Neste capítulo o objetivo é desenvolver algumas ideias e provar o teorema de Karush–Kuhn–Tucker (também chamado simplesmente de teorema KKT) que será utilizado no capítulo seguinte para explorar os métodos duais.
O teorema KKT é bem útil para resolver problemas do tipo
Cones
Definição
Um conjunto é um cone quando
Exemplo de um cone no .
Em outras palavras, a propriedade que caracteriza um cone é que este tipo de conjunto contém todos os múltiplos não nulos de qualquer de seus elementos.
Definição
Dado um subconjunto , o cone polar de é o conjunto definido por
.
Observações:
é um cone: Se tem-se que . Logo, para qualquer , vale . Disto segue que , mostrando que é um cone.
Sempre se tem que (Verifique).
Na segunda propriedade a igualdade pode não ocorrer (exemplo?). Para o objetivo deste texto, o ideal seria que a igualdade valesse. Mas será que isso ocorre para algum conjunto? A resposta é sim e, conforme o próximo lema, basta que seja um cone convexo fechado.
Este módulo tem a seguinte tarefa pendente: Incluir a definição de projeção antes deste ponto, pois ela será usada durante a demonstração
Lema (Farkas)
Se um cone convexo fechado, então .
Demonstração
Seja e . Sabendo que a projeção de um ponto sobre um conjunto convexo é única, será mostrado que e então ficará provada a inclusão . Disto seguirá a igualdade entre os dois conjuntos, já que é sempre um subconjunto de .
Pelo teorema da projeção (ver Izmailov & Solodov (2007)), tem-se que . Usando o fato de que é cone, segue que e e substituindo isto na equação acima obtem-se
e .
Dessas desigualdades, conclui-se que .
De , tem-se que .
Usando a definição de cone polar, isso implica que .
Uma vez que , significa que .
Desses fatos acima se conclui que
Isso mostra que .
Definição
Dado , se diz que é uma direção viável em , com respeito a , quando existe tal que
.
O conjunto de todas as direções viáveis em , com respeito ao conjunto , será denotado por .
Esse conjunto é o cone das direções viáveis em , com respeito a .
Definição
Uma direção é uma direção de descida da função em , se existe tal que
.
O conjunto das direções de descida será denotado por .
Caracterização das direções de descida
Lema
Seja uma função diferenciável em . Então
.
satisfaz .
Demonstração
1) Seja . Então, tem-se .
Usando a série de Taylor, tem-se
Sendo ,
.
Passando o limite com tem-se que .
2) Novamente aplicando Taylor em tem-se
.
Como , tem-se
.
Pela hipótese , com isto
.
Pelo teorema da conservação do sinal, existe tal que .
Portanto,
.
Conclui-se então que .
O cone viável linearizado
Definição
Dado , a desigualdade é uma restrição ativa em se .
Observações
O conjunto formado pelos índices das restrições de desigualdade ativas é denotado por . Assim,
Definição
Dado um ponto e o conjunto , se define o cone viável linearizado de a partir de como
.
é um cone não-vazio convexo e fechado pois, . E se , tem-se
e
.
Portanto mostrando que é convexo.
Para mostrar que é fechado, pode-se pegar uma sequência convergente e mostrar que o ponto de acumulação dela esta em .
Tem-se que .
Passando o limite com , obtem-se
e
.
Isso mostra que é fechado.
Lema (Caratheodory)
Sejam . Seja com e escalares tais que e
.
Então existem subconjuntos e escalares com e tais que
e os vetores são linearmente independentes.
Demonstração
Sem perda de generalidade, suponha que e . Considere que sejam linearmente dependentes.
Portanto existem escalares com e com não todos nulos tais que
Multiplicando a igualdade acima por e subtraindo de
tem-se
Para certamente nenhum dos coeficientes acima se anula.
Seja o de menor módulo que anula pelo menos um dos coeficientes ou . Então
Assim, se escreve como combinação linear de no máximo vetores já que .
Repetindo esse processo obtem-se uma combinação linearmente independente.
Definição
Dado um ponto , se define o cone por
.
A seguir, serão mostradas algumas propriedades deste cone.
Lema
Para qualquer , é um cone convexo e fechado.
Demonstração
Primeiro será mostrado que é de fato um cone. Seja e . Então tem-se
.
Como tem-se que .
Agora, será provado que é convexo. Para isso seja , isto é,
e
e .
Logo tem-se,
.
Como visto que e . Com isso concluímos que mostrando que é convexo.
Para mostrar que é fechado, toma-se uma sequência convergente em e se mostra que o ponto de acumulação dela pertence a .
Para isso seja com . Será mostrado que .
Escrevendo em forma matricial tem-se .
Pelo Lema de Caratheodory podemos assumir que tem colunas linearmente independentes, e portanto é não singular.
Uma vez que , existem com tais que .
Uma vez que é não singular, .
Passando o limite obtem-se,
com .
Isso mostra que .
Agora passando o limite em obtém-se , mostrando que .
Lema
Para qualquer , .
Demonstração
Como e são convexos e fechados, tem-se que e . Será mostrado então que .
Seja . Assim, dado tem-se
Mas e e .
Conclui-se então que . Como é arbitrário, .
Agora a volta, seja , isto é, .
Em particular, uma vez que e , tem-se que .
Além disso, uma vez que , tem-se que .
Logo .
O cone tangente
Definição
Um vetor é chamado direção tangente em a partir de quando ou ou tal que
e .
Observações
O conjunto de todas as direções tangentes no ponto , é denominado cone tangente, e denotado por .
Se , então também pode ser descrito como
Exercício
Verifique que é de fato um cone (e portanto merece ser chamado de "cone tangente").
Resolução
A resolução deste exercício é deixada a cargo do leitor. Sinta-se livre para melhorar a qualidade deste texto, incluindo-a neste módulo.
Exemplo de cone tangente
Determinar o cone tangente ao ponto do quadrado unitário com vértices , , e .
Resolução
Cone tangente a um quadrado unitário com vértice na origem.
Dado qualquer ponto do 2º quadrante (formado pelos pontos tais que e ), pode-se definir:
Com essas escolhas, tem-se:
Logo, .
Propriedades do cone tangente
O cone tangente definido anteriormente tem as seguintes propriedades:
é fechado e
Se então
Se é uma vizinhança de , então
Observação
A terceira propriedade indica que o cone tangente só depende do que ocorre bem perto de , no conjunto .
Lema
Para qualquer , é fechado.
Demonstração
Seja com . Será mostrado que .
Caso , . Então, suponha-se que .
Neste caso, sem perda de generalidade pode-se considerar que , pois .
Fixando tem-se que . Portanto, existe tal que e quando .
Assim para existe tal que para , tal que e .
Em particular, tomando tem-se
e .
Tomando o limite quando , obtem-se que e
.
Logo .
Isso mostra que .
Exercício
Verificar que:
.
Se e , então .
Demonstração
1) Seja , . Logo tal que , e .
Usando Taylor em torno de tem-se
.
Já que , então logo pode-se dividir e obtem-se
.
Passando o limite quando , tem-se .
Novamente usando Taylor em torno de para tem-se
Passando o limite quando tem-se .
Donde se conclui que .
2)
Este módulo tem a seguinte tarefa pendente: Colocar figura
Lema
Se é um mínimo local do problema (P), então .
Demonstração
Por Taylor tem-se
Passando o limite quando obtem-se
Donde .
Teorema KKT
Teorema (Condições de KKT)
Seja e considere um minimizador local do problema
Se , então existem e tais que:
.
Demonstração
Considere um minimizador local do problema (P). Então . Pela definição de cone polar isso significa que .
Pela hipotése tem-se . Como obtem-se que .
Como foi visto acima é um cone convexo e fechado. Portanto usando o Lema de Farkas obtem-se que .
Pela definição de , existem escalares com e com tais que