Frei Álvaro Pais

D. Frei Álvaro Pais
Bispo da Igreja Católica
Bispo de Silves
Info/Prelado da Igreja Católica
Atividade eclesiástica
Diocese Diocese de Silves
Nomeação 9 de junho de 1333
Mandato 1333-1350
Ordenação e nomeação
Nomeação episcopal 16 de junho de 1332
Dados pessoais
Nascimento Salnés, Galiza
1275/80
Morte Sevilha
25 de janeiro de 1350
Funções exercidas - Bispo de Coron (1332-1333)
dados em catholic-hierarchy.org
Bispos
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo
 Nota: Se procura o burguês de Lisboa, apoiante do Mestre de Avis, veja Álvaro Pais.

Frei Álvaro Pais (em latim Alvarus Pelagius) ou em castelhano Álvaro Pelayo ou Álvaro Pelágio (Salnés, Galiza, 1275/80 - Sevilha, 1350) foi um célebre jurista, sacerdote e teólogo. Foi frade franciscano, penitenciário do Papa João XXII, bispo de Coron e de Silves.

Vida

Formação

Provavelmente filho bastardo do trovador galego e almirante de Castela D. Payo Gomez Chariño com uma mulher da família Fernández Sottomayor, terá sido educado na corte de Sancho IV de Castela[1]. Frequentou a escola catedralícia de Compostela, tendo sido ordenado sacerdote entre 1293 e 1296. Influenciado pela ação política da Igreja durante o século XIII, governada principalmente por papas com formação jurídica, formou-se como jurista em Bolonha, sendo mais tarde professor na mesma universidade, onde terá tido contacto com Guido de Basio. Em 1304 tornou-se frade menor na cidade de Assis, sendo um fervoroso adepto da pobreza que a Ordem seguia, seguindo a corrente dos Espirituais Franciscanos[2]. Em 1306 ensinou direito canónico no convento dos pregadores em Persua.

Percurso

Por obediência ao Papa João XXII, que entre 1317 e 1318 considerou os Espirituais Franciscanos hereges, Álvaro Pais abandonou esta corrente.[3]

Fruto do conflito entre a Igreja e o Sacro-Império Romano Germânico, João XXII lançou um interdito a Roma em 1327, ficando Álvaro Pais a cargo de o cumprir rigorosamente. Em 1328, Luis da Baviera (Luís IV) acaba por entrar em Roma, coroando-se imperador, enquanto depõe João XXII e nomeia Nicolau V antipapa. Durante este período, Álvaro Pais refugiou-se no eremitério de Monte Compatri[3].

O imperador Luis IV acaba por abandonar Roma no mesmo ano em que se coroa imperador, seguindo-o Nicolau V no ano seguinte. Álvaro Pais retorna a Roma e, devido à sua lealdade ao Papa (que nesta altura se encontrava em Avinhão), é recompensado por João XXII, nomeando-o seu penitenciário.[4]

No ano de 1331 solicitou ao Papa dispensa do impedimento de ilegitimidade, obtendo-a a 22 de março de 1332 pela bula Libentur Illis, passando a estar legível à nomeação para cargos eclesiásticos.[4]

É nomeado bispo de Coron (Grécia), mas provavelmente não terá assumido a diocese.[4]

Portugal

A seu pedido, em 1333 é transferido para o bispado de Silves (Portugal). Terá tido complicações com o arcediago Francisco Pedro, pois este não reconhecia a sua legitimidade, levando a uma intervenção papal em 1334.[5]

As relações com Afonso IV de Portugal foram complicadas, visto que o frade galego criticava o monarca devido à sua política centralizadora, que afetava a Igreja. Em 1336 as críticas acentuam-se graças ao início da Guerra Luso-Castelhana, tendo Álvaro Pais repudiado o monarca português, alegando que este estava a fazer uma guerra às custas dos bens eclesiásticos, prejudicando a população[5]. É ignorado e acaba por abandonar o reino.

Mais tarde regressa ao reino e vê-se envolvido noutro conflito. Queixa-se a Afonso IV da intervenção de oficiais régios em questões da jurisdição episcopal. Em simultâneo, os diocesanos queixam-se ao monarca da longa ausência do bispo e de difamação durante as suas pregações. Em 1347, Afonso IV sentencia esta questão, aceitando as queixas de Álvaro Pais, mas dando razão aos habitantes da diocese de Silves em relação à longa ausência do Bispo. Contudo, as más relações entre o bispo e o concelho manter-se-ão[6].

Álvaro Pais acaba por exilar-se no convento das Clarissas, em Sevilha, morrendo no mesmo ano.[7]

Pensamento

Com um pensamento que organiza e interpreta o mundo a partir de uma lógica de autoridade sagrada, ficou conhecido pelas críticas violentas presentes nos seus textos, direcionadas principalmente a clérigos corruptos e hereges. Considera que o espírito tem primazia sobre a matéria, o que implicaria a supremacia do Papa sobre o poder secular. Para isso, a atividade política serviria como um organismo espiritual, conduzindo a pessoa humana até Deus.[8]

Nas suas obras reflete acerca do poder, afirmando que a sua finalidade seria a realização da felicidade humana. Atribui uma conotação negativa ao poder, sendo este desnecessário caso a humanidade não pecasse. Assim sendo, Deus permite que o as pessoas tenham poder, de modo a existir uma figura que as guie até ao seu fim. Esta figura teria de ser o Papa, que governaria através dos seus oficiais - os reis.[8]

Álvaro Pais deixa ainda notas acerca da Guerra Justa. Para ser justa, a guerra teria de ser feita com o objetivo de assegurar a paz, logo teria de recair sobre os hereges, que ameaçavam a cristandade. Relativamente à participação dos clérigos nos momentos bélicos, estes não poderiam pegar em armas em nenhuma situação, prestando apenas assistência ou assumindo cargos administrativos.[8]

Obra

Possui três obras principais (Tratados):
  • De statu et plancto ecclesiae (Sobre o Estado e Pranto da Igreja), composta entre 1332 e 1335, defende a legitimidade do Papa João XXII, condena Nicolau V e Luís IV, e repreende os erros e vícios dos clérigos, refletindo sobre o estado decadente dos dignitários da Igreja.[9]
  • Speculum Regum (Espelho dos Reis) composta em Tavira entre 1341 e 1344, é um texto de educação de príncipes/reis de vincado conteúdo ético, resumindo o pensamento que Álvaro Pais havia exposto na obra De statu et plancto ecclesiae. Dedicou a obra a Afonso XI de Castela, ato que pode ser considerado uma afronta a Afonso IV de Portugal.[9]
  • Colirium Fidei adversus haereses (Colírio da Fé contra as Heresias) composta em 1348, Álvaro Pais aponta e refuta as heresias da época, considerando hereges todos os que atacam ou contestam a suprema autoridade do papa como cabeça da cristandade, aprofundando a sua tese hierocrática. Nesta obra, fica ainda registada a disputa com Tomas Escoto.[9]

Em Portugal, estas obras encontram-se publicadas em versão bilíngue (latim-português).

Cartas e opúsculos:
  • Epistolae[10]
  • Gradus humilitatis[10]
  • Sermo de visione beatifica (obra perdida)[10]
  • Tractatus de fide[10]
Obras de autoria discutida:
  • Commentarium in quatuor libros Sententiarum (obra perdida)[11]
  • Quaestiones quodlibetales[11]
  • Quinquagesilogium[11]
  • Tractatus contra Ismahelitas, Mauros et Arabes[11]
  • Tractatus de sacrilegio[11]

Referências

  1. SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 73-74 
  2. SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 77 
  3. a b SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 79 
  4. a b c SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 84 
  5. a b SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 89-90 
  6. SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 93 
  7. SOUZA, José Antônio de C. R. de (2010). As relações de poder na Idade Média Tardia. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 94 
  8. a b c CALAFATE, Pedro (1999). “Frei Álvaro Pais” in História do Pensamento Filosófico Português. Lisboa: Editorial Caminho, SA. p. 221-251 
  9. a b c CALAFATE, Pedro (1993). “Álvaro Pais” in Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho, SA. p. 47 
  10. a b c d Meirinhos, José. «Accessus - Álvaro Pais». Consultado em 18 de junho de 2025 
  11. a b c d e Meirinhos, José. «Accessus - Álvaro Pais». Consultado em 18 de junho de 2025 

Bibliografia

  • BARBOSA, João Morais - A Teoria Política de Álvaro Pais no “Speculum Regum”, Lisboa, 1972.
  • CALAFATE, Pedro - “Álvaro Pais” in Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa (coord. Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani), Lisboa, 1993, pp. 47-49.
  • CALAFATE, Pedro - “Frei Álvaro Pais” in História do Pensamento Filosófico Português (dir. Pedro Calafate), Lisboa, 1999, pp. 221-251.
  • SOUZA, José Antônio de C. R. de - As relações de poder na Idade Média Tardia, Porto Alegre, 2010.

Ligações Externas

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