A Pele do Ogro

A Pele do Ogro
Autor(es)Miguel M. Abrahão
IdiomaPortuguês
País Brasil
Gêneroromance histórico, literatura mitológica
Linha temporalséculo XIX, 1848
Arte de capaIlan Solot
EditoraShekinah/Liser
Lançamentojunho de 1996 e relançado em julho de 2025[1]
Páginas273/434

A Pele do Ogro é um romance escrito por Miguel M. Abrahão [2] e publicado em 1996 no Brasil[3][4] e republicado em 2025[5] O romance teve duas continuações: "O Strip do Diabo" e " A Sombra da Medusa"[6].

Anne Rice e A PELE DO OGRO

Trama

Uma jornada através do tempo e da obsessão [6][6]

Em um motel à margem da Rodovia Presidente Dutra, nos dias atuais, a jovem garota de programa Lívia sente-se inexplicavelmente perturbada após um encontro com seu mais recente cliente, o enigmático André Duroseille. Algo nele desperta sentimentos que ela jamais experimentou antes — uma atração avassaladora que a consome por completo. André, percebendo seu fracasso em mais uma tentativa de libertar-se de sua condição, decide revelar à jovem o fardo que carrega há muitos anos. Diante de uma Lívia inicialmente cética, ele, obstinadamente, alega ser imortal, tendo vivido cento e cinquenta anos em um corpo eternamente jovem [6]. Com voz pausada, André narra sua suposta juventude em Lyon, na França do século XIX. Descreve sua paixão pela doce Claire, cuja vida foi brutalmente interrompida pelo padrasto, Pierre Labatut — um homem que nutria uma obscura obsessão pelo próprio André. Ao recusar as investidas depravadas de Pierre, André testemunhou o horror: em um acesso de fúria, o homem assassinou a enteada e a esposa, ateando fogo à residência antes de desaparecer entre as chamas devoradoras[6]. Acusado injustamente pelos crimes, André foi encarcerado em Lyon. Foi na prisão que conheceu Gaston, um detento aparentemente insano que lhe revelou, entre sussurros e olhares febris, a existência de Lídia, a Romana — nome que já provocava calafrios em Claire e sua mãe.[6].

"Lídia é a mestra! O Ser primordial! Aquela que concede o prazer supremo! A que existe além da existência!" — declarava Gaston com fervor quase religioso. "Ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade e permanecerá até que o próprio cosmos se desintegre. Embora encarne como Lídia, a Romana, ela é simultaneamente todas as mulheres e nenhuma. Uma verdadeira deusa entre mortais."

Seduzido por uma promessa aos escolhidos por Lídia, André inicia uma peregrinação obsessiva em sua busca. Mesmo casado e pai de um filho pequeno, ele não consegue resistir ao chamado. Sua jornada tortuosa o leva a cruzar caminhos com figuras históricas marcantes: Bram Stoker, a Rainha Vitória, o poeta Paul Verlaine e seu tempestuoso amante Arthur Rimbaud. Durante esses anos, forma profundas amizades com os escritores Oscar Wilde e Émile Zola — todos, de alguma forma, igualmente fascinados pela aura de Lídia, por sua beleza atemporal, poder magnético e misteriosa riqueza [6]. Neste período turbulento, André reencontra seu irmão há muito desaparecido, que o odeia visceralmente por causa de Lídia. Ao mesmo tempo, em uma trágica ironia do destino, ele também perde a esposa e o filho em um incêndio de origem suspeita. No entanto, nada disso abala a sua determinação — sua obsessão por Lídia transcende qualquer outro sentimento ou lealdade. Quando finalmente a encontra, André descobre, perplexo, que não era apenas ele quem a buscava — Lídia também o aguardava ansiosamente ao longo dos séculos.

"Você é aquele por quem tenho procurado através das eras, sussurra ela com uma voz que carrega o peso de milênios. "Mas precisava esperar até que completasse trinta e cinco anos. Meu Antínoo, meu eterno amor!"

Entre eles estabelece-se um vínculo de intensidade avassaladora, quase patológica, e o preço a pagar revela-se exorbitante: vê seus amigos mais próximos e todos aqueles a quem ama sucumbirem a processos judiciais, falsas acusações e exílios impostos pelas intrigas de Lídia e pela proteção de seu segredo milenar. André Duroseille torna-se, involuntariamente, figura central em alguns dos mais controversos episódios históricos do século XIX: o julgamento de Oscar Wilde e o Caso Dreyfus — eventos minuciosamente reconstruídos na narrativa com precisão histórica e profundidade psicológica. À medida que os anos se transformam em décadas, a relação apaixonada entre André e Lídia começa a deteriorar-se, corroída pela crescente desconfiança. Estaria Lídia manipulando os acontecimentos trágicos ao seu redor? Seria ela capaz de eliminar qualquer pessoa que ameaçasse sua possessão exclusiva sobre André? A morte suspeita de Émile Zola, o confinamento cruel de Alfred Dreyfus na Ilha do Diabo e o desaparecimento sistemático de todos os seus entes queridos levam André a uma conclusão devastadora: para destruir Lídia e seu poder, existe apenas um caminho possível — deixar de amá-la completamente. Porém, como abandonar um amor que transcende séculos e a própria natureza humana? E, mais perturbador ainda: seria possível que Lívia, a jovem prostituta do presente, fosse mais do que aparenta em seu inesperado encontro com André?[6]

Análise da Obra

A Pele do Ogro é uma aventura histórica e literária e mitológica, onde o leitor, juntamente com os personagens André Duroseille e Lídia Visconti Sforza, é levado a uma revisão dos parâmetros que regiam a sociedade passada e às restrições ideológicas e antissemitas do século XIX, fato que se vê principalmente nas cenas relacionadas com o governo francês e alemão, e no trágico processo contra Alfred Dreyfus. A Pele do Ogro é uma obra que revoluciona por ter sido elaborada com extrema precisão, tendo em vista a visão máxima e rica em detalhes de uma realidade histórica passada [7].

Título da Obra

Relaciona-se a fictícia canção infantil que André Duroseille, o protagonista, ouvia da mãe quando pequeno: Três garotinhos desobedientes passeavam alegres na floresta. Um deles o ogro pegou e cozinhou para a festa! Dois garotinhos desobedientes punham fogo num barril. Um deles o ogro pegou e o afogou num imundo e poluído rio. Um garotinho desobediente se arrependeu e chorou. Dele, o ogro fingiu se apiedar e, sadicamente, o enganou![6].

Tempo histórico

O romance tem como pano de fundo a 2ª metade do século XIX, uma época marcada pelos contrastes de uma Revolução tecnológica versus o crescimento das superstições e preconceitos. [8]

Tempo diegético

Na narração da obra, a cronologia da ação, quer sejam eventos reais ou ficcionais, data entre 1848 e 1929 (81 anos), iniciando com o nascimento de André Duroseille e terminando com o alvorecer do século XX [7].

Tempo do discurso

O modo como flui a cronologia da ação (tempo diegético) é, na maior parte do romance, linear, tendo, porém, algumas anacronias, tais como a analepse, a prolepse, utilizada, por exemplo, para narrar os sofrimentos de Oscar e Dreyfus, e a elipse, utilizada na descrição do período em que André procurou Lídia durante 17 anos; ou, ainda, na presença do narrador/protagonista, através dos seus comentários, juízos críticos, registros de língua e referências ao século XIX[7]

Espaço físico

O cenário da obra tem vários macroespaços:

  • França: país predominante na história, cujos microespaços são:
  • Lyon: cidade da infância e adolescência de André;
  • Paris: cidade da juventude e da fase adulta de André, onde ele viverá momentos que aumentarão suas desconfianças com relação à Lídia: o nascimento do antissemitismo e o Caso Dreyfus.
  • Alemanha:
  • Berlim: cidade onde André conhece o marechal Bismarck que, por suas observações, deixará André obcecado por encontrar-se com Lídia, a Romana.
  • Itália:
  • Roma: cidade onde André terá seu encontro com Lídia.
  • Siena: cidade onde ocorre o Pálio de Siena e será o cenário onde André despertará para suas desconfianças acerca da amada.
  • Escócia:
  • Edimburgo: cidade onde André conhecerá o segredo da imortalidade dos celtas.
  • Inglaterra:
  • Londres: cidade onde se desenrolará sua amizade com Oscar Wilde e o processo a que foi submetido o escritor.
  • Rússia:
  • Moscou: cidade onde André conhece uma antiga amiga de Lídia e que o fará desconfiar ainda mais da amante[6].

Personagens fictícios

  • André Duroseille: Narrador da história. 158 anos de idade. Belo e deprimido. Em sua longa jornada solitária precisa encontrar alguém que não o ame para poder dar um fim à sua existência e ao seu sofrimento.
  • Lídia Visconti Sforza: conhecida como a Romana. Idade indefinida. Bela e atraente. Seduz a todos que, na maioria das vezes, se matam por ela e em nome dela. Tem poder e influência a ponto de desencadear acontecimentos históricos que abalaram a Europa no século XIX. É apaixonada por André, a quem dá a imortalidade.
  • Lívia: simplesmente Lívia. Garota de programa. 18 anos. É a interlocutora durante a narrativa feita por André. Sente-se atraída por ele assim que o vê. Entra em desespero quando percebe que irá perdê-lo após o ato sexual e não se preocupa quando ele a ameaça, dizendo que irá morrer, se persistir em ficar ao seu lado.
  • Paolo: enteado de André, que o adota por sentimento de culpa quando da morte dos pais do garoto. Será criado pelo protagonista como filho e se oporá à relação do pai adotivo com Lídia, tornando-se um obstáculo para ela e levando o casal a várias separações.
  • Gaston: lunático, aprisionado na mesma cela de André. É ele quem aguça o desejo do protagonista em conhecer a poderosa e secular Lídia. Mesmo após sua morte, reaparecerá para André com enigmas e enigmas...
  • Claire: Primeiro grande amor de André. Pobre e indefesa, dominada pelo terror que lhe impõe o padrasto, Pierre Labatut, homem obcecado por Lídia, a Romana. Após sua morte, reaparecerá ao longo da história sempre alertando André sobre os perigos que o cercam através de enigmas que ele não pode ou não quer decifrar.
  • Pierre Labatut: padrasto de Claire. Nutre um sentimento estranho por André e afirma sempre que já perdera um Duroseille na vida e não renunciaria ao outro, o que lhe sobrou. Desaparece em meio às chamas que ele mesmo provocou em seu casebre.
  • Henry Duroseille: irmão de André. Desaparece ainda jovem e retornará, anos depois, doente e com ódio mortal do irmão por Lídia desejá-lo.
  • Carlo: criado fiel de André. Uma das necessárias vítimas de Lídia.
  • Francesco e Gina: casal de italianos jovens, pais de Paolo. Primeiras vítimas necessárias de André.
  • Blanche e Henry: mulher e filho de André. Mortos em um incêndio em Roma.
  • Stéfano: cavaleiro de Siena. Arrogante, supostamente mata-se por Lídia e provoca em André as primeiras desconfianças sobre o caráter da amante.
  • Estelle: mulher obsessiva, apaixonada por André. Desencadeia a fúria e a desconfiança de Lídia.
  • Alice: criada de Marguerite, amante do general Boulanger. É escolhida para ser noiva de André Duroseille [6]

Personagens históricos (principais)

  • Oscar Wilde: escritor inglês, amigo de André e constantemente ironizado e desprezado por Lídia, que lhe inspira o romance "O Retrato de Dorian Gray". Envolve-se em escândalo sexual, o qual, aparentemente, teria sido desencadeado por Lídia, a Romana.
  • Alfred Douglas ou Bosie: amante de Wilde.
  • Robbie Ross: primeiro amante de Wilde. Aliado de André na luta pela absolvição do amigo comum Oscar.
  • John Douglas, 9.º Marquês de Queensberry: pai de Bosie. Responsável por desencadear o processo que condenou Wilde.
  • Otto Von Bismarck: líder alemão. Tem fascinação por Lídia e aguça a curiosidade de André por essa mulher.
  • Alfred Dreyfus: Oficial francês, acusado pelo governo de ser espião alemão, e detestado por Lídia pelo fato de ser judeu.
  • Mathieu Dreyfus: amigo de André. Empreende uma verdadeira cruzada para provar a inocência do irmão Alfred.
  • Émile Zola: Escritor francês, amigo de André.
  • Bram Stoker: Escritor inglês. Tem a função de fazer os primeiros contatos com André a mando de Lídia.
  • Paul Verlaine: escritor francês, rival de Lídia.
  • Arthur Rimbaud: escritor francês, amante de Verlaine e amigo de Lídia.
  • André Gide: Escritor francês. Envolve-se com forças misteriosas para prejudicar André Duroseille.
  • Anna Ulianova: irmã de Lênin. Aproxima André de Sofia e de sua filha Olga, a quem André adotará, mais tarde.
  • Catarina Breshkovsky: revolucionária russa, amiga de Lídia. Fará revelações que deixarão André certo de que a amante está por detrás de todos os problemas que afligem a Europa.
  • Tenente-coronel Georges Picquart: militar francês, amigo de André. Acredita e tenta provar a inocência de Alfred Dreyfus.
  • Alberto Santos Dumont: Balonista, amigo de Paolo.
  • Isabel, Princesa Imperial do Brasil: ex-herdeira do trono brasileiro [7].

Ligações externas

Referências

  1. Itatiaia - Cultura e Lazer [1]]
  2. PEREIRA, Clara Cardoso - Intersecção entre Ética-e Estética na Obra de Miguel M. Abrahao[2]
  3. UFSC
  4. Enciclopédia Itaú Cultural[3]
  5. JORNAL DR1 [4]
  6. a b c d e f g h i j k Pereira, Clara Cardoso. A Intersecção entre ética e Estética na Obra de Miguel M. Abrahão. University, 2014, pp. 64-81
  7. a b c d «University - Miguel M. Abrahão - Literatura Avaliada - Page 62-73 - Created with Publitas.com». view.publitas.com (em inglês). Consultado em 30 de abril de 2025 
  8. COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Academia Brasileira de Letras, 2001: 2v.]