes de medicina do Porto: medicina, cultura e vida académica (1932-1938)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  4. MENDES, Jaime (2016). Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar. Lisboa: Âncora. ISBN 978-972-780-553-2. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  5. «Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar de Jaime Mendes». Âncora editora. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  6. «Apresentação do livro «Correspondência de Abílio Mendes com Abel Salazar» de Jaime Mendes». Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. 24 de fevereiro de 2017. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  7. «Abílio da Costa Mendes Júnior aluno da Universidade de Lisboa de 1934 a 1937» 🔗. Universidade de Lisboa. 28 de dezembro de 2020. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  8. História Breve do Serviço de Pediatria 1954 –1994 (40 anos) Hospital de Santa Maria, ed. Associação para as Crianças de Santa Maria
  9. ««O Serviço de Pediatria faz 50 anos» por Maria de Lourdes Levy - Clínica Universitária de Pediatria - Hospital de Santa Maria in Acta Pediatr. Port., vol. 35, n.º 3». Portuguese Journal of Pediatrics. 2004. p. 207-210. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  10. Alexandre, Babo (20 novembro 2007). «Boletim Municipal de Lisboa n.º 718» (PDF). Consultado em 11 de setembro de 2025 
  11. [1] Arquivado em 24 de setembro de 2015, no Wayback Machine. Fundadores do Partido Socialista
  12. Casa Comum (1973). «Acta da fundação do Partido Socialista». casacomum.org. Consultado em 6 de setembro de 2025 
  13. «Socialistas vizelenses presentes nas comemorações dos 50 anos do PS». Digital de Vizela. 20 de abril de 2023. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  14. «Jaime Mendes Biografia». Âncora editora. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  15. «Festival da Canção». Infopédia. Consultado em 12 de julho de 2013 
  16. MENDES, Abílio Teixeira (1984). Henda Xala. [S.l.]: Ulmeiro. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  17. MENDES, Abílio Teixeira (1984). Henda Xala. [S.l.]: Ulmeiro. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  18. MENDES, Abílio Teixeira (1992). Henda Xala. [S.l.]: Círculo de Leitores. ISBN 972-42-0551-7. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  19. MENDES, Abílio Teixeira (1987). Coisas de África arquive-se. [S.l.]: Ulmeiro. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  20. «Faleceu, no dia 6 de Setembro de 1988, o veterano Abílio Teixeira Mendes». Veteranos da guerra do ultralmar. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  21. «Primeira Idade não é igual para Todos – Parte I». Arquivos RTP. 8 de abril de 1975. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  22. «Primeira Idade não é igual para Todos – Parte II». Arquivos RTP. 8 de abril de 1975. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  23. «Entidades Nacionais Agraciadas com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Abílio da Costa Mendes Júnior". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 28 de setembro de 2023 
  24. «Hospital dos Lusíadas Rua Abílio Mendes». Câmara Municipal de Lisboa. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  25. «Hospital Lusíadas Lisboa». Hospital Lusíadas Lisboa. 2025. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  26. «Rua Abílio Mendes 1500-458 Lisboa». Código postal. 2025. Consultado em 11 de setembro de 2025 
  27. NEVES, Isménia (2010). Abílio Mendes: médico pediatra, 1911-1992. Lisboa: C.M. Consultado em 11 de setembro de 2025