O conceito de lagrangiana está sempre relacionado ao seguinte problema:
Definição
A função lagrangiana associada ao problema é
definida por
.
Em alguns livros é usada a seguinte notação:
definida por
e
definida por
Deste modo, a lagrangiana fica expressa por
que é uma representação bem mais compacta.
Condições de otimalidade
Para permitir a compreensão da importância da função lagrangiana em otimização, é preciso ter em mente os principais resultados que garantem a otimalidade de uma solução para o problema . Nas próximas seções será apresentado um breve resumo das condições de otimalidade, dividindo-as em dois casos:
Caso particular: quando é convexo e fechado.
Caso geral: quando é arbitrário.
Caso particular
Proposição
Seja função de classe no conjunto . Se é um minimizador local de no conjunto convexo e fechado , então:
Demonstração
Seja uma solução de , e fixe um ponto arbitrário . Denote por a restrição da função sobre o segmento de reta que passa por e por , ou seja,
, com .
Note que .
Como é um minimizador de em , tem-se:
, para todo
Logo,
, ou seja,
Mas pela regra da cadeia,
, então .
Como era arbitrário, o resultado está demonstrado.
Observação
A condição significa que os vetores e formam um ângulo reto ou agudo (menor ou igual a 90 graus), conforme indicado na figura a seguir:
Em um ponto de mínimo, sempre forma ângulo menor ou igual a 90 graus com os vetores do tipo , onde é um ponto de mínimo da função no conjunto viável e é um ponto qualquer deste conjunto.
No caso específico, com e , é a derivada direcional de na direção . Quando tal número é não negativo, intuitivamente a função cresce naquela direção.
Quando é um conjunto convexo e fechado, a existência de uma solução para o problema é garantida pela seguinte proposição:
Proposição
Se , é convexa e
então é um minimizador global de no conjunto (isto é, é solução de ).
Demonstração
Pela convexidade de , tem-se que:
Logo,
Portanto, , ou seja, é um minimizador de em .
Até aqui, não é exigido que qualquer das funções ou sejam diferenciáveis. Isto será utilizado mais adiante, nos algoritmos.
A próxima proposição fornece uma caracterização dos minimizadores, em termos do conceito de projeção.
Lembre-se que a projeção de um ponto sobre o conjunto , denotada por , satisfaz . Na verdade, vale:
O vetor forma ângulo menor que 90 graus com o vetor , pois é a projeção de sobre o conjunto .
Proposição
Seja um número real fixado.
Se é um minimizador local de em , então
Se é convexa e , então é um minimizador global de em .
Demonstração
(1)
Como é um minimizador local de em , então
Observe que essa desigualdade equivale à
ou ainda
Tomando e , tem-se a equivalência com:
que equivale a dizer que , ou seja:
(2)
Reciprocamente, supor que , conforme a argumentação anterior, equivale a dizer que
Usando a hipótese de que é convexa, segue da proposição anterior que é um minimizador global de em .
Caso geral
Para tratar este caso, é preciso utilizar o conceito de cone tangente. O conjunto contínua o mesmo, ou seja, , embora não seja mais suposto que ele é convexo. Mesmo assim, ainda será fechado, pois as funções e que o definem são contínuas.
Teorema
Se é um minimizador local de em , então .
Se é convexo, é convexa e , então é minimizador global de em .
Este teorema pode ser demonstrado de forma análoga a que foi feita anteriormente.
Demonstração
Esta demonstração é deixada a cargo do leitor. Sinta-se livre para melhorar a qualidade deste texto, incluindo-a neste módulo.
Seja definido como:
.
Pela segunda propriedade do cone tangente, tem-se:
. Logo,
Em outras palavras, se é dado um conjunto e depois se restringe tal conjunto para , através do acréscimo de restrições inativas em um ponto , os cones tangentes aos dois conjuntos (no ponto ) coincidem.
Definição
Toda condição que implica que é chamada de condição de qualificação das restrições.
Observação: Também se pode dizer condições de regularidade das restrições (do inglês, Regularity conditions).
Exemplos de condições de qualificação das restrições
(1) Se e são funções afim-lineares, então para qualquer , tem-se . Prova-se isso trivialmente
Prova
Esta prova é deixada a cargo do leitor. Sinta-se livre para melhorar a qualidade deste texto, incluindo-a neste módulo.
(2) Condições de Slater: Se as funções são convexas e as são afim lineares e, além disso, existe tal que para todo , , então para qualquer , tem-se .
Prova
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(3) Condições de Mangasarian-Fromowitz: Se é linearmente independente e existe tal que para tpdp e .
Prova
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Teorema (Karush–Kuhn–Tucker)
Suponha que , e são funções de classe em uma vizinhança do ponto e que . Se é um minimizador local de em , então existem e tais que:
Note que aqui aparece a lagrangiana, pois a primeira condição é equivalente a:
O essencial para a existência de é que .
Teorema
Suponha-se que , e são funções de classe em uma vizinhança de , que e são convexas e que são afim-lineares. são funções de classe . Se existem e tais que:
A partir deste teorema são construídos alguns algoritmos.
Este módulo tem a seguinte tarefa pendente: Confrontar as informações presentes nestes últimos teoremas com algum livro. Parece estar precisando de pequenas correções.
Considere o seguinte problema:
Sabe-se que dada por
.
Agora, tem-se as KKT:
Teorema
Supondo que e são de classe em uma vizinhança de e que , se é um minimizador local de em , então tal que de modo que:
Uma inequação sobre ínfimos e supremos
Teorema
Sejam e dois subconjuntos arbitrários e considere uma aplicação
. Então
Demonstração
Sabe-se que
,
quaisquer que sejam . Então, calculando o ínfimo em ambos os membros (com relação aos valores de ), e considerando que pode ser ilimitado inferiormente, tem-se para qualquer :
Assim, calculando o supremo (com relação aos valores de ), segue das desigualdades anteriores:
Exercício
Verifique que:
Demonstração
Esta demonstração é deixada a cargo do leitor. Sinta-se livre para melhorar a qualidade deste texto, incluindo-a neste módulo.
Defina-se a função:
, dada por
e também
, dada por
Conforme o exercício anterior, tem-se então
Observando a relação entre essas funções, é natural considerar dois problemas de otimização:
e
Comentários
As funções e são conhecidas na literatura como funções em dualidade (ou mais frequentemente, funções duais);
O problema é conhecido como problema primal, enquanto é chamado de problema dual;
Fazendo e , segue-se do exercício anterior que ;
A diferença é chamada de brecha de dualidade, ou salto de dualidade (do inglês, skip duality);
Exercício
Verifique que:
Resolução
Se tem-se que e .
Substituindo na lagrangeana tem-se que e tomando , se vê que o supremo dos valores é atingido, tendo como valor.
Por outro lado, se existe um índice tal que e/ou .
No primeiro caso, seja e
, onde .
Com esta escolha, a lagrangiana será
.
Tomando o limite quando tem-se que .
Para o outro caso a prova é análoga.
Exercício
Verifique que consiste de maximizar uma função côncava em um poliedro. Lembre-se:
Uma função é côncava quando for convexa.
Um poliedro é qualquer intersecção finita de semiespaços fechados.
Resolução
Primeiro será mostrado que :, dada por é uma função côncava. Para isso, basta mostrar que para cada vale
.
Chamando e tem-se:
Quanto ao conjunto ser um poliedro, isso segue do fato de e serem interseções finitas de semiespaços fechados.
Exemplo numérico: problema primal e seu dual
Considere o problema
Resolução
O problema é ilustrado na imagem a direita.
Primeiramente, é preciso identificar quais são as funções e envolvidas:
A função objetivo é aquela que se pretende minimizar, ou seja, ;
Como aparecem apenas restrições de desigualdade, não há qualquer função ;
Reescrevendo as desigualdades como e , conclúi-se que as funções são:
e .
Neste caso, a lagrangiana é:
, dado por
Em seguida, é preciso calcular e :
, é dada por
E, conforme um dos exercícios anteriores (ou através de uma breve análise dos supremos envolvidos na expressão anterior), tem-se:
Analogamente, tem-se:
, dada por
Observe que em relação a , tem-se uma função fortemente convexa, que portanto possui um único minimizador. Além disso, é diferenciável, donde o seu único minimizador é dado pela equação:
ou seja,
donde
Portanto,
Assim, os problemas em dualidade são:
e
Pelo primeiro item do exercício, tem-se que a minimização do problema é equivalente à minimização do problema original.
Por outro lado, através da lagrangiana, obtem-se além do problema primal , um problema dual , cuja estrutura é muito melhor que a do original (pois pelo outro exercício, consiste da maximização de uma função côncava em um poliedro), e que servirá para encontrar o mínimo do problema primal (e consequentemente, do original).
Ponto de sela
Este é um conceito muito importante relacionado à lagrangiana.
Definição
Dado o problema e a lagrangiana associada a esse problema, se diz que é um ponto de sela de se e:
.
Teorema
O ponto é um ponto de sela de se, e somente se:
é solução de ;
é solução de ;
.
Demonstração
Se é um ponto de sela de , então e se tem:
.
Em particular, como
.
segue da segunda desigualdade que
e calculando o ínfimo sobre todos os tem-se:
Por outro lado, da inequação sobre ínfimos e supremos, tem-se , então .
Logo, todos os membros das desigualdades acima coincidem, ou seja,
Mas da definição de tem-se:
.
Portanto, é solução do problema enquanto significa que é solução de
Reciprocamente, supondo que é solução do problema , tem-se:
e admitindo que é solução do problema , segue:
Além disso, usando como hipótese que , segue da definição que:
, quaisquer que sejam .
Em particular, tomando , e , resulta:
, ou seja,
Logo, pela definição de tem-se:
, quaisquer que sejam .
Portanto, é um ponto de sela da lagrangiana .
Exemplos
Considere novamente o problema de otimização dado por:
Verificar se a lagrangiana associada à tem ponto de sela.
Resolução
O problema é ilustrado na imagem a direita, e conforme foi deduzido anteriormente, tem-se:
Além disso, como foi mostrado anteriormente, vale
e também
ou seja,
Agora, consideram-se os seguintes problemas em dualidade:
e
Donde é solução do problema primal, e .
Intuitivamente, nos pontos em que assumir seu valor máximo, deve-se ter , pois conforme aumenta, decresce.
Mas pela desigualdade a respeito de supremos e ínfimos, tem-se , quaisquer que sejam , .
Como , e ao tomar e tem-se , segue-se que é uma solução do problema dual .
Finalmente, como , e , segue que . Portanto, pelo teorema anterior, o ponto é ponto de sela da lagrangiana .
Análise do problema
Considerando , , e , se é uma solução do problema dual, considere o seguinte problema:
que no caso do exemplo reduz-se a
A solução deste problema é obtida resolvendo , sendo portanto . Note que esta é a solução do problema primal (e consequentemente do problema original ).
Será apenas uma coincidência? Ou ainda, em que situações a solução deste último problema será também solução do problema original?
A resposta será dada pelo próximo teorema. Acompanhe.
Teorema (dualidade lagrangiana convexa)
Suponha-se que são de classe e convexas, e que as funções são afim lineares e . Nestas condições:
Se o problema tem solução, então e os problemas e têm solução.
Se tem solução, e é solução de , então as soluções de são as soluções de , onde
que também são as soluções de .
Antes da demonstração, vale a pena imaginar a seguinte aplicação da segunda parte do teorema: Se por alguma razão não se sabe resolver o problema original , pode-se optar por resolver (um problema concavo em um poliedro), e depois resolver (que é um problema convexo sem restrições). Em outras palavras, é possível trocar um problema difícil por dois problemas mais fáceis, e .
Agora a demonstração do teorema:
Demonstração
(1) Como tem solução, seja uma solução de . Pelo teorema de KKT (que se aplica pois as funções são de classe e se tem a qualificação das restrições), segue a existência de e , tais que:
Como são funções convexas e afim lineares, então a função lagrangiana é convexa em (pela forma de ). Isto significa que:
.
Usando (1), conclúi-se uma das duas desigualdades que definem um ponto de sela em :
.
Considerando que é solução de , tal ponto satisfaz as restrições e . Então, usando , segue que:
pois e .
Mas, por KKT, . Além disso, .
Logo:
Assim,
quaisquer que sejam , e . Mas isso implica, por definição, que é um ponto de sela de .
Logo, , é solução do problema primal e é solução do problema dual
(2)Seja solução de (que existe, pelo item 1). Sabe-se pelo item anterior que o problema primal tem solução e que .
Seja solução de . Então, é ponto de sela de , logo valem as desigualdades:
.
Uma vez que está fixo e a segunda desigualdade vale para qualquer , conclui-se que é solução do problema
As soluções deste problema são soluções de e, consequentemente, do problema original.
Exercício
Verificar se existe salto de dualidade nos problemas em dualidade para o seguinte problema de minimização:
Exercício
Juntamente com o problema do exercício anterior, considere o seguinte problema:
Os problemas são equivalentes? (no sentido de que têm as mesmas funções objetivo e o mesmo conjunto de restrições) O que acontece com relação às condições de KKT?
Apesar de não ser convexa, é válido o resultado do teorema? Para que serve KKT? É possível resolver o problema dual e usar a resposta para resolver o primal?
Exercício
Experimente escolher e uma transformação linear, e um poliedro (intersecção finita de semi-espaços). É difícil de resolver o problema primal. Tente resolver o dual, usando os métodos conhecidos.
A seguir será apresentada uma proposição que responde a uma pergunta deixada anteriormente:
Proposição
Considere o problema a lagrangiana e os problemas em dualidade e e soluções de .
Se é solução do problema
(o conjunto dos pontos que satisfazem as restrições) e , então é também uma solução do problema .
Tal proposição fornece um roteiro para quem precisa resolver o problema relativamente difícil:
Primeiramente, resolve-se ;
Depois, constrói-se o problema e encontra-se uma solução para o mesmo;
Finalmente, se satisfaz as últimas condições da proposição, ele é também uma solução de .
Demonstração
Se é uma solução de , . Então, pela definição de , tem-se:
Como é solução de , então:
ou seja,
Portanto,
Por outro lado, como , tem-se e .
Por hipótese, , então
Logo,
.
Então para tem-se que e . Consequentemente,
quaisquer que sejam , ou seja,
,
quaisquer que sejam .
Portanto, é ponto de sela de , e assim, é solução primal (solução de ), e em consequência, solução de .
Resumo do esquema de dualidade
Neste ponto, pode-se sintetizar a estratégia geral para a resolução de problemas de otimização utilizando esquemas de dualidade.
Considere o problema
onde são funções de classe , e seja a lagrangiana definido por
.
Convenciona-se que:
é a variável primal;
é a variável dual;
Nesse sentido, "o é o dual de " (não confundir com o significado que essa expressão teria na análise funcional. Ver nota sobre a terminologia), ou seja:
é onde "mora" a variável primal ;
é onde "mora" a variável dual ;
Definem-se então as funções e da seguinte maneira:
, dada por
e
, dada por
A partir destas duas funções, formulam-se os seguintes problemas duais:
e
É possível verificar que equivale ao problema original e que consiste da maximização de uma função côncava em um poliedro (convexo).
Logo, o dual de é .
Conclusões
Dado qualquer problema , seu dual é um problema côncavo (isto é, a função objetivo é côncava), tal que os pontos satisfazendo o conjunto de restrições formam um poliedro convexo.
Apesar da controvérsia filosófica existente acerca do nome destes conceitos (coisa que poderia muito bem vir a ser alterada no futuro), a moral da história é que "transforma-se um problema geralmente difícil (sem estrutura) em um problema mais fácil (cheio de estrutura)".
Uma nota sobre a terminologia
Na subárea da matemática denominada Análise Funcional, quando se tem um espaço topológico , costuma-se chamar de dual topológico ao conjunto .
Aparentemente, os conceitos de dual da otimização e da análise funcional não tem relação um com o outro.
Um dos primeiros a falar de dualidade (espaços duais) foi o francês Fenchel, mas foi fortemente criticado por Urruty e Lemaréchal, pois os dois conceitos de dualidade não estão relacionados. Também o francês Brezis concordou que há um problema a ser resolvido com a nomenclatura, e um dos conceitos deveria deixar de ser chamado assim.